Hospital abandonado é ocupado por moradores de rua em São Gonçalo

Camilla Galeano

Um hospital abandonado em São Gonçalo está servindo de moradia para moradores em situação de rua. O local onde seria o Hospital da Mãe, no bairro Colubandê, está com a obra parada há sete anos. E os moradores do entorno reclamam da falta de segurança que o local oferece.

“Isso está abandonado faz tempo. Quando eu vim morar aqui estavam começando a obra. Eu estava grávida, até pensei ‘poxa, pela estrutura vai ser um excelente hospital, pena que eu não vou conseguir me consultar’. Pelo visto nem eu, nem ninguém”, explica, Claudia Souza, de 32 anos, moradora do bairro.

Caminhando pelo que resta da obra, é possível observar sapatos, roupas e até indícios de que alguém havia cozinhado no local. Funcionários da UPA ao lado informaram que nos fundos do prédio mora um rapaz que trabalha de madrugada. Mas que o lugar é frequentado por usuários de drogas e moradores em situação de rua em condições de total insalubridade, em um local sem muros, paredes ou qualquer meio de fechamento em todo o perímetro da obra.

É possível encontrar vários focos de dengue espalhados pela estrutura. Lembrando que a obra abandonada se encontra ao lado da UPA e de vários condomínios residenciais.

“Eu já tive dengue duas vezes. E muitas pessoas aqui no condomínio já tiveram. Quando chega umas 17h,18h, em época de calor, a gente tem que trancar a casa toda porque é muito mosquito. Não posso te confirmar se alguém já entrou aí pra limpar algum foco. Eu nunca vi. A gente já tem perturbação suficiente com a covid, e agora com isso”, explica dona Fábia Monteiro, de 69 anos, moradora de um condomínio residencial próximo a obra abandonada.

INSEGURANÇA

Além do risco de doenças, funcionários que trabalham próximo da construção relatam a falta de segurança e a iluminação precária no local.

“Eu nunca fui assaltada aqui, mas conheço pessoas que já foram mais de uma vez. Isso aqui é esquisito à noite. Apesar de ter a UPA ao lado, aqui no ponto fica meio deserto. E essa construção abandonada deixa a gente com medo. Sai um pessoal daí às vezes. Outro dia, eu tava passando ali na entrada, um pouco antes da passarela e saiu um cara com um pedaço de pau ali de dentro”, disse Alessandra Mattos, de 29 anos.

“Eu não fico sozinha aqui à noite. É muito escuro. Eu tenho dividido um uber com o pessoal do trabalho pra ir embora mais tranquila. Uma madrugada eu tava nessa UPA aguardando minha filha ser atendida, e começamos a ouvir uma gritaria. Os funcionários saíram com cuidado pra ver o que era e tinha um cara empurrando uma menina para dentro da construção. Algumas pessoas conseguiram defender a menina e chamaram a polícia, mas o cara fugiu”, relata Anne Luciene, de 27 anos, que trabalha próximo ao local.

De acordo com o engenheiro civil Washington Luiz da Silva, que avaliou a estrutura abandonada, não é necessária a demolição do que já foi construído.

“Em tudo que observei, não constatei nenhum problema que seja decorrente de erro de execução por má qualidade de mão obra ou de aplicação de material de construção de baixa qualidade. A obra poderá ser continuada até a sua conclusão, a partir do ponto em que foi paralisada, sem a necessidade de qualquer recuperação ou reforço no que já está executado”, explicou.

Ainda segundo o engenheiro, uma das poucas coisas que pode afetar a estrutura abandona seria um forte incêndio no local.

“Como existe grande quantidade de madeira (sobras de obra) que foi deixada no local, os ocupantes do prédio, utilizam esta madeira como lenha para cozinhar e, provavelmente, se aquecer em épocas mais frias. Muitos vestígios de queimadas de fogão e fogueira, podem ser visto no local. Justamente essa queimada poderá trazer como consequências graves danos à estrutura do prédio, podendo até mesmo, no caso de um aquecimento maior, provocar o próprio abalo da estrutura, culminando na queda de partes do prédio. Constatei também, manchas de queimadas na base dos pilares junto a laje, o que também se constitui em grave perigo para a integridade do concreto e da própria obra”.

A obra

O município de São Gonçalo ganharia a primeira maternidade estadual, inicialmente, no segundo semestre de 2013. A obra, que inicialmente estava avaliada em R$ 43 milhões, teria um prédio de cinco andares, sendo que um andar inteiro, à pedido da Secretaria Estadual de Saúde, seria destinado a uma UTI neonatal. Após cinco anos de abandono, estima-se que, atualmente, o valor total da obra esteja avaliado em R$ 80 milhões.

De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres correspondem a 52,46% da população gonçalense. E existe somente uma maternidade no município, a Maternidade Doutor Mário Niajar, que funciona no lugar do antigo Pronto Socorro de Alcântara.

No primeiro andar, haveria uma recepção, área de espera, consultórios, quatro salas equipadas com Ultrassom, Raios- X, entre outras dependências. No segundo andar, funcionariam 40 quartos com capacidade para dois leitos cada, totalizando 80 leitos. O terceiro pavimento abrigariam seis UTI’s, além de quatro de isolamento e um materno. No quarto andar, estariam localizadas 14 salas de pré-parto, parto e pós-parto, três salas de parto cirúrgico e uma sala para parto normal. Haveria ainda um espaço para observação do recém-nascido. O último andar abrigaria a sala de máquinas. Em outro prédio de um pavimento, que estava sendo construído ao lado, funcionaria a Clínica da Mãe.

Haveria área para recepção, 14 consultórios, salas para coleta, ultrassons e dependências administrativas. Entretanto, a construção não passou do terceiro andar. Depois de algumas paralisações a obra não foi concluída pelo Estado. A Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro (EMOP) informou que o Governo do Estado está priorizando a destinação de recursos para manter funcionando toda a rede de saúde existente. E que devido a complexidade das obras o cronograma teve que ser readequado, mas não informou uma nova data para a entrega da unidade.

Em nota o EMOP explicou que “A obra passa por readequação de liberação de recursos e, consequentemente, é necessária também a readequação dos cronogramas das intervenções. Readequar cronograma não significa que as obras não serão concluídas. É apenas adaptação ao momento”.

Procurada, a Secretaria Estadual de Saúde ainda não esclareceu se há um prazo para que as obras do Hospital da Mãe sejam retomadas e se já existe um plano em andamento que defina uma data de conclusão das intervenções.

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