Luiz Antonio Mello: Os 40 anos do Rock Brasil e da Fluminense FM a “Maldita”

As merecidíssimas comemorações pelos 40 anos do Rock Brasil vão começar mês que vem e só vão terminar (se é que terão fim) no final de 2022. É claro que não existe um marco zero formal registrado em cartório, uma certidão com data e hora do nascimento do Rock Brasil, mas o seu surgimento está diretamente relacionado com a decolagem da Rádio Fluminense FM, a Maldita, inaugurada em 1  de março de 1982 em Niterói.

A primeira grande celebração será o festival “Rock Brasil 40 anos” que vai começar no dia 6 de outubro num grande palco de  34 x 12 metros montado na Praça da Pira, na Candelária, onde vão tocar dezenas de artistas reverenciando os anos 80, década da liberdade, do prazer, da democracia. O festival vai ocupar uma área de 11 mil e 500 metros quadrados, com praça de alimentação, – quiosques e food trucks -, postos médicos, etc.

É uma produção da Peck Produções e do Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) que garantem que todos os protocolos sanitários exigidos pela Prefeitura do Rio serão seguidos à risca. Por exemplo, quem for entrar nos espaços deverá apresentar certificado de vacinação completa ou teste negativo para Covid-19 realizado nas últimas 72 horas. Além disso, a área, com capacidade para 5 mil pessoas, terá apenas metade da ocupação, garantindo um mínimo de distanciamento.

A poucos metros dali, no Centro Cultural do Banco do Brasil, o público poderá assistir, gratuitamente, a exposições de fotos dos anos 80, palestras sobre o rock brasileiro e uma mostra de cinema.

A programação do Rock Brasil 40 Anos no CCBB Rio de Janeiro também inclui a apresentação de espetáculos consagrados como Cássia Eller – O Musical; Renato Russo – O Musical; Cabeça, Um Documentário Cênico; e Cazas de Cazuza, além de pocket shows com artistas e bandas como Inocentes, Fausto Fawcett, Uns e Outros, Claudio Zoli, George Israel, Paulinho Moska, Rodrigo Santos, Julia Mestre, Marcelo Nova, Leoni e Humberto Effe. Relação de artistas que vão se apresentar e todos os detalhes do festival estão neste link: https://www.rockbrasil40anos.com.br/

O rock nascido no começo dos anos 1980, completamente diferente do que foi feito nas décadas anteriores, foi apelidado, naquela época, de Rock Brasil pelo jornalista Jamari França, assim como a expressão B Rock foi inventada pelo também jornalista Arthur Dapieve.

Com certeza a mais importante plataforma de lançamento do Rock Brasil foi a Rádio Fluminense FM. A “Maldita”, importante berçário daquela geração do rock, também fará 40 anos em 2022.

Lembro do entra e sai constante de músicos no prédio onde funcionava o jornal O Fluminense, em frente a rodoviária Roberto Silveira  no Centro de Niterói, que abrigava a rádio. Os artistas levavam fitinhas K7 com as suas músicas para tocarem na rádio. As fitas eram avaliadas pelos produtores. Quem era aprovado, tocaa na rádio e era sugerido para se apresentar no Circo Voador no explosivo projeto “Rock Voador”.

Lobão apareceu lá com a fita master de seu primeiro LP, “Cena de Cinema” que nós tocamos na íntegra. Celso Blues Boy se chamava Celso Carvalho e mostrou uma fitinha K7 que, aprovada, foi ao ar. Detalhe: no percurso de poucos metros entre a sala da produção e o estúdio da Maldita ele mudou o seu nome artístico para Celso Blues Boy, uma homenagem a seu mentor B.B. King (Blues Boy King).

Com o passar do tempo foram ao ar dezenas de fitas de nomes como o Kid Abelha, Sangue da Cidade, Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Bacamarte e muitos outros. De Niterói surgiam bandas como Alynaskyna e Baga da Praia.

Recentemente fui entrevistado por Ana Cláudia Guimarães no seu ótimo “Papo Rock”, uma série de lives sobre o festival Rock Brasil 40 Anos no Centro Cultural do Banco do Brasil e falamos muito desse conluio entre a rádio, os artistas e os ouvintes.

Quando a rádio foi ao ar o rock brasileiro estava, digamos, em um eclipse.Programávamos gigantes como Mutantes, Raul Seixas, O Terço, Rita Lee, alternativos (ou “malditos”) como o grupo Rumo, Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Sergio Sampaio e Karma, A Bolha, A Barca do Sol, enfim, muito som da década de 1970.

Com a chegada dos novos nomes e suas fitas K-7, vimos nascer o Rock Brasil, em geral com músicas mais curtas, diretas, letras que abordavam o cotidiano dos ouvintes e, em muitos casos, mostravam uma pegada social e política. A sonoridade emulava o pós punk da Europa e Estados Unidos e, claro, muita ironia, deboche, piada, simbolizadas, por exemplo, pela Blitz, Serguei, João Penca e os Miquinhos  Amestrados. O Brasil começava a se livrar da ditadura (que acabou em 1985) o que refletiu diretamente no cenário cultural.

A sucessão de eventos, discos, livros, citações, dão a impressão de que os anos 1980 são uma década que não terminou. Livre, libertina, liberal, liberada, a década se eternizou como uma tatuagem, por sinal, moda que renasceu naquela epoca.

Ouço muito a velha frase “como eu era feliz naquele tempo” porque, realmente, o Brasil estava começando degustar a liberdade, tanto individual como coletiva. E liberdade sempre deixa muita saudade.

O mais curioso é que muita gente que sequer era nascida na época curte hoje o pop rock oitentista que não para de superlotar os lugares por onde passa. É assim nos shows dos Paralamas do Sucesso, Dado Villa Lobos e Marcelo Bonfá (Legião Urbana), Blitz, Titãs, enfim, muitos nomes daquele tempo estão aí, tocando e gravando com vigor.

O Rock Brasil & Fluminense FM foram imortalizados porque foram originais, criativos, engraçados e, quando necessário, não amarelaram diante da opressão.

É isso aí.

Contato – luizantoniomellomail@gmail.com

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