Jovens de Niterói e SG lutam diariamente contra a discriminação

Dados da ONG BemTv, em parceria com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontam que em Niterói os negros (pretos e pardos) correspondem a 38,37% da população jovem do município. Já em São Gonçalo 12,2% da juventude local se declara preta e 45% parda, ou seja, os negros somam mais de 57% dos jovens. E mesmo sendo maioria, até mesmo em níveis nacionais, a discriminação racial ainda é presente em muitas situações. Na semana que se celebrou o Dia Internacional de Nelson Mandela (18 de julho) as instituições e muitos militantes lutam, diariamente, para combater o racismo, declarado ou mascarado, que é crime previsto na Lei 7.716/89 que define os crimes de racismo.

Um dos colaboradores do relatório BemTv, Luciano Simplicio, de 38 anos, explicou que muitos negros estão alcançando lugares que antigamente eram restritos dos brancos. “Temos o exemplo das cotas que estão facilitando a entrada de negros em universidades, por exemplo. Estamos conseguindo externalizar mais essas questões até com a tecnologia. Trabalhei em farmácia e tínhamos que entregar os pedidos e estava em Icaraí, eu atravessei a rua e uma senhora começou a me olhar muito temerosa e cheguei a falar ‘não vou te assaltar, não’. São situações chatas e que incomodam. Eu já vejo uma diferença em ocupação de territórios, em mesas de debate e temos que alcançar cada vez mais esses espaços”, frisou.
Dos jovens negros empregados, na relação com colegas de trabalho, 6,5% afirmam ter percebido que a cor da pele é um elemento dificultador, na esfera institucional em São Gonçalo. Em Niterói 9% dos jovens perceberam essas situações. Em dados gerais, em Niterói, 1,7% afirmaram que já sofreram algum tipo de violência e em São Gonçalo esse índice é de 19,5%.

A jornalista Thayná Alves, de 27 anos, resolveu combater as questões de discriminação coordenando o projeto ‘África em Nós’, que trata o racismo nas escolas. “Eu acredito na mudança a partir da conscientização, e acredito na mudança que acontece não de hoje, porque antes de mim há uma imensidão de história e resistência, mas posso dizer que acredito porque faço parte dela também. Já ouvi crianças de menos de 10 anos afirmando que se odeiam por conta dos traços que as compõem; já fomos em uma escola onde uma menina foi hospitalizada porque tomou banho de cloro para se tornar branca, porque disseram a ela que ser negra era feio. A gente aprende tudo isso, e desconstruir esses conceitos perpassa pelo caminho de reconhecer que eles são reais e violam a existência de outras pessoas”, ponderou a moradora de São Gonçalo.

A estudante de Psicologia da UFRJ Raquel dos Santos Guimarães, de 23 anos, também sabe o que é não se aceitar e contou que hoje em dia faz questão de se autoafirmar. “Meu corpo no mundo é político e ele manda uma mensagem. Tenho orgulho da minha cor, da minha história e da minha ancestralidade”, contou. Mas nem sempre foi assim. “Cresci sempre tentando deixar ele (o cabelo) o menos cacheado possível, sempre molhado e com creme para ficar sem volume. Quando criança as referências eram de peles mais claras do que a minha e sempre lisos. Eu enrolava uma toalha no cabelo para fingir que meu cabelo era liso e longo e junto com isso muitas atitudes de rejeição dos meus traços, como prender pregador no meu nariz para ele ficar mais fino. Fui crescendo e amadurecendo e comecei a entender que podia brincar e firmar a minha estética, que eu tinha que manter minha cabeça erguida. Eu tento de todas as formas não passar por situações de racismo, eu sempre estou muito arrumada, evito mexer na minha bolsa dentro de lojas e eu evito tocar muito nas coisas”, completou.

TRABALHO QUE RESGATA A AUTOESTIMA
A fotógrafa Camille Cristine Machado, de 27 anos, também sabe o que é sofrer preconceito racial e para ajudar a minimizar essa questão ela montou o projeto ‘Faça Acontecer’. “Meu projeto é sobre a autoestima das mulheres pretas. Sobre vencer o padrão da beleza e fazer com que nos que sempre fomos ditas feias somos sim bonitas e cada uma do seu jeito. Eu fotógrafo as mulheres com leveza e alegria e estimulo sempre o sorriso que estão tentando esconder por causa da baixa autoestima. Foi um processo longo e dolorido até me sentir uma mulher bonita e só depois desejável mas esse processo é de uma vida inteira”, explicou.

A IMPORTÂNCIA DA REPRESENTATIVIDADE
E a representatividade engloba questões simples e que muitas vezes não são nem percebidas. Um exemplo disso é a marca Koralle, loja especializada em material escolar em Porto Alegre (RS), que em 2014 lançou um estojo de giz de cera com 12 tons de pele, inédito no país. A ideia foi mostrar que o chamado ‘lápis cor de pele’, rosado chamado no alemão de Fleischfar -be, não atende a diversidade etnicoraciais que compõe o Brasil, já que são várias as tonalidades de pele. O sucesso e a aceitação foi tanta que a empresa lançou uma nova cartela com 24 cores.

A literatura também é considerada uma ótima forma de discussão sobre a questão racial. A escritora Daniela Brito lançou o livro ‘Será que a gente só tem uma cor?’ que, segundo a sinopse, conta a história de uma criança que indaga a própria cor da pele e dos seus pais. ‘A diversidade das características físicas dos personagens da história acolhe àqueles que não se sentem representados, ainda, na maioria das histórias, trazendo uma discussão importante sobre a questão racial’.

O Mestre em Cultura e Territorialidades formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Guilherme Santos, 31 anos, explicou justamente que essas questões ajudam a afirmação do negro e também no processo do que ele classifica como re-existência. “Precisamos sempre firmar essa existência que temos e aceitar nossos traços, que diferente do que querem passar, não são feios. Somos inundados de uma beleza embranquecida e não vamos aceitar isso. Temos que aceitar o nosso cabelo, o nariz, a boca além das roupas, músicas e cultura afro. O racismo afeta de uma maneira muito potente a nossa saúde mental. A militância tem ajudado a organização do povo preto a ocupar espaços. Não exite um espaço que não possamos ocupar pois é nosso por direito”, frisou o namorado da universitária Raquel Guimarães.

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