Liceu Nilo Peçanha: 170 anos de referência em ensino público

Anderson Carvalho –

É chover no molhado falar da decadência do ensino público, notadamente do estadual, agravada ainda mais pela crise econômica em que a gente vive. Porém, há alguns estabelecimentos que, embora também sofram de vários dos problemas dos outros, como falta de verbas, infraestrutura, entre outros, conseguem manter uma qualidade no ensino, apresentando um diferencial. O Colégio Liceu Nilo Peçanha, na Avenida Ernani do Amaral Peixoto, no Centro de Niterói, é um desses exemplos. Um dos mais tradicionais da cidade e por onde passaram filhos de famílias importantes nos anos 1940 e 1950, até hoje é uma referência na educação pública. Na próxima terça-feira (12) completa 170 anos de existência.

O estabelecimento é uma instituição de Ensino Médio, com 2.300 alunos atualmente, em turmas nos turnos da manhã, tarde e noite. O prédio histórico situa-se ao lado da Câmara Municipal de Niterói e em frente à Praça da República, onde, do lado oposto, encontra-se a Biblioteca Parque de Niterói.

Colégio Liceu Nilo Peçanha

Inicialmente batizado com o nome de Liceu Provincial de Niterói, criado por autorização do então presidente da Província do Rio de Janeiro, Visconde de Sepetiba, no ano de 1847, como resultado da fusão da Escola Normal, a primeira de ensino público nesta categoria criada nas Américas (1835), com o Liceu de Artes Mecânicas e a Escola de Arquitetos Medidores, sendo que os dois últimos só existiam no papel. Já recebeu outros nomes, como Liceu de Humanidades de Niterói e Liceu Popular de Niterói. A atual denominação foi definida em 1931, quando foi reinaugurado com o nome do ex-presidente da República Nilo Peçanha, que também governou o estado duas vezes. Durante três quartos do século XX foi considerado o melhor colégio público do estado, tendo uma qualidade de ensino comparável ao Colégio Pedro II, na cidade do Rio.

Pela instituição já passaram nomes como o escritor e jornalista Lima Barreto, o pianista Itajara Dias, o jurista Levi Carneiro, o ex-governador Roberto Silveira, os cantores Ronnie Von e Baby do Brasil, o prefeito Rodrigo Neves e o vereador Paulo Eduardo Gomes (PSol). Possui uma das bandas marciais mais antigas do estado, criada em 1962, e que sempre desfila na parada de 7 de setembro.

“Aqui no Liceu o aluno não se aprende apenas as disciplinas curriculares, como também sobre artes e ciências e, principalmente, a ter senso crítico. Temos ainda atividades nos contraturnos, como iniciação científica, o Grupo de Teatro do Liceu, o nosso coral, dança, rádio escolar e práticas desportivas”, contou a diretora Ana Maria Queiroz, há três anos e meio à frente da instituição. “O colégio sempre foi muito procurado. Atualmente fazemos a pré-matricula na internet, mas muita gente fica na porta desde a madrugada para conseguir vaga. Oferecemos simulado para o pré-vestibular e temos bons resultados no Enem e nos vestibulares da UFF e Uerj. O aluno pode aprender inglês, francês e espanhol”,citou Ana Maria.

A professora Ângela Filomena, de Português, Literatura e Produção Textual para turmas do 3º ano, está na escola desde 1987 e é uma das mais antigas do Liceu, além de ser uma das mais populares entre os alunos. “Colégio bem organizado. Os professores se ajudam. Nós incentivamos os estudantes a serem seres pensantes”, contou. No meio da entrevista, alguns dos alunos dela a viram e fizeram um sinal de “coração” com as mãos.

Patrícia Ferraz, de Literatura, está no colégio desde 1998. Leciona para turmas do 1º e 2º anos. “Aqui não temos grandes problemas de indisciplina. Os jovens amam a escola. Têm um cuidado grande. Nos respeitam muito”, afirmou.

Ana Carolina Camanho, de 18 anos, moradora do Cubango, cursa o 3º ano e quer fazer faculdade de Biologia. “Participo da Iniciação Científica no laboratório do colégio. Aqui aprendi valores para levar o resto da vida. Cresci como pessoa e fiz muitos amigos”, citou.

O colega dela, Leonardo Rangel, da mesma idade, morador de Tenente Jardim, gosta de praticar esportes e quer cursar Serviço Social. “Gosto muito de vôlei e futebol, que pratico aqui. O Liceu é tudo para mim. Ficarei triste quando sair. Aprendi a ser mais responsável”, disse.

Tendo passado por uma grande reforma em 1989, o prédio é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Cultural (Inepac). Nesta terça-feira, em comemoração ao aniversário, um grupo de alunos vai descer a escadaria do colégio cantando o hino da escola e na frente do estabelecimento soltarão pombas brancas.

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