Luiz Antonio Mello: O Suor da Liberdade

Este artigo, ou crônica, ou ilação, ou surto, não importa a definição, foi construído mentalmente numa fila de banco onde, inserido no gado submisso de uns 80 cidadãos em pé, com fome, sede e fúria enrustida, padeci quatro horas para ser atendido.

O texto nasceu depois que uma senhora, com quase 90 anos, sussurrou baixinho – mas nem tanto – com a sua acompanhante que “essas situações humilhantes nos levam a pensar em coisas horríveis…incendiar essa agência, por exemplo, com os milicianos dentro. Nunca imaginei que iria desejar coisa parecida…não comenta nada lá em casa.”

Os milicianos (ela usou Português antigo) eram os guardas de segurança, armados com pistolas, arrogantes, “agora quem manda somos nós”, como os capitães do mato e capatazes de fazendas da era pré Princesa Isabel, sangravam até a morte o dorso dos escravos com golpes de correntes usadas como chibatas.

E, como ópio, meu texto emergiu.

As massas polares que frequentam o outono agarram o azul mais profundo do céu infinito, realçam o verde das árvores, visitam as ocas das nossas reflexões, olhar levemente crítico; “o que estou fazendo neste filme?”.                                 

Reflexões se enroscam no sentimento de indiferença geradas pelas crises existenciais, mar de marolas que engrossa, engrossa e vira anunciando as ressacas. Ressacas, irmãs do inverno, das pedras e conchas geladas, vento soprando de leste, amor sem tempos de cólera.

O suor da liberdade, mesmo enfraquecido pelo desestímulo e depressão que o desprezo e o desterro provocam, mergulha em trilhas áridas e sofridas que graças à luz do outono parecem jogar a favor. Nada contra a primavera e o verão, mas o calorão mata de dor as reflexões plácidas. E neste outono as reflexões plácidas, covardes, cederam lugar a humilhação do desprezo e da indiferença que o sopro de ar, em sua mendicância crônica, tenta desesperadamente chamar de mal entendido.

De volta a fila.

Caos.

As notícias dos últimos dias sobre o DesBrasil devidamente miliciado, tascado, roubado, ofendido, tem aviltado a leveza das folhas molhadas, o orvalho que vomita nas calçadas. O noticiário jorra esgoto, dá vontade de parar de querer saber o que não está acontecendo. O noticiário dá vontade de escarrar na cara dos milicianos privados e fardados, seguranças da agencia, e tombar morto, fuzilado. Melhor morrer dignamente do que viver sob o jugo do desprezo e da humilhação.

Aí, o sonho:

O jesuíta olhou para a minha cara com aquele semblante de verme, de miliciano, ordenou que me jogassem nu sobre um tronco de pau brasil e me capassem. Acusado de poligamia, outono de 1550, o jesuíta decretou monogamia, “entendeu, índio pervertido?” ele berrou no centro da clareira, onde outros milicianos, colonos e degredados eram pagos para rir e matar, naquele sul de Bahia, primeiro passo para o fim.

“Essas vergonhas de fora, penduradas…eu vi você em cópula com aquela moçoila que agora sangra e ri, à sombra daquela árvore; vi depois tu pegar a mãe dela e depois a irmã dela e depois…para! para! Para! Índio degenerado… a sua felicidade vai acabar me matando!”.

O jesuíta olhou para a minha cara com aquele semblante de verme, e miliciano, e ordenou que eu morresse. O sangue quente jorrava entre minhas pernas abertas sobre o tronco de pau brasil onde me caparam. Consegui ouvir os gemidos que o vento trazia da floresta; o choro das minhas viúvas; minhas filhas; minhas amantes. Gemiam a dor da partida, o fim da partilha sobre o tronco de pau brasil.

A dor de querer saber compensa mais do que a dormência da ignorância, por si só, boçal, totalmente boçal que nos engessa numa redoma de lata sem o menor sentido.

Na lata da auto censura vão estar imagens de milicianos, fardados paisanos, estuprando famílias na mesa de jantar, com anuência e estímulo do novo Estado armado em prol das famílias. Deles.

Fundamental continuar querendo saber e, ao mesmo tempo, contemplar o azul profundo do céu levemente gelado do outono que desperta sentimentos profundos, belos e, por que não, alguns nós na garganta.

E o vento sopra, leva o orvalho, as luzes, o azul do céu de outono, todo prazer que houver nessa vida.

Gozai.

Amém.

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