Jourdan Amóra: O tempo de subir o morro

A Rocinha e o Morro do Alemão, no Rio, viraram pontos de importância turística para os estrangeiros em visita à Cidade Maravilhosa.
O Morro do Palácio – ou do Ingá – e o Morro do Preventório oferecem estonteante beleza que os fazem motivo de ambição do empresariado imobiliário.
Os suíços, vindos para o Brasil, preferiram as alturas da Serra dos Órgãos e os mais nobres franceses preferem os Alpes.
O sonho pelas alturas, da gente grande, vem de tempos anteriores às previsões de que o aquecimento global vai elevar as áreas oceânicas, pondo em risco muitas cidades ribeirinhas, um fenômeno que há tempos já se observa em Atafona, no Norte Fluminense, ou em São Luiz, no Maranhão.
Os nossos morros tornaram-se cidades para gente pobre, mas já há expressiva parcela da classe média ali residindo em belas casas.
As zonas baixas de cidades como Niterói – com um panorama de muitos vales – já estão ficando escassas, não havendo espaço para grandes empreendimentos, como supermercados, escolas, hospitais, postos de gasolina, etc. Em função do alto custo do metro quadrado nas regiões baixas, muitos destes empreendimentos, inclusive clubes, cederam espaço para edifícios residenciais ou comerciais.
Nos morros, de traçado urbano improvisado, a ocupação é desordenada. Não há planificação de ruas ou de equipamentos urbanos, nem mesmo ações visíveis para adequado saneamento ou direcionamento das águas de chuvas. Os investimentos públicos ocorrem após tragédias com obras de contenção de encostas.
O futuro já está se tornando presente para cidades como Niterói: forçosamente os morros serão os caminhos para a habitação também da classe média.
Num país em que se procura diminuir as desigualdades, é preciso compatibilizar a ocupação dos espaços. Já é tempo de se pensar num plano urbanístico para os pontos elevados das cidades, lembrando-se que perto de toda população favorecida é preciso ter, nas proximidades, habitações para a classe trabalhadora, especialmente a que presta serviços vinculados à moradia e ao comércio.
As cabeças pensantes do urbanismo e das políticas sociais precisam começar a subir o olhar para as alturas.

  • Republicado de 31 de janeiro de 2020

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