LUIS ANTONIO MELLO INICIA COLUNA SEMANAL EM A TRIBUNA

Jourdan, Mário, Sandra, Jornal de Icaraí, A Tribuna e a máquina do tempo

Luiz Antonio Mello

    Esta é uma reentrada na atmosfera. Essa tinta, esse papel, o cheiro deste jornal me pega pelos cabelos e me joga lá em 1972, quando, magro, cabeludo, roqueiro e meio hippie, subi a escada do prédio na Ponta D’Areia onde a Tribuna funcionava.
    Entrei e falei com Mário Dias, que sentava de frente para a escada, estressado. Rápido eu disse “tenho algumas coisas para escrever para o Jornal de Icaraí”, e o Mário, sem tirar o olho de uma lauda, “então, senta ali e escreve porque tenho um buraco na página seis”, me disse, sem saber quem eu era.
    Escrevi. A mão, na intenção de passar a limpo. Ouvi uma voz grave, um cara que passava por ali, e o Mário comentou “ele é o
    dono do jornal, Jourdan Amóra. Vou lá dentro falar com ele, explicar quem é você…por falar nisso, como é mesmo seu nome?…Ah, tá, quantos anos? Porra, 17 anos? Você é menor?… Acho que não vai dar”.
    Mário saiu dali, voltou 15 minutos depois. “Está escrevendo?”, perguntou. “Amão? Ah, não…faz o seguinte, senta na máquina e sai fuzilando, cata milho, faz qualquer coisa, mas a mão não, pelamordeDeus. Quando terminar, não lê. Me entrega, entendeu?”.
    Entendi. Escrevi. Terminei. Entreguei. Saí. Peguei o 31 e, sentado no último banco, fumando Caporal Amarelinho. Minha carreira como cronista tinha durado 45 minutos, achei que nunca mais voltaria ao Jornal de Icaraí.
    Perto da rodoviária, um sujeito relativamente bêbado veio andando, balançando no coletivo e rosnou “esse seu cigarro tem cheiro de mata rato…apaga isso”, educadamente respondi “não vou apagar, não” e o sujeito ficou meio que sem saber o que fazer e, desmoralizado, voltou para o lugar.
    Sábado chegou. E sábado era dia de molestar Sandra Gelatina, uma ruiva boa pra cacete, mais velha, que morava na Mem de Sá, que não me dava a menor condição. Devia me achar um placebo.
    Durval, porteiro, meu chapa, disse assim “acho que o seu nome saiu no jornal”. Peguei e estava lá, na página seis “Três Transas”, por Luiz Antonio Mello. Nascia ali a minha coluna no Jornal de Icaraí, o pioneiro entre os jornais de bairro.
    Pior, nascia mais um jornalista e a culpa é desta Tribuna, mãe do J.I. e trincheira do Mário Dias, hoje um amigo. Claro, peguei o jornal e, como todo sábado, fingi que apreciava rolinhas nas árvores até Sandra Gelatina, abrir o portão da casa amarela e sair, rebolando, vestido colado, seios, bunda, gelatina tremendo pelas ruas enlouquecendo a homarada.
    Kamikaze, me atirei na frente dela com o Jornal de Icaraí na mão e, mostrei a coluna fingindo frieza e inventando dúvida inventos dúvida: “Sandra, você acha que esse parágrafo está bem explicado?”. Ela era professora de Geografia, mas no vale tudo da savana, qualquer flecha é lança.
    “Você é muito folgado, sabia? Eu vou falar com a sua mãe”. Mas levou o jornal.
    Os dias voaram, a mãe de não sei quem comentou que eu estava virando marginal, que até “com comunistas de jornal está se metendo”. Sandra não reclamou com a minha mãe, não rasgou nem devolveu o jornal e…posso falar?, embolou comigo no Jardim São João, as três horas da tarde em um dia de semana. Foi depois da aula de acordeão que ela tinha no Conservatório de Música que há 105 anos existe na rua São Pedro.
    Descobri o poder da imprensa.
    Ponto.
    Jourdan, você não vai lembrar daquele dia quente de 1971, mas eu jamais esquecerei. De você, do Mário, do JI, da Tribuna, do cheio do mar da Ponta D’Areia e do aroma de Sandra Gelatina, cuja história continua.
    Dandan, cheguei.

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