Livre mercado: eles entram com o sabre e a gente com os glúteos

Começo com um trecho de um ótimo livro do doutor em História, o paulista Marcos Costa que escreveu “História do Brasil para quem tem pressa: Dos bastidores do descobrimento à crise de 2015”:

“Millor Fernandes tem uma frase que resume bem o quadro do Brasil atual; ele diz: ‘O Brasil tem um grande passado pela frente` . (…)

“(…) É verdade. Quem são esses fantasmas do passado que insistem em nos assombrar? (…)

“Segundo Raymundo Faoro, a comunidade política conduz, comanda, supervisiona os negócios, como negócios privados seus, na origem, como negócios públicos depois (…) Dessa realidade se projeta a forma de poder, institucionalizada num tipo de domínio: o patrimonialismo.

(…) Desde 1500 os mesmos objetivos os animam: a espoliação, a expropriaçao, o lucro, a exploração. Esses fins justificam os meios utilizados, que passam sempre ao largo de um projeto de país, sempre ao largo dos interesses do povo.

(…) Não existe no Brasil, nem nunca existiu, um projeto de nação. Um projeto robusto que levasse em conta o interesse de todos, planejado para durar gerações e que pairasse acima dos eventuais problemas políticos. Como o que aconteceu no Japão, arrasado na Segunda Guerra Mundial”.

O livro tem apenas 200 páginas e fala do descobrimento até a roubalheira do petismo que inventou e empoderou algo pior, o bolsonarismo e, agora, algo muitíssimo pior, um monstro chamado bolsopetismo, que é a fusão do petismo com o bolsonarismo visando mais grana e poder. São bandidos da mesma cepa, como as milícias que se unem ao narcotráfico. Recomendo a leitura de “O bolsopetismo da Petrobrás”, de Malu Gaspar, no Globo, que observa a aproximação de José Dirceu, Aluísio Mercadante e outros capos do PT batendo o rabinho para Bolsonaro, via Petrobrás. O artigo está neste link : https://glo.bo/2ZTsjWa  

Os nababos, as castas que estupram o Brasil desde 1.500 conseguiram plantar um raro sentimento de nojo patriótico em muitos de nós (a plebe), que assistimos anestesiados os deputados inventando leis que os tornam intocáveis, livres de prisões em flagrante. Mais grave: dentro do lupanar chamado congresso há parlamentares que defendem até o símio e PM e parlamentar que foi preso por ofensas e por clamar a volta da masmorra do AI-5.

Os defensores da blindagem do banditismo na verdade piscam os cílios para o Treva, mas tem vergonha de entrar no armário. Usaram a defesa da constituição como escudo, como se ela fosse uma donzela ameaçada de estupro num beco escuro. Fingem que não sabem que a maior ameaça à constituição é Treva que tanto veneram. No entanto, se alguém da plebe é visto cuspindo acidentalmente na rua pode ser preso, quiçá espancado e morto.

O Brasil é regido pela escravidão do mercantilismo, que ganhou um apelido elegante: livre mercado. Ou seja, nos finérrimos andares de mármore que abrigam corretoras e outras milhares de empresas que enriquecem graças a especulação, um estado fraco só é pior do que um estado falido. Lula e sua gangue faliram financeiramente o estado brasileiro e elegeram o Treva (não falo e nem escrevo seu nome para não atrair energias negativas) que acabou de transformar o gigante adormecido num pária, num… (posso falar?) num… coliforme fecal internacional.

Treva pôs em nossa defesa um ministro da economia que nada fez, nada faz, nada fará, um banqueiro complexado, economista medíocre que nunca foi aceito pelos liberais da PUC-RJ. Foi como se pusesse uma moreia para proteger os polvos que são a sua iguaria predileta. Sucateando a Caixa Econômica, outro banqueiro, no Banco Central mais um, na Petrobras outro faminto general de pijama. A praga se espalha pela esplanada do ministério como o pó vermelho do cerrado e o pó branco de Wall Street.

Está ruim para todo mundo? Não. Está ruim para a massa sem empregos (antes da pandemia já eram 12 milhões de desempregados) porque a casta do funcionalismo público estatutária, a prova de demissões, está em casa ouvindo o tilintar do salário caindo em sua conta todos os meses. Não é culpa deles. É culpa de quem não fez concurso ou não tem pistolão.

Mas a situação está excelente, orgásmica, para os tubarões de bancos, corretoras, o mercado financeiro que dilapida isso aqui desde o terra à vista que aquele bêbado gritou na caravela de Cabral. Eles defendem ardorosamente, a ponto de amarrotar os seus terninhos comprados em Carnaby Street, o livre mercado, preços livres, flutuação “natural”. O Brasil não tem caráter para optar por um regime de economia liberal, onde o mercado decide quando e quanto aumentar preços. O liberalismo econômico funciona em nações dignas, corretas e não neste acampamento de déspotas que o Treva empurra para a africanização social, cultural e econômica numa velocidade impressionante.

O liberalismo à brasileira é um sabre enterrado impiedosamente em nossos glúteos. Há patriotismo no cartel dos planos de saúde, no cartel das distribuidoras de energia, no cartel da telefonia, no cartel dos combustíveis, no cartel de setores da mídia, no cartel do lulobolsopetismo, no cartel da justiça? Há patriotismo nos generais que agora vivem o bem bom da esplanada? Os fazendeiros de açúcar e os usineiros são patriotas e praticam lucros decentes? Os supermercados são voluntariosos e ficaram horrorizados quando a lata de óleo de soja pulou de 6 para 14 reais recentemente? Ou fingiram que não viram e brindaram entre si no final do expediente.

A definição oficial de nação é linda: agrupamento político autônomo que ocupa território com limites definidos e cujos membros respeitam instituições compartidas (leis, constituição, governo). Pergunto ao leitor, francamente. O Brasil se enquadra nesta definição?

O liberalismo à brasileira tem cara e boa pinta: gravatas de seda, colarinho branco, tubinho preto e bolsa Chanel para as moças, tubarões-fêmea muitas vezes mais ardilosas. E como não é de bom sair tacando fogo no país só nos resta torcer para que os caminhoneiros parem tudo porque nós temos razão. Chega da carregar meliantes na boleia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 + 11 =