Luiz Antonio Mello: Por que Belchior sumiu?

Na terça-feira passada, dia 26, Belchior teria feito 75 anos. Ele morreu aos 70, em 2017, sumido, auto implodido, auto deletado, socialmente desintegrado e provavelmente feliz numa cidade lá do sul do Brasil.

Há anos, um dos maiores compositores da música brasileira, estrela de primeira grandeza nos anos 1970, 80, 90, decidiu submergir. Penso eu, do alto da minha ignorância jurídica, que sumir é um direito de qualquer cidadão, mesmo que deixe para trás um rastro de afetos empenados, de dívidas existenciais e financeiras.

Cadê Belchior? virou pergunta do dia, dos dias, de todos os dias nos principais meios de comunicação e até hoje, parece, não há uma resposta objetiva. O ótmo livro “Viver é Melhor que Sonhar – Os Últimos Caminhos de Belchior” (Sonora Editora) narra a saga de Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti que pegaram as estradas e ao longo de centenas de quilômetros foram atrás da resposta.

A sinopse do livro conta que “Belchior era um artista respeitado, dono de um repertório do qual qualquer músico poderia se orgulhar, carreira de sucesso, padrão de vida confortável, cercado de amigos, cercado de amores.

“Com 60 anos recém-completos, deixou tudo isso para trás, rumo a uma jornada incerta e anônima pelo sul do país, que terminaria com a sua morte dez anos depois. Nas páginas de “Viver é Melhor que Sonhar – Os Últimos Caminhos de Belchior”, o leitor vai mergulhar neste polêmico e misterioso período da história desse artista e vai descobrir que Belchior viveu de maneira insólita e extraordinária, conhecendo pessoas diversas, lugares interessantes e relações inusitadas, com fãs perplexos que abrigaram um astro da música em suas casas sem saber muito bem por que ele estava ali.

“Em parte, o astro buscou este caminho; em parte, foi conduzido a ele. O livro foi escrito enquanto os autores percorriam todas as cidades por onde Belchior passou durante o seu período de exílio.”

Seria onipotência afirmar que todo mundo já teve vontade de sumir alguma vez na vida, mas não é exagero dizer que foi, ou é, o desejo de alguns. Com certeza várias vezes me olhei no espelho com vontade de desaparecer e  ir viver outra vida em outro lugar.

Algo bem próximo do que Albert Camus escreveu: “Amanhã, tudo vai mudar, amanhã. De repente, ele descobre que amanhã será igual, e depois de amanhã, e todos os outros dias. E essa irremediável descoberta o esmaga. São ideias semelhantes que nos fazem morrer. Por não conseguir suportá-las, as pessoas se matam – ou, quando se é jovem, fazem-se frases sobre elas”.

Ou:

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio.

Deixar de existir sem ter que morrer parece ter sido o atalho de Belchior para sumir. Em geral, nesses casos, boa parte da sociedade define essa atitude como má fé ou fraqueza, covardia, ignorando a possibilidade dele ter sofrido muito ao decidir abrir mão do convívio com filhos, amigos.

O músico sempre teve a coragem de expôr suas aflições, angústias, pandemônios existenciais ao longo de quase 30 álbuns. Uma discografia que nasceu com “Belchior”, de 1974, mas explodiu com o espetacular “Alucinação”, de 76, que já mostrava ao mundo que viria chumbo grosso por aí:

“Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve/ Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve/ Sons, palavras, são navalhas/ E eu não posso cantar como convém/ Sem querer ferir ninguém/ Mas não se preocupe meu amigo/ Com os horrores que eu lhe digo/ Isso é somente uma canção/ A vida realmente é diferente/ Quer dizer/ Ao vivo é muito pior”

(“Apenas um Rapaz Latino Americano”)

“Você não sente não vê/ Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo/ Que uma nova mudança em breve vai acontecer/ E o que há algum tempo era jovem novo/ Hoje é antigo/ E precisamos todos rejuvenescer.

(“Velha Roupa Colorida”)

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro/ Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”

(“Sujeito de sorte”)

“O que transforma o velho no novo/ Bendito fruto do povo será/ E a única forma que pode ser norma/ É nenhuma regra ter/ É nunca fazer nada que o mestre mandar/ Sempre desobedecer/ Nunca reverenciar

(“Como o diabo gosta”)

“Um preto, um pobre, um estudante, uma mulher sozinha/ Blue jeans e motocicletas, pessoas cinzas normais/ Garotas dentro da noite, revólver: cheira cachorro/ Os humilhados do parque com os seus jornais/ Carneiros, mesa, trabalho, meu corpo que cai do oitavo andar/ E a solidão das pessoas dessas capitais/ A violência da noite, o movimento do tráfego”

(“Alucinação”)

“Palavra e som são meus caminhos pra ser livre/ E eu sigo, sim/ Faço o destino com o suor de minha mão/ Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa/ E não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza/ Sempre é dia de ironia no meu coração/

(“Não leve flores”)

“Sei que assim falando pensas/ Que esse desespero é moda em 76/ Mas ando mesmo descontente/ Desesperadamente, eu grito em português

(“A palo seco”)

“Vamo’ cantar pra o Brasil ouvir bem alto/ Eu vou pagar a conta/ A conta da tristeza/ E nisso cai na mesa o seu retrato/ Veja amigo este rosto/ É a razão do meu desgosto”

(“Fotografia 3X4”)

“Não era pra você ficar/ Não era pra ser tão bom/Não era pra eu acordar te pedindo pra não ir/ Então, se quiser pode ficar/ Antes disso ter um fim/ Só não olha mais assim pra mim/ Não olha mais assim

(“Antes do fim”)

Se em sua carta testamento Getúlio Vargas escreveu que “deixo a vida para entrar na história” podemos afirmar que Belchior optou por deixar a história para entrar na vida.

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