Luiz Antonio Mello: O que Lizzie Bravo viu, ouviu, sentiu

A morte da cantora, jornalista, fotógrafa, pesquisadora Lizzie Bravo, 70 anos, muito querida por amigos, colegas, músicos, muito querida pelo mundo continua ecoando. Ela partiu na última segunda-feira em consequência de problemas cardíacos, provocando muita comoção.

A última vez que a vi foi há dois anos. Eu estava na plateia quando ela conversou com o público da Niterói Beatle Week no Solar do Jambeiro, em Niterói, onde durante horas inesquecíveis contou em detalhes a sua vivência com os Beatles em 1968.

Ela foi a única brasileira que gravou com John, Paul, George e Ringo. No mesmo encontro, estava o pesquisador e jornalista, um quase amigo irmão da Lizzie, Ricardo Pugialli, uma das maiores autoridades em Beatles no mundo, que neste sábado, as seis da tarde, fará uma homenagem especial a ela em seu programa “60 Minutos de Beatlemania”, na Rádio LAM. Links para ouvir: www.radiolam.com.br ou https://www.radios.com.br/graficos/radio-lam/165270

Mesmo passados 51 anos, Lizzie falava com emoção, como se a gravação que fez com a maior banda de todos os tempos tivesse acontecido um dia antes. O colega Mauro Ferreira, que fez uma brilhante matéria sobre a partida dela no G1, lembrou que Lizie tinha 17 anos no dia desse feito histórico, 4 de fevereiro de 1968.

Como presente de aniversário de 15 anos ela pediu aos pais uma viagem a Londres. Na Niterói Beatle Week ela lembrou que “naquele tempo pouca gente viajava para lá, mas eu e minha amiga estávamos determinadas a ver os Beatles. Não como fãs histéricas. Ficamos semanas e mais semanas sentadas em frente ao estúdio Abbey Road (na época se chamava EMI) vendo eles entrando e saindo.”

Lizzie sentiu que os Beatles perceberam não se tratar de fãs malas e começaram a cumprientar, trocar umas frases, especialmente Paul McCartney. Mauro Ferreira descreveu que no dia 4 de fevereiro de 1968, um domingofrio em Londres, Lizzie estava dentro do prédio quando Paul McCartney perguntou se alguma delas cantava uma nota aguda.

Cantora, Lizzie se apresentou e juntamente com uma amiga inglesa fez um dos vocais da gravação de “Across the Universe”, música inicialmente arquivada pelos Beatles que somente ganhou o mundo quase dois anos ao ser apresentada no álbum coletivo beneficente “No one’s gonna change our world”, editado em 12 dezembro de 1969.

Na discografia dos Beatles, a versão de “Across the universe com Lizzie” aparece também nas coletâneas “Rarities” (1978) e “Past masters” (1988).Ela canta no refrão “Nothing’s gonna change my world” . Ouça neste link: https://www.youtube.com/watch?v=iotagMCkJRE . Aqui, a própria Lizzie conta mais detalhes: https://www.youtube.com/watch?v=870JoZXyt94

No Brasil, Lizzie Bravo gravou vocal em discos de Alceu Valença, Alcione, Caetano Veloso, Djavan, Egberto Gismonti, Elba Ramalho, Ivan Lins, Joyce Moreno, Maria Bethânia, Maria Creuza, Milton Nascimento, Roberto Carlos, Zé Ramalho e muitos outros.

Foi casada com o cantor e compositor Zé Rodrix (1947 – 2009), com quem teve uma filha, a também cantora Marya Bravo. Lizzie se orgulhava de dizer que foi a “esperança de óculos” que está na canção “Casa no Campo” (Tavito e Zé Rodrix, 1971).

Impossível mensurar o que Lizzie Bravo viu, ouviu, sentiu em seu convívio no mundo dos Beatles dentro do blindado santuário da banda, o estúdio Abbey Road. Basta imaginar  o que sentia uma garota de 17 anos, lá em Londres, dividindo um microfone com o seu maior e declarado amor platônico, John Lennon.

Sem a Lizzie, o mundo fica menos utópico, menos poético porque ela nos mostrou que quando os nossos sentimentos são autênticos os sonhos acabam se materializando. Os Beatles foram uma estrela mágica que trouxe a este complicado planeta, mensagens de amor, paz, tudo aquilo que John Lennon escreveu em “Imagine”. Pessoas especiais como a Lizzie Bravo souberam difundir não só a grande arte, mas o infinito sonho dos Beatles.

Descanse em paz, Lizzie.

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