IFRJ suspende edital de concurso após exigência polêmica

Marcelo Almeida

Reclamações de pais de alunos sobre exigências feitas por um edital de seleção do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) acabaram levando a instituição a cancelar o concurso na terça-feira (2). Isso porque, de acordo com o edital, ficaria a cargo de cada inscrito providenciar um computador com uma configuração técnica que o faz custar muito caro, o que torna a participação no pleito inacessível para estudantes de famílias mais pobres.

O edital havia sido divulgado no último dia 18 de fevereiro e as inscrições seriam iniciadas na próxima segunda-feira (8), visando o preenchimento de vagas relativas à educação profissional técnica oferecida de maneira integrada ao ensino médio. Por conta da pandemia do novo Coronavírus, a prova estava prevista para ser realizada de forma online, mas, para isso, seria necessário baixar o aplicativo no qual a prova seria distribuída. Para funcionar, o aplicativo precisaria de um computador que tivesse uma configuração com componentes de última geração.

O edital afirma que o aluno deveria ter a sua disposição um computador com Windows 10 ou superior que tivesse alguns requisitos mínimos como: 4GB (quatro gigabytes) de memória RAM; 20GB (vinte gigabytes) de espaço livre no HD; um processador Intel Core i3 ou superior; e uma internet que tenha no mínimo 10 MB (dez megabytes). Além da configuração interna do computador, o aluno ainda deve ter microfone e webcam para filmagem e gravação da prova. Não é oferecida nenhuma opção para quem não tivesse um equipamento com essas configurações.

O que para alguns pode ser um computador trivial, para outros podem ser o impedimento da participação no processo seletivo. No edital estavam previstas 120 vagas para o campus Niterói e 104 para o campus São Gonçalo.

“Essas exigências excluíram meu filho do processo seletivo para uma escolar melhor. Todos os jovens deveriam ter isso por direito, mas são excluídos por uma exigência tecnológica avançada, decidiram de alguma forma que os IFs são lugares a serem frequentados pelos ricos”, reclamou uma mãe moradora de Niterói que preferiu não se identificar.

Pai de outro aluno, moradores de São Gonçalo, classificou como inaceitável que uma instituição pública de educação lance um edital que exclua o ingresso de novos alunos. “Se não podemos realizar a prova de modo presencial, por que não lançamos mão de um processo menos excludente, portanto mais democrático”, questionou.

Um documento assinado por diversos órgãos de representação estudantil do IFRJ, de diversos campi, salienta que muitos dos atuais e ex-alunos da instituição estariam excluídos deste processo seletivo. Os coletivos de estudantes reconhecem que medidas devem ser adotadas para evitar o contágio do Coronavírus, mas elas não podem contribuir para o “aprofundamento das desigualdades existentes em nossa sociedade. Por meio de exigências incongruentes, ele veda a ampla participação daqueles que não podem comprar computadores de bom desempenho, sequer o possuem ou daqueles que nem mesmo acesso à internet têm”, afirma a nota.

Devido às críticas, o IFRJ divulgou uma nota suspendendo o edital. Ainda segundo a instituição, um novo edital será divulgado o mais breve possível visando ampliar possibilidades de atendimento e que, a despeito das condições impostas pelo agravamento de uma pandemia, possa assegurar o acesso ao ensino público, gratuito, laico e de qualidade ofertado pelo IFRJ.

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