Igreja Universal investiga pastores por recebimento irregular de auxílio emergencial

Religiosos acusados relatam que foram orientados pela igreja

Uma investigação interna da Igreja Universal do Reino de Deus apura denúncia de que pastores da instituição teriam recebido o auxílio emergencial do Governo Federal de forma supostamente irregular. A suspeita é de que pelo menos 69 religiosos teriam recebido o benefício.

De acordo com relatos, os religiosos se defendem alegando terem sido orientados pela direção da igreja a solicitarem o benefício e comunicar à instituição para que o valor fosse descontado de seus salários. Os pastores da Igreja Universal, assim como de muitas outras organizações religiosas, não são registrados em carteira e não possuem contrato de trabalho.

Se não declaram renda, o governo não tem como identificar seus vencimentos. Fornecer informações falsas para receber o auxílio emergencial configura prática de crimes de falsidade ideológica e de estelionato.

Segundo um áudio que circula nas redes sociais, atribuído ao bispo Renato Cardoso, genro de Edir Macedo, líder da Igreja Universal, a própria instituição reconhece que pastores da igreja cometeram o crime, mas os responsabiliza pelos atos. O bispo Renato Cardoso atualmente é considerado o segundo nome na hierarquia da instituição.

Ainda de acordo com o genro do bispo Macedo, “Mais cinco pessoas saíram da obra. Pessoas vão sair, distorcendo tudo, ao contrário do que ouviram. Pessoas como essas, graças a Deus, a igreja está limpando. A igreja está tomando as providências necessárias judiciais, inclusive em casos em que há indícios de crime contra a igreja, contra o povo da igreja. Estaremos denunciando, fazendo a denúncia-crime”, teria declarado Cardoso, em suposta gravação atribuída a ele.

O Ministério da Cidadania informa que, a princípio, não há impedimento de pastores receberem o auxílio emergencial, “desde que atendam aos critérios de elegibilidade estabelecidos pelas legislações que disciplinam o pagamento do benefício”. Ainda de acordo com o ministério, estão previstas sanções quando constatado o pagamento indevido, que podem chegar, inclusive, a pena de até cinco anos de reclusão.

Versões diferentes

O áudio, divulgado nas redes sociais do ex-pastor da Universal, Davi Vieira, teria vazado durante uma reunião de pastores, realizada há 15 dias. A Igreja Universal não reconhece a autenticidade da gravação.

Dois ex-pastores recém-saídos da Igreja Universal, Lairton Silva de Menezes e Anderson Paulo de Souza, ambos de Brasília, contam uma versão diferente. Dizem que, em abril do ano passado, quando os R$ 600 do auxílio emergencial começaram a ser pagos pelo Governo Federal, a igreja, que viu a quantidade de ofertas em seus cultos diminuir bastante, teria orientado os religiosos da igreja a pedir o benefício.

Menezes e Souza não chegaram a receber o auxílio por não se enquadrarem nos requisitos exigidos. Menezes, por exemplo, havia declarado Imposto de Renda no ano anterior. Souza achava que não se enquadrava por causa de sua faixa de salário e nem chegou a solicitar o benefício.

O áudio atribuído a Cardoso contém ainda ataques aos religiosos que correram em busca do auxílio sem avisarem à igreja. Na fala atribuída a Cardoso, contadores da igreja são apontados como pessoas que incentivaram os pastores a burlarem o Fisco.

O Ministério da Cidadania informa que vem executando “uma série de ações voltadas para o ressarcimento dos benefícios pagos fora dos critérios de elegibilidade” e já teriam retornado aos cofres da União, até o momento, cerca de R$ 4,8 bilhões referentes ao pagamento irregular do Auxílio Emergencial.

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