Jornalismo e Pandemia*

Final de dezembro. Assim que foram registrados os primeiros casos da Covid-19 na China, os melhores meios de comunicação do Brasil começaram a se preparar. Falo dos melhores e não dos maiores.

Iniciaram a contratação de novos jornalistas para cuidarem do setor mais estratégico que é o noticiário online, sabendo que, caso a epidemia se alastrasse (há dois meses ainda havia dúvida), leitores, ouvintes, telespectadores e internautas em geral iriam iniciar a caça por notícias confiáveis e novas o dia todo, minuto a minuto. E, com as limitações da quarentena (prevista nos protocolos de imprensa de todo o mundo) a venda em bancas, já anêmica, seria muito mais prejudicada. Investir tudo no online foi a bem pensada saída, que deu certo.

No começo de março, os melhores estavam prontos e hoje estão dando uma lição de jornalismo em um país cujo mequetrefe e vulgar presidente chama verdade de histeria e reportagem de fake news. Iletrado, ignorante, jamais leu um livro minimamente decente, assiste a filmes chulos, programas de TV vagabundos. Agora finge que não reconhece que o jornalismo profissional venceu. Segundo quem? O povo.

Valeu o investimento da imprensa em bons repórteres apurando e, acima de tudo, na contratação maciça dos checadores, profissionais que checam, confirmam as informações levantadas pela reportagem e só aí autorizam a publicação. Significa que os boatos, a fofoca, o jornalismo baixo e medíocre caiu de joelhos diante de uma imprensa amadurecida que o presidente quis extirpar. Afinal, ele mandou acabar com o registro profissional de jornalista na tentativa de humilhar mais os profissionais.

Quando decidiu cortar os anúncios do governo e de suas estatais para falir o que chama de “mídia inimiga”, desviou a dinheirama para os seus comparsas que também possuem empresas de comunicação, mas sem qualquer credibilidade ou vergonha na cara. Obtuso, o presidente achou que os “inimigos” iriam subir a rampa que ele desonra diariamente com pires na mão, pedindo arrego. Outro tiro no pé.

Fortalecida com uma enxurrada de anunciantes que querem associar a sua imagem a informação de qualidade, preparada, com mão de obra qualificada e bem treinada, os melhores meios de comunicação estão informando o povo sobre tudo. Com precisão (somente os melhores), muita apuração e checagem. O povo, claro, retribui lendo, acessando, ouvindo, assistindo, compartilhando e, com isso, jamais em tempo algum os meios de comunicação no Brasil tiveram tanta procura.

Domingo a CNN Brasil estreou e estou assistindo. Há muito o que fazer, mas os donos já perceberam que o público mudou e vomita diante de quem vende informação. A CNN tem se mantida reta.

O presidente, que de tanto bater na boa imprensa está vendo a sua popularidade derreter, diz que continua assistindo os canais dos bispos com b minúsculo e aprendeu que encher a imprensa de anúncios oficiais não compra mentiras. Desde Gutemberg a imprensa mundial veicula anúncios de governos, mas os veículos sérios não corrompem a verdade em troca desse dinheiro porque simplesmente acabariam. Dá vontade, mas não vou citar exemplos.

Um bom exemplo de fora é The New York Times que, com toda a propaganda do governo cortada por Trump, teve um crescimento de 87% em 2019 da base de leitores de suas edições digitais. A empresa está muito financeiramente saudável, apurando, checando e publicando os fatos, sem alugar a sua opinião.

Trocar apoio por dinheiro é um modelo arcaico que construiu a imprensa marrom. Por que marrom? Porque é da cor do cocô. A imprensa marrom sempre foi desmoralizada e desacreditada porque todo mundo sabia que era vendida, a começar pela fuga de leitores e de empresas, que, claro, se recusavam a anunciar.

Caro leitor, você consegue ver a imprensa séria exibir manchetes do tipo “Coronavírus é uma histeria” porque o governo pagou por isso?

O mundo mudou. Os jornais de papel, por mais românticos que tenham sido, se transformaram em plataformas digitais extremamente bem feitas. Programas simples e acessíveis como o PressReader permitem a leitura no celular ou no computador a edição “de papel”. Além de economizarem trilhões com a compra de papel imprensa e, com isso, poupar florestas no exterior, os meios de comunicação impressos estão mais enxutos. Trabalham sem gordura, sem gente ganhando mal porque perceberam, enfim, que, no final das contas, que quem ganha mal, trabalha mal.

O furo jornalístico, que nos anos 40, 60, eram simbolizados pelo garoto vendedor de jornal gritando “Extra! Extra!”, hoje vive no noticiário em tempo real. Em questão de minutos uma notícia bomba surge nos monitores e a concorrência que perde aquele furo horas depois vence com outro. É bonita ver a batalha da boa imprensa na web, a luta corpo a corpo, leitor por leitor, das revistas semanais online, dos colunistas dos diários, todo mundo trabalhando em tempo real por um jornalismo maior.

O trabalho da boa imprensa nessa pandemia me enche de orgulho.

*LUIZ ANTONIO MELLO

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