Milton Nascimento e o Sete de Setembro

Foto: Milton Nascimento na Prainha de Piratininga, verão de 1972. Foto do Cafi.

Luiz Antonio Mello

O estado do Rio de Janeiro não assistirá mais shows, nem ouvirá mais álbuns inéditos de Milton Nascimento.

Neste fim de semana ele faz a sua última apresentação em uma arena na Barra, depois termina uma turnê pelo Brasil e Europa e em seguida se aposenta e volta para sua casa em Juiz de Fora.

Neste 2022 faz 80 anos, decidiu que é hora de parar. Uma decisão que me deixou dividido. Feliz pelo merecido descanso desse herói, triste por sua ausência anunciada.

A trilha sonora de Milton marca a minha vida como tatuagem. Desde o primeiro, “Travessia” (1967) foram quase 40 álbuns.

Foi na foz dos anos 1970, acho que em 1977, que conheci Milton Nascimento na casa de um amigo comum, em Icaraí.

Era véspera do feriado de 7 de setembro, Dia da Pátria, uma data que foi festiva até o ano passado, quando passou a ser esculachada.

Por volta das 11 da noite, Milton disse que ia embora e eu o acompanhei até um ponto de táxi na Praia de Icaraí, na pracinha do cinema. Ele morava no Rio.

Uma caminhada animada. Naquele tempo, as ruas ficavam cheias, os bares alegres, pessoas indo e vindo.

Claro, Milton era parado para dar autógrafos, na maior boa vontade, tranquilidade. As pessoas falavam com ele que, tímido, sorrindo, respondia com sílabas.

Estava feliz. “Gosto de Niterói”, ele disse. Só bem mais tarde soube que ele, Lô Borges, Beto Guedes e companhia alugaram uma casa na então deserta Prainha de Piratininga (Mar Azul) no verão de 1972 para compor as canções do revolucionario album “Clube da Esquina”.

Falava pouco, mas dizia muito através de suas músicas. Sabia que era um gigante, mas, como todo gigante, esbanjava humildade.

Quando chegamos a praça, o taxista se aproximou. “Sou seu grande fã”, disse meio sem jeito. “Por favor, peço um autógrafo para a minha filha”, e entregou um caderninho. Milton respondeu “então vou escrever dois autógrafos, um para a sua filha e outro para você”. O taxista não resistiu e abraçou o ilustre passageiro.

Quase fui ao seu último show no Rio. Arremeti justamente porque é o último e as músicas do Milton sempre me fizeram celebrar começos.

Foi no começo da abertura política que o entrevistei. Coincidentemente numa véspera de feriado do Dia da Pátria, 7 de setembro, final de tarde.

Ele, eu e uma assessora de imprensa no maravilhoso restaurante Pérgula, junto a piscina do Copacabana Palace. Mais Rio, impossível.

“Eu adoro ver essa gente de todos os tipos curtindo essa praia. Uma vez, na França, eu vi um poster de Copacabana numa loja que pensei ser de brasileiros, mas era de um francês. Seu sonho era conhecer Copacabana que achava se tratar de uma praia de ricos. Expliquei que nada disso, Copacabana é democracia, é de todo mundo. De um lado o Copacabana Palace, do outro, os hoteizinhos baratos nas ruas internas”, disse o cantor.

Mal sabia ele, mal sabíamos nós, que um dia sequestrariam os cofres da Petrobras. Anos depois, cuspiram ódio e nos tomaram a bandeira do Brasil, roubaram o hino, o Dia da Pátria e a Praia de Copacabana onde estão tentando fazer uma inominável, infame e terrorista arruaça, em benefício próprio de um mau militar (definição do general Ernesto Geisel), seus familiares e capachos em geral. Diz que estará à frente de “seu exército, marinha e aeronáutica”, mais Polícia Militar e o que ele chama de “minhas irmãs, forças auxiliares”, seja lá o que sejam essas tais forças auxiliares.

Sou de um tempo em que se respeitava o Dia da Pátria, transformado em Dia dos Párias, mas como diria o já saudoso Jô Soares, daqui a pouco a gente volta.

P.S. – Meus agradecimentos aos médicos Guilherme Lobosco Werneck e Alfredo Bonfim.