Lugar de Cinema é na sala de cinema

Por Luis Antonio Mello

Nem vem que não tem, nem vem de garfo porque hoje é dia de sopa. Por mais que a tecnologia avance, invada, imponha protocolos e comportamentos, assistir a um filme numa sala de cinema não tem comparação.

Com todo o respeito (?) ao steaming é inimaginável para a minha soberba ignorância assistir, por exemplo, “2001, uma Odisséia no Espaço”, clássico de Stanley Kubrick, na telinha de um celular. É como namorar dentro de um bidê. Como muitos outros clássicos, “2001…” foi pensado para a tela inteira da sala de cinema, a de 70 milímetros. Como esmagar aquela obra de arte numa caixinha pouco maior do que um maço de cigarros? E o áudio? E a sala escura, o silêncio? E a ausência de interrupção?

Não me considero um cinéfilo porque só vou ao cinema somente uma vez por semana. O grande diretor e amigo  Evaldo Mocarzel (https://bityli.com/pLQ2Vl) , uma das cabeças mais brilhantes do país, dono de um coração que está entre os mais generosos que baixaram aqui no planeta Terra, vai ao cinema todos os dias. Literalmente, não é força de expressão. Não conheço um filme que Evaldo não tenha assistido, e quem acompanhou a sua odisséia fantástica na imprensa (durante anos, como editor chefe, ele revolucionou o “Caderno 2” do Estadão) sabe do que estou falando.

Já está na minha agenda de desejos reprimidos (finalmente liberaram os cinemas!), um reecontro com um de meus heróis da telona desde os tempos de garoto. Verei no Reserva Cultural Clint Eastwood em “Cry Macho: O caminho para a redenção”. Segundo Célio Silva, do G1, “o filme estrelado e dirigido pelo veterano ídolo busca desconstruir imagem de durão com leveza e bom humor. A produção foi feita em plena pandemia.”

Não gosto muito dessa ideia do Clint detonar a imagem de durão. Sou um dos milhões de órfãos de Harry Callahan, detetive gélido, blasé, invulnerável, machão pra cacete, mas bem light, que ele inventou nos anos 1970.

A gente entrava no cinema, desligava o interruptor da realidade e mais ou menos sabia o que ia ver: vitória, vitória, vitória, nenhuma bala fora, nenhum erro e, claro, algum cinismo, deboche e charme. Parei de assistir Superman, Batman e Homem Aranha porque os autores resolveram empurrar os super heróis para a miséria existencial dos humanos.

E, em se tratando de miséria humana, existencial e social, nada supera as famílias famintas e doentes amontoadas  sob as marquises de muitas cidades brasileiras, aguardando desde 1.500 o mínimo de consideração e humanidade por parte desse estado cronicamente venal, empulhador, canalha.

Também irei assistir a Daniel Craig que se despede de James Bond, personagem que incorporou por anos. “007, sem tempo para morrer” é o 25º filme da franquia e ninguém sabe se Bond, James Bond, também irá para o museu. Pelo que leio, o filme traz uma mistura de carros novos e velhos clássicos.

André Paixão, da Auto Esporte, conta que logo nas primeiras cenas, o mais icônico dos carros de James Bond dá as caras. O Aston Martin DB5 da década de 1960 surge paramentado e em seu melhor estilo: usando artimanhas como cortina de fumaça e as metralhadoras retráteis no lugar dos faróis para fugir de vilões a bordo da versão atual do Jaguar XF e do Maserati Quattroporte de quarta geração, lançado na metade dos anos 1990.

Nas cenas seguintes, outros Aston Martin sucedem o lendário cupê. O mais extremo deles, porém, sequer se move. É o Valhalla, hipercarro híbrido de 950 cv que combina dois motores elétricos e um V8 central 4.0 biturbo. E muitos e muitos outros carros aparecem no caminho. O maior agente do cinema chega a pilotar um heróico Toyota Land Cruiser Prado, provavelmente idêntico ao do amigo e profundo conhecedor de carros Hilário Alencar.

Sala de cinema é um templo que começa na antesala. Café, pipoca, papo, amigos, conhecidos, cartazes de outros filmes, a mágica começa ali. A sala é um santuário silencioso, bem refrigerado, luz amena. Antes do filme começar, as plateias civilizadas falam baixo, desligam o celular sem que a gente precise pedir e em poucos minutos uma bruma de paz parece nos envolver.

Quando o filme começa, a tela grande, generosa, parece nos dizer “veja o que é Cinema de verdade”.  O áudio? Alto, graves e agudos na medida, o som atravessa a sala, esquerda, direita, vai lá atrás, volta e em menos de 10 minutos nos vemos dentro do filme. Sem campainha, interfone, makita, marreta, martelo, gritos de gol e outras moléstias que assediam as quase sempre interrompidas sessões caseiras que vemos no sreaming. Claro, tem muito valor, mas, cá entre nós, Cinema no cinema é outra conversa.

Aliás, adoraria assistir de novo, num cinema, é claro, a “Bullitt”, de Peter Yates, estrelado por um outro herói da adolescência,       Steve McQueen. Gostaria de rever na telona a sequência que quase me fez arrancar a cadeira do Cinema Icaraí de tanta aflição.

É a longa e lancinante perseguição pelas ladeiras de São Francisco (EUA), de um Dodge Charger R/T, pilotado por um assassino e outro era um Mustang GT 390 de Bullit, ou Steve McQueen. Ele mesmo, sem dublê.

Em breve, quando superado o trauma da pandemia, penso que as salas de cinema vão voltar a encher porque sair de casa já é terapeutico e entrar num cinema é garantia de alívios inimaginágeis.

Lembro que estão estreando também: “O Jardim Secreto de Mariana”, de Sergio Rezende, “O Silênio da Chuva”, de Daniel Filho e “A Dona do Barato”, de Jean-Paul Salomé

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