Como é linda uma terra sem ladrões

Luiz Antonio Mello

Um dia desses desatinei e assisti a TV aberta durante meia hora.

Percebi que a presunção da inocência que me habita insinuou sair, sorrateira, e golfar sobre a minha quase sagrada condição de réu primário.

Na TV apareceu uma quadrilha que até bem pouco tempo atrás estava em cana por corrupção aguda, comprovada, confessada, descarada.

A quadrilha voltou ao cenário político com a cara deslavada dos desavergonhados.

A justiça resolveu jogar suas próprias decisões no lixo, tipo “nada disso existiu”.

Os vilões da Lava Jato viraram heróis e agora, maquiados, carinhas de anjo, desfilam na TV fazendo campanha eleitoral promtendo um Brasil limpo como se dissessem “entubem a vassoura, seus otários”.

Sabem aquelas imagens diárias, centenas de meliantes que assaltaram o estado entrando algemados em camburões da polícia a caminho do xilindró?

Cabeças baixas, expressão de “ai, meu Deus”, “dancei”. A justiça ordenou que nada daquilo aconteceu, o Brasil voltou a ser uma terra sem ladrões.

Nãoé fofo?

A revista Veja, que voltou a ser uma musculosa e corajosa publicação, estampou semanas atrás:

“A conta da corrupção: R$ 25 bilhões já dretornaram aos cofres públicos; balanço do Ministério Público do Paraná dá uma ideia do volume de dinheiro desviado durante os governos petistas; A Petrobras, até agora, é uma das maiores beneficiárias da devolução de recursos.

A estatal já recebeu em seu caixa 6,28 bilhões de reais, a partir de acordos da Lava-Jato firmados com empresas, empresários e diretores que participaram do esquema de corrupção na estatal.”

Estão devolvendo dinheiro roubado apesar do universo paralelo da justiça resolver voltar atrás e, e daí!, dizer que tudo o que decidiram deixou de existir, como se 215 milhões de brasileiros tivessem tomado doses industriais de LSD.

Começassem a inventar malas com R$ 51 milhões encontradas pela polícia em setembro de 2017 num apartamento de um ex-deputado, ex-ministro, ex-presidiário e de novo livre e candidato.

Não será surpresa se essa dinheirama voltar para as contas dos ladrões, agora fichas limpas e travestidos de réus primários.

O cineasta José Padilha está em processo de auto flagelação por ter feito “O Mecanismo”, série que enche a bola de Sergio Moro. Padilha disse que “fui ingênuo. Mas não só eu, um monte de gente caiu na mesma ilusão”.

Padilha, todo mundo viu Sergio Moro rasgar a toga e se jogar nos braços de Bolsonaro, a quem foi servir na sub condição de lacaio.

O homem forte da Lava Jato, herói nacional aplaudido até em estádios de futebol, em pouco tempo estava sendo humilhado publicamente pelo presidente que não escondia o prazer de conseguir fazer, em semanas, o que Lula & asseclas tentaram por anos: jogar Sérgio Moro no vaso sanitário da história. E dar descarga.

De quebra, Bolsonaro e seus quatro sinistros e enrolados filhos, mulher, ex-mulheres, centrão, enterraram viva a Lava Jato.

Nesse novo Brasil inventado pela justiça onde, fora os pobres e miseráveis e parte da classe média, todo mundo é santo, os eleitores estão diante de as duas bizarras opções que lideram as pesquisas: Lula (leia-se Dilma, Zé Dirceu, Gleisi…) e Bolsonaro (leia-se Centrão, Flavio, Eduardo, Carlos, forças armadas, Damaris….).

Tentaram inventar uma terceira opção, chamada de terceira via, tão incompetente que se envolveu numa guerra de leite de rosas antes mesmo da corrida começar.

Abro aqui o meu desesperado voto para não dizerem que é fácil ficar em cima do puro jogando tijolo no pinteiro. Vou votar em Ciro Gomes. Ponto.

Como é linda uma terra sem ladrões. O cara do Uber distribui flores dizendo que nunca foi tão próspero. O idoso beija o boleto do plano de saúde, com o valor reduzido em 70%, o aposentado comemora a chegada da conta de luz, a mais barata dos últimos 40 anos. Seu Yamamoto da padaria é homenageado pelos fregueses por causa dos preços baixos e da distribuição de roscas (sem duplo sentido). Já o sushiman Carvalhão, eufórico com a deflação de 5,8%, joga rolinhos primavera pro alto. Os bancos estão sem filas, os gerentes nas calçadas beijam a mão das idosas, oferecem empréstimos a juro negativo aos trabalhadores. Acabam os moradores de rua que ganham casas dignas do governo, com jardim e cachorro. Eufóricas, tainhas e camarões, trocando de biquini sem parar, sacolejam de alegria na translúcida lagoa de Piratininga. O bispo Sardinha, de tanga, berra do alto da Pedra da Baleia: “LSD adoidado, Pindorama!

E assim cavalga a humanidade.

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