Luiz Antonio Mello: O recado de Júlio Vasco

Niterói e estado do Rio chocados na última quarta-feira com a morte do jornalista Júlio Vasco, 60 anos.

Foi horrível.

Ele fazia a sua habitual caminhada no calçadão da Praia de Icaraí, acompanhado da esposa, a também jornalista e nossa amiga Sandra Duarte, e por volta das dez e meia da manhã sentiu-se mal e caiu.

Não deu tempo do socorro chegar.

Júlio morreu logo, mas o corpo ficou horas exposto no local, naquela mórbida, cruel, revoltante e injustificável espera das autoridades pela liberação. Uma falta de respeito que atinge a todos.

O Brasil permanece no século 16 no quesito respeito, dignidade, humanidade. A sensação de que o Estado que nós sustentamos, com todo o petrolão, rachadinhas , centrão e outras sub atividades imundas, imorais, aéticas, criminosas, é absolutamente insensível a dor alheia.

Mesmo sendo esse alheio um contribuinte que paga seus impostos rigorosamente em dia, para que não deixe faltar bons vinhos, caviar, fios d´ovos importados da Escandinávia para as fartas ceias dos marajás que sugam os mamilos do Estado.

O povo ordeiro, capacho de todas as horas, não deixa faltar sequer o Viagra do fim de noite, colocado ao lado do vick vaporub e das pistolas na mesinha de cabeceira do poder.

Júlio Vasco era um cara do cacete e nossos papos rolavam em lugares sempre impregnados de cultura, praia dele, minha praia. Sua morte súbita chega como um recado para quem não vive a urgência a vida em tempo real.

Sem culpa, sem compromissos excessivamente formais capazes de engessar, imobilizar, em prol de sagrados dogmas e famílias que, no final, atiram flores e comentam “coitado, foi uma boa pessoa”.

Júlio e eu conversamos horas e mais horas no MAC, anos atrás, sobre “Indiscipline”, uma música da banda que adoramos, King Crimson. Júlio Vasco sabia tudo sobre rock progressivo (ficou nos devendo um livro) e também amava o caos genial do King Crimson.

“Indiscipline” é um manifesto beat/existencialista que prega a vida urgente, “o minuto é um milagre que não se repete”, “o amanhã é uma possibilidade”, “eu me torno incoerente quando estou sob pressão”, “para morrer basta estar vivo”, etc.

O Júlio disse “quando chegar em casa, vou ouvir de novo…bilionésima vez (risos)”. Eu também, disse a ele.

Um jornalista apaixonado pelas letras, pela vida. Chegava mansamente nos lugares, atento a detalhes que anotava num bloquinho. E como todo jornalista adorava um papo, de preferência sobre a vida, sobre as artes, sobre o cotidiano.

Perder Júlio Vasco foi profundamente lamentável para muitos de nós que tivemos o privilégio de conhecê-lo.

Saindo aqui de A TRIBUNA na noite de quarta-feira, depois de um temporal, pedalei para Icaraí passando por um dos lugares mais tristes, revoltantes e desumanos que conheço. Tema de um desabafo meu e de Júlio, há uns dois anos.

As calçadas da avenida Amaral Peixoto, principalmente à noite, há anos estão transformadas num depósito de miseráveis que nem humanos parecem, tema de um dos últimos papos que tive com ele.

Hordas de gente que não param de chegar, sabe-se lá de onde, em busca sabe-se lá de que, que a cada dia ganha uma nomenclatura inventada pelo cinismo da sociocracia.

Agora, os desgraçados são chamados de “invisíveis” e os mendigos de “população em situação de rua”. Quanto mais inventam expressões de teor sub intelectual, enaltecendo a auto estima da plutocracia que infesta o Estado, mais a indigência aumenta.

Resolver é o de menos. O importante é causar.

Júlio Vasco, à sua maneira, questionava esse desprezo do Estado pelos humildes, só lembrados de dois em dois anos, nas eleições, quando são transformados em dígitos, massa de manobra nas bocas das urnas.

Enfim, o Júlio não está mais por aqui, mas o seu recado vai ecoar por muito tempo.

Parabéns, meu chapa!

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