Jovens vão das comunidades às passarelas internacionais

Anderson Carvalho –

Eles poderiam continuar em suas comunidades, tentando uma vaga em algum emprego como atendente em balcão de bar, vendedor de loja ou mesmo camelô, caso não conseguissem nada no mercado formal. Porém, alguns, por indicação de amigos e parentes, e outros, seguindo um sonho de infância, encontraram o professor Moisés Karran, de 57 anos, dono de uma escola de modelos em Niterói, que, como uma fada madrinha, mudou a vida destes jovens para sempre, fazendo-os conquistar as passarelas da moda do Brasil e do exterior.

“Desde que eu montei a escola na década de 1980 queria ajudar os jovens que não tinham condições de pagar um curso. Eu via que eles têm talento. Do outro lado havia pessoas oportunistas que ofereciam falsos cursos e com muitas promessas de trabalho, cobravam pelos books dos jovens e depois sumiam, destruindo os sonhos deles”, explicou Moisés, que já lançou centenas de talentos oriundos de comunidades de Niterói, São Gonçalo e Rio de Janeiro.

Nascido no Rio de Janeiro, veio com seis anos para Niterói. Em 1982, se formou no curso de modelos do Senac local. Desfilou pela Moda Rio (atual Fashion Rio) e no Morumbi Fashion (hoje, São Paulo Fashion Week). Depois passou pelas passarelas de Paris (França) e Milão (Itália). Formou a sua primeira turma em 1985. “Já participei de projetos voltados para áreas carentes, como Instituto Ônix, no Fonseca, o Instituto Novo Tempo, no Largo da Batalha e o projeto CRJ, na comunidade Pavão Pavãozinho, no Rio”, contou.

Entre os talentos que já passaram pela escola está a modelo Samya Freitas, de 17 anos, ex-moradora de Tribobó, em São Gonçalo. Ela estudou no local aos 13 e hoje trabalha como modelo em Istambul, na Turquia. “Lá é tudo para mim. Eles são a minha segunda família. Eu queria muito fazer a School, pois sabia que era um grande passo para começar a minha carreira. Um belo dia a minha mãe foi lá e me colocou no curso. Ela chegou em casa com os papéis. Me lembro como se fosse hoje. Chorei bastante. Eu fiz durante um ano. No começo não foi fácil. Assim que fiz 16, Moisés me levou para São Paulo. Fui aprovada em algumas agências e escolhi a Oxy Gen, que é a minha atual. Eu não tinha condições de pagar e o Moisés me disse que acreditava em mim e não permitiria que eu saísse. Fiz o curso de graça”, relatou Samya, que em janeiro deste ano foi morar em São Paulo, onde fez o SPFW em fevereiro, foi a Alemanhã em maio e no mês seguinte foi a Barcelona (Espanha), onde ficou dois meses.

Thifany Freitas, de 18 anos, mora no bairro do Caramujo, na Zona Norte de Niterói, e é recém-formada no curso. “Desde os seis anos sonhava em ser modelo, mas achava difícil. Eu tinha feito um book para outra agência, que me disse que publicaria as fotos em uma revista. Paguei o book, mas, não recebi as fotos. Era um golpe. A agência era falsa. Fiquei sabendo da School Models e só dois anos atrás meus pais puderam pagar”, relatou a jovem, filha de uma cabeleireira e de um montador de andaimes. Ela fez teste para o SPFW há um mês. Cursa o 3º ano do Ensino Médio no Colégio Estadual José Bonifácio, no Fonseca.

Maria Vitória da Silva Bernardo, 14, moradora da comunidade da Maré, Zona Oeste do Rio, obteve bolsa de 100% para fazer o curso, iniciado há um ano. “Eu fiquei sabendo pela minha irmã de um desfile realizado na Maré, o Favela Models. Ela me inscreveu. O Moisés era um dos jurados. Fui eleita a Garota Maré em 2016. Eu não tinha condições de pagar o curso e ele me deu bolsa. Eu pago dez reais de passagem de ida e o Moisés me dá a passagem de volta”, contou a jovem, que tem aulas aos sábados das 12h às 18h. Hoje mora no bairro carioca de Olaria e cursa o 8º ano no Colégio Municipal Berlim, no bairro.

Alcimar Rodrigues, de 21 anos, morador do bairro Jardim Catarina, em São Gonçalo, começou o curso há um ano e meio e se formará agora em novembro. “Trabalhei como garçom em um restaurante de Niterói para pagar o curso. Amigos falavam que eu poderia ser modelo devido ao meu tamanho. O curso me foi indicado por um amigo. Aqui a gente cresce como ser humano. Aprendemos a nos dirigir às pessoas. Eu ajudo no sustento da minha família. Estou indo morar em São Paulo em 2018 e consegui um emprego no restaurante para a minha mãe”, contou o modelo.

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