Luiz Antonio Mello: Os ventos da saudade

Um dia desses o amigo Hilário Alencar postou uma bela mensagem no Facebook. Escreveu sobre a saudade que sente de momentos da adolescência, férias em Araruama. Foi naquela imensa lagoa, com seus 220 quilômetros quadrados de superfície, que ele aprendeu a velejar. Para se ter uma idéia, a cidade de Niterói possui 129, 3 quilômetros quadrados.

O vento da saudade que fez o Hilário escrever aquele post acabou me levando também. Araruama está em minha memória afetiva por causa de outro amigo, Alvaro Fernandes, que também tinha casa lá. Álvaro já era amigo de Hilário, estudavam na mesma turma no Abel nos anos 1970. O destino jogou as cartas e eles acabaram trabalhando juntos na Rádio Fluminense FM a partir de 1982 (ou teria sido 83?), Hilário na produção musical e Álvaro no departamento de promoções.

Meus pais eram amigos/irmãos dos pais de Alvaro (Dona Cacá e Dr. Álvaro) e de vez em quando íamos passar o sábado na casa deles. Dias sensacionais boiando naquela lagoa de água extremamente salgada. Leio na Wikipedia que Araruama é a maior massa de água hipersalina em estado permanente no mundo, superando o Grande Lago Salgado (Estados Unidos), Lago Coorong (Austrália), Lago Enriquillo (República Dominicana) e a Lagoa Ojo de Liebre (México).

Saudade, saudade, saudade. Quando eu fingia gostar de andar na barca Rio-Niterói (já estava de saco cheio daquilo, estudando e trabalhando no Rio eram 506 travessias por ano, ida e volta, considerando um ano com 253 dias úteis) procurava me abstrair tentando sentar na janela onde lembrava de momentos do passado. Muitos cariocas acham a barca “um charme, uma delícia”, pensando que é mole tomar 506 pratos de sopa de cebola por ano já que o trajeto era o mesmo, implacavelmente o mesmo. Lento, quente, cadeira de madeira, fedor de cigarro.

Talvez tenha sido numa barca dessas que fui muito duro em meu conceito de saudade; achava que era coisa de infeliz que usa as cores do passado como muletas. Erro! A saudade pode fazer bem, por que não?

A primeira professora universitária mulher do planeta, a crítica literária, escritora, lexicógrafa Carolina Michaëlis (Prússia, 1851 – Portugal, 1925) define assim a saudade:

“Saudade é a lembrança de ter sido feliz em tempos passados, que não voltam mais; a pena de não estar feliz no presente, ou de estar feliz só na lembrança; e o desejo e a esperança de no futuro tornar ao estado antigo de felicidade.”

Pois é, mas não significa que faça mal.

A palavra vem do latim “solitatem” (solidão), passando pelo galego-português “soidade”, que deu origem às formas arcaicas “soidade” e “soudade”, que sob influência de “saúde” e “saudar” deram origem à palavra atual.
Existe um mito multissecular segundo o qual a palavra ‘saudade’ só existe na língua portuguesa e como tal não tem vocábulos equivalentes em outras línguas, impossibilitando uma correta tradução. No entanto, segundo Carolina Michaëlis, apesar de ser a sétima palavra mais difícil de ser traduzida para idiomas não latinos, existe saudade em alemão, hebraico, polonês, romeno, turco e japonês, entre outras.

Os linguistas e afins dizem que a expressão “matar a saudade” (ou “matar saudades”) é usada para designar o desaparecimento (mesmo temporário) desse sentimento. É possível “matar a saudade” relembrando, vendo fotos ou vídeos antigos, conversando sobre o assunto, reencontrando a pessoa que estava longe etc. “Mandar saudades”, por exemplo no sul de Portugal, significa o mesmo que mandar cumprimentos.

Eles afirmam que a saudade pode gerar sentimento de angústia, insatisfação, nostalgia e tristeza, e quando “matamos a saudade” geralmente sentimos alegria. No Brasil, esse sentimento está muito retratado no samba de fossa e na bossa nova. Em Portugal, o termo também é usado para descrever a sensação de “simplesmente estou muito bem na minha vidinha e de repente sou trucidado com qualquer coisa que vejo, ouço ou cheiro e te põem à minha frente”.

Como a maioria (suponho) tento extrair o melhor do tempo presente, mas não nego a minha saudade de pessoas, lugares, aromas até de tempos quando eu sequer existia. O Rio de Machado de Assis, por exemplo, eu adoraria dar um pulo lá, como seria ótimo assistir aos saraus de Lili Leitão no Café Paris. Lili era Luiz Antônio Gondim Leitão (1890-1936), dramaturgo, poeta de rara contundência humorística e o Café Paris foi um restaurante de Niterói, que serviu como ponto de encontro entre poetas e intelectuais da década de 1910 à década de 1920.

Entre os frequentadores do Café Paris estavam, além de Lili Leitão, Nestor Tangerini, Renê de Descartes Medeiros, Luiz de Gonzaga, Altino Pires, Alcides Figueiredo, Raul Sá Pinto, Luciano Gualberto, Júlio Seabra, Isidro Nunes, Guilherme Cruz, Joaquim Peixoto, Eurípides Ribeiro e Luís de Sousa Dias. No imóvel, onde também funcionava um hotel, foi demolido em 1942 para a abertura da Avenida Amaral Peixoto.

Café Paris foi o nome de um programa de TV que eu e o amigo Luiz Erthal fizemos. Erthal pôs o Café Paris no You Tube e como ele conhece tudo de Niterói e do estado do Rio (é dono da editora Nitpress) me contou tantas histórias incríveis que aconteceram naquele café, que volta e meia dá vontade de pegar um ônibus e ir até 1915. Aliás, recomendo uma caçada a um livro raro : “Lili Leitão , o Café Paris e a Vida Boêmia de Niterói”, de Lyad de Almeida, lançado em 1996 pela Niterói Livros. Tem na Estante Virtual.

Sobre livros, Marcos Sabino, presidente da FAN, deu uma excelente notícia em entrevista a Livia Figueiredo do site “A Seguir Niterói”:

“Nós resgatamos um catálogo e vamos lançar um aplicativo, onde vamos disponibilizar os livros em e-book, vários livros em domínio público e alguns livros que a gente pode negociar o direito autoral por um tempo e tornar acessível para as pessoas. Os escritores da cidade, que têm seus livros, também podem colocá-los no aplicativo. Vai ser uma entrega muito legal. As pessoas não conhecem o acervo, de modo geral. A Niterói Livros tem 28 anos e 62 livros publicados.”

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