Livrarias e sebos se adaptam à nova realidade e seguem em atividade

Diferentemente dos vizinhos cariocas que, nos últimos anos foram surpreendidos com a notícia do fechamento de algumas de suas livrarias mais importantes, os niteroienses amantes da leitura e apaixonados por livros, ao contrário, após longo período de inatividade do setor devido à pandemia do coronavírus, comemoram a reabertura de seus tradicionais sebos, assim como a chegada de novas livrarias à cidade.

No Rio, a triste sequência de fechamento das livrarias teve início em 2015, com o encerramento das atividades da lendária Leonardo da Vinci, após 63 anos de história. Três anos depois, em outubro de 2018, os cariocas foram surpreendidos com o inesperado anúncio do fechamento das duas unidades da Livraria Cultura na cidade. Já sob os efeitos da pandemia, em janeiro de 2021, foi a vez da tradicional Livraria Timbre fechar as portas. Por fim, a Livraria São José, considerada a mais antiga do Rio, fundada há 85 anos, não resistiu à crise e encerrou suas atividades, em março deste ano.

Inversamente à situação do setor livreiro da capital fluminense, em Niterói, apesar de o cenário também ser de crise, praticamente não há registro de fechamento de suas principais livrarias. Apenas a livraria Gutemberg, em Icaraí, e a filial da livraria Saraiva, no Plaza Shopping, precisaram se mudar para lojas menores devido aos impactos provocados pela retração do mercado (no caso da Gutemberg, a livraria também trocou de nome, passando a se chamar Schofer Books). Em contrapartida, nesse mesmo período de crise, Niterói ganhou duas novas e imponentes livrarias: a livraria Blooks, inaugurada em 2016, como parte integrante do complexo Reserva Cultural, em Gragoatá, e a filial da Livraria da Travessa em Niterói, inaugurada em dezembro do ano passado, em Icaraí.

De acordo com relato de funcionários, o grupo Livraria da Travessa avaliou que Niterói possuía boa demanda para receber a livraria. Também destacam que a empresa aposta no potencial do espaço em se tornar uma sala de encontro para os amantes do livro, na cidade. Além disso, justificam que o sucesso obtido através do sistema e-commerce (comércio eletrônico) contribuiu para que a empresa conseguisse manter a venda de livros novos em alta, mesmo no cenário de crise deflagrado pela pandemia e pela retração do mercado.

O sucesso da nova livraria reflete bem a expectativa gerada pelo grupo. Os colaboradores que trabalham na loja garantem que ela vem recebendo um bom público desde sua inauguração. Eles afirmam que é comum as pessoas aguardarem do lado de fora pelo horário de abertura da livraria. Também comentam que o movimento é intenso nos fins de semana, inclusive aos domingos. A artesã Angela Granato, moradora de Icaraí, destaca a questão do “imediatismo”. Segundo ela, é importante ter livrarias na cidade.

“No momento em que você está querendo um livro sem querer esperar pela entrega de uma compra feita pela internet, tem a opção de ir à livrarias. Sem falar que tem aquelas vezes em que você está passando e resolve comprar um presente. Daí você entra, escolhe e simplesmente compra”, explica a artesã.

Sebos da cidade confirmam a paixão dos niteroienses pelos livros

Antigas livrarias da cidade, que ao longo dos anos se especializaram na venda de livros usados (ou lidos, como preferem os livreiros), também demonstram vigor e vitalidade mediante o cenário de crise no setor. São estabelecimentos com décadas de atividade, como no caso das charmosas livrarias Ideal e Panorama, ambas localizadas no Centro de Niterói.

As histórias dessas livrarias, carinhosamente chamadas de “sebos”, se confunde com a própria história da venda de livros na cidade. Elas atravessaram o chamado “período de ouro” do mercado editorial brasileiro e fazem parte de uma história que foi descrita pelo estudo apresentado por Renato Ortiz, na obra “A Moderna Tradição Brasileira”. Nela, o sociólogo esclarece que nas décadas de 1960 e 1980 o setor livreiro se beneficiou de uma política implementada pelo governo federal que tinha por objetivo estimular a produção de papel e reduzir o seu custo. Conforme sugere o sociólogo, se for utilizado o ano de 1965 como referência, “o mercado praticamente quadruplicou, sendo que no mesmo espaço de tempo a população aproximadamente dobrou.

De acordo com Carlos Mônaco, um dos livreiros mais conhecidos de Niterói, a livraria Ideal foi fundada pelo seu pai, em 1946. Sr. Mônaco, hoje com 79 anos, lembra que foi trabalhar na livraria quando tinha apenas 15 anos: “minha vida, foi toda ela dedicada aos livros”, desabafa. Originalmente, a livraria funcionava na rua Visconde do Rio Branco. Anos mais tarde a loja passou a funcionar na rua Visconde de Uruguai e, em 1966, foi transferida para a rua Visconde de Itaboraí, onde funciona até hoje.

Mônaco explica que, desde o início, a livraria era frequentada por estudantes e intelectuais. “O público frequentador da livraria sempre foi grande e continuou sendo até esse atual momento que estamos vivendo [se referindo à pandemia]”. O livreiro destaca que o período entre os anos de 1970 a 2000 “foram anos maravilhosos!” Sr. Mônaco também esclarece que, entre os frequentadores de sebos, há todo tipo de interesse. “Temos os colecionadores interessados em livros de primeiras edições, com autógrafo; aqueles que buscam por livros que já estão esgotados; mas também temos aqueles que simplesmente procuram uma boa oferta”. Ainda de acordo com o livreiro, entre os gêneros mais procurados pelos frequentadores da livraria, estão os livros de literatura, religião, arte, filosofia, teatro e história do Brasil.

Nos estreitos corredores abarrotados de livros até o teto, a servidora pública Kátia Damasceno, 36 anos, vasculha as prateleiras em busca de mais uma obra para sua coleção. Ela explica que faz parte do grupo “Vida com Leitura”, que se reúne (atualmente de maneira remota, devido à pandemia) semanalmente para debater a leitura de clássicos da literatura. “Toda semana uma obra é escolhida para ser comentada em grupo. Sempre tem alguém que disponibiliza o arquivo digital, mas eu faço questão de vir aqui procurar o livro na livraria. Eu não abro mão de ter o livro físico durante minha leitura. Não gosto dos livros digitais, não é a mesma coisa”, justifica Kátia, feliz por ter encontrado seu livro da semana.

Sobre os impactos da crise no setor, Sr. Mônaco explica que as vendas realizadas através da internet (e-commerce) são essenciais para manter a livraria em atividade. “Atualmente, as vendas feitas através da internet são bem maiores do que as realizadas na loja, tendo crescido bastante nos últimos anos. Conseguimos vender livros para outros estados, alcançando um público bem mais amplo. Estamos vendendo muito bem na internet”, acrescenta o livreiro que, aos 79 anos de idade, sente orgulho de estar à frente de uma livraria que, com 75 anos de atividade, certamente figura entre as mais antigas do estado.

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