Lombos em chamas

Luiz Antonio Mello

Trajano de Moraes, RJ – enviado especial Senhor Calor, gosto da sua sinceridade. Você sempre disse que no Brasil só há duas estações: quente e muito quente. Tens toda a razão, calhorda, safado, pústula. Por isso defendo o naturismo nacional 24 horas, todo mundo nu como baleias jubarte encalhadas em Búzios.

Vejo na TV o suor em picas, digo, em bicas das adiposas repórteres pantaneiras, irrompendo matagal a dentro, fogo lambendo as taparracas em desespero, jacaré subindo em árvore, elas, afoitas como soteropolitanas com o acarajé em camas, digo, em chamas na panela de barro.

Qual morcega de Olavo Bilac ao molho pardo, escalavrado pelo ir e vir do termômetro analógico, depus as armas, abri o bico, entubei o robalo. Isso mesmo, estação do meu suplício, pedi arrego e decidi tentar conviver melhor contigo, numa boa, na paz.

Imploro-te, velhaco, pare de roçar o lombo do povo contra as ostras. Verão, você não tem culpa se os caras estão desmatando, poluindo, arrombando a camada de ozônio como Chica das galáxias, aquela dama do terminal, engolidora de churros e tainhas vivas. Mas nós também não desmatamos nada e você nos trata como operadores do Pelo Zero, mesmo sabendo de nossa inconfessável preferência por barrancos florestados como a agonizante mata atlântica.

Lembro de meus antepassados falando da “brisa de verão” mas, meu chapa, até essa brisa roubaram, apesar do alce do cerrado, militar expulso a escarradas, estirpe de corno, ex pintor de meio fio de quartel, afirmar que acabou com a corrupção no Brasil. Sôda-se, diria Fócrates, não conheci a brisa de verão, aquele farfalhar de lingeries jogadas ao vento num fim de tarde na praia de Icaraí.

Sabe aquele convite “vamos tomar um refresco num fim de tarde de verão?”, não rola mais, patife hediondo, não rola mais. Só nos resta o angustiado litro de Fogo Paulista derramado no mofo do sundown, salvador dos párias que engatinhando imploram por ar-condicionado e cópula urgentemente.

Sabe, verão, um dia desses liguei para um restaurante que vende peixe de rio sem espinhas, piranhas sem dentes, sereia ao alho e óleo e caximbau, o melhor peixe trombeta de São Fidélis. Perguntei: 1) O ar condicionado está gelando?; 2) Mesmo quando a casa está cheia?; 3) Quantos B.T.Us?

Verão, além de isentá-lo do Pelo Zero na flora e fauna (duplo sentido) decidi sentir menos calor. Montei uma bateria de ventiladores de seis pás que transformam minha casa na costa da Califórnia em dias de pré temporal. Um vendaval quente como o busão da Fagundes as 6 da tarde.

Aí você pergunta “por que não liga o ar-condicionado? E eu te respondo, caro Verão: com a cumplicidade do governo, há uns anos os caras que nos vendem eletricidade inventaram bandeiras para cobrar mais. Justificam dizendo que por causa da falta de chuvas os reservatórios estão vazios e eles, tadinhos, tem que gastar dinheiro (nosso) ligando usinas termoelétricas. Atualmente a bandeira que inventaram está verde, sem acréscimo, mas mesmo assim, no verde, a conta é um crau no sul.

É por essa e por outras que inocentei você, caro Verão, que é tão vítima desses porcos quanto nós, ou, como diria Luiz Antonio Gondim Leitão, o Lili Leitão:

Eu

Luiz Leitão

Nasci em Niterói, lugar ordeiro,/Terra de Arariboia, santa e benta,/ No dia vinte e cinco de janeiro/ Do ano mil oitocentos e noventa./ Não sou moço, pois vou para o quarenta;/ Também não sou nenhum velho cangueiro./ Vivo da pena, minha ferramenta:/ Sou poeta, burocrata e “revisteiro”./ Rabichos, tive um só, pela Chiquinha;/ Dinheiro, tenho visto uma porção,/Na algibeira dos outros, não na minha./ E, assim, lutando, sem tombar de borco,/ Hei de ser sempre o mesmo Luiz Leitão,/Leitão que nunca há de chegar a porco…

Sigamos em frente, encostados na parede.

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