Luiz Antonio Mello: As 59 vidas dos Rolling Stones

A morte do baterista Charlie Watts terça-feira gerou uma comoção mundial por várias razões. Integrante dos Rolling Stones desde o nascimento da banda, em 1962, sua morte foi mais um baque num mundo que tem sido afogado por más notícias, visivelmente saudoso de alegria, de cor, de energia dos  anos 1960, 70, 80.

Inegavelmente a música da banda sempre foi um vulcão de energia, de alto astral, uma poderosa lanterna acesa na treva e a partida do Charlie abriu um rombo. Sabemos que os Stones não vão parar, que no lugar dele vai estar o lendário baterista, produtor, diretor musical, amigo pessoal da banda Steve Jordan (que já estava escalado para a próxima turnê), mas quando olharmos para o centro do palco, sentado na bateria Gretsch, não vai mais estar aquele senhor elegante, tocando o seu estilo econômico e infalível.

Lembrei de um Festival do Rio que me jogou nos braços de dois filmaços: “The Rolling Stones Olé Olé Olé!: A Trip Across Latin America”, e “Havana Moon: The Rolling Sones Live in Cuba”, ambos de Paul Dugdale. Assisti aos dois nas salas do Reserva Cultural – Niterói, sensacional, áudio 5.1 e tudo mais.

“Olé, Olé…” é um road movie que reafirma o poder revolucionário do rock; estimulante e vivo. O filme narra com emoção a excursão que detalha todos os vínculos emocionais dos latino-americanos com os Stones, banda que toca há 59 anos. O filme é o retrato da banda no topo da montanha, que já viu tudo, mas permanece faminta como os grandes predadores, disposta a não largar o osso, seguir em frente até a erupção final.

O documentário detalha a rota: os Stones explodiram o planeta nesta turnê, explorou novos horizontes com performances alta octanagem desaguando no Uruguai, Peru e Colômbia, cidade de Porto Alegre, e, claro, Cuba, pela a primeira vez. Os fãs veem Mick Jagger, Keith Richards, Charlie Watts e Ronnie Wood hipnotizarem pirâmides de gerações seduzidas por clássicos como, “(I Can not Get No) Satisfaction”, “É Só n Rock ‘ roll “,” Wild Horses “,” Mulheres honky tonk “,” Paint It Black “e” Miss You “.

O filme de 105 minutos parece nos arrastar para dentro. A banda mergulha nas culturas locais das cidades e o espectador contempla a influência de cada destino na banda e na vida pessoal dos músicos.

Na Argentina, a cultura mega fã dos Stones é analisada; no Uruguai, o grupo visita uma família de bateristas; no Brasil, Richards e Jagger recordam que foi na fazenda de Walter Moreira Salles em Matão, São Paulo, 1968, que escreveram “Honky Tonk Women” num andamento folk. Também em São Paulo, Ronnie Wood pinta com o amigo brasileiro, Ivald Granato (1949-2016), com quem conversa sobre a importância da arte em sua vida e começa a esboçar um quadro.

Em Lima, Peru, a banda “Relógios Dançarinos” se junta aos Stones antes do show; e em Cuba uma viagem pela ilha. Ao longo do filme o espectador mergulha no desafio que foi fazer o monumental show por lá, através de entrevistas com o promotor da turnê, produtores, gerentes de logística, e os próprios membros da banda.

No outro filme, “Havana Moon…” o show gratuito que atraiu um milhão de pessoas na capital de Cuba na mesma semana em que Barack Obama se tornou o primeiro presidente dos EUA a visitar Cuba em 88 anos. A CNN em todo o mundo informou que Obama era “o aquecimento” para os Rolling Stones. Não havia nada que impedisse a banda e seus fãs ansiosos, nem o Vaticano que se opôs a um grande show de rock numa sexta-feira santa. Keith Richards diz “o papa não é meu produtor”.

Mick Jagger saudou a enorme multidão: “Finalmente, os tempos estão mudando” e brincou com os colegas de banda durante o show chamando de “o revolucionário Ronnie ‘Che’ Wood.

Os críticos concordaram que foi um grande show:

“Os Stones tiveram um desempenho impressionante em Havana” 
New York Times

“Espetacular e formidável” 
The Guardian

“Eu nunca vi nada parecido com isso” 
Sunday Express

“Noite inesquecível em Havana – os Stones abalaram o lugar” 
The Washington Post

“Épico e histórico” 
Daily Telegraph

Imagem: Pintura de Sophie Downey

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