“Há características de confronto”, diz delegado sobre a morte de jovens

Vítor d’Avila

Segue em curso a investigação sobre a morte dos jovens Gabriel Machado, conhecido como Zulu, de 21 anos, e o adolescente Jeferson Monteiro, de 15, na tarde de terça-feira (5), na comunidade do Santo Cristo, no Fonseca, Zona Norte de Niterói. Ambos foram baleados durante ação da Polícia Militar.

O caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSG). A especializada imediatamente instaurou inquérito para apurar o fato. Segundo o delegado Mário Lamblet, responsável pelo caso, há características de confronto, mas tudo será investigado. A DHNSG irá tentar levantar imagens de câmeras de segurança que possam ajudar a elucidar o caso.

Lamblet ainda informou que os policiais envolvidos na ação e algumas testemunhas prestaram depoimento na quarta-feira (6). Na quinta-feira (7), serão arroladas novas testemunhas, entre elas familiares dos jovens mortos e será dada sequência à investigação. Ainda segundo o delegado, Zulu era um jovem bastante conhecido na região; já Jeferson morava no Santo Cristo, com a avó, há pouco tempo. Ele tem uma história triste de abandono por parte dos pais.

Segundo a DH, ambos possuem fichas limpas, sem anotações criminais anteriores. A única observação é em relação a Jeferson, que, quando era criança, praticou tentativa de furto em um supermercado de São Gonçalo, registrado na 74ª DP (Alcântara). O caso foi registrado apenas como “fato atípico”.

“Já ouvimos alguns familiares. Estamos analisando notícias que estão chegando para a gente complementar tudo. Os policiais alegaram que chegaram na comunidade e houve um confronto com cerca de quatro elementos. Após o confronto, encontraram os dois jovens caídos, próximos a eles drogas, uma pistola e uma granada. A gente pede que se alguém testemunhou, que nos remeta”, disse o delegado.

O 12° BPM (Niterói) informou que quando há caso de óbito em ações do tipo, as armas sempre são recolhidas pela Polícia Civil, o que já foi realizado. Os policiais envolvidos já foram identificados pelo batalhão, mas não serão afastados.

O batalhão sustenta que os dois mortos tinham envolvimento com o crime organizado da localidade. Esta versão é contestada por amigos e familiares, que chegaram a fazer uma manifestação no começo da noite de quarta-feira (6).

Estou sem chão”, afirma pai de um dos jovens

Familiares dos jovens estiveram na quarta-feira (6) no Instituto Médico Legal (IML) do Barreto, também na Zona Norte de Niterói, na manhã de hoje, para liberação dos corpos para sepultamento. O clima era de consternação.

Gelson Estevão, pai de Gabriel, afirmou estar “sem chão”. Cabe ressaltar que, segundo a família, o jovem era catador de latinhas e sofria de problemas mentais.

“Era um menino trabalhador. Aí ele morreu assim, os polícia matou ele (sic). Minha família está sem chão, ainda mais que perdi minha esposa também”, disse Gelson.

Irmã de Gabriel, Jaqueline Estevão deu detalhes sobre o momento em que o jovem foi baleado. Ela afirmou que os policiais disseram que ele estava no lugar errado, na hora errada.

“Ele é inocente. Estava catando latinhas aí os homens (policiais) chegaram atirando. Até o policial chegou falando que ele (Gabriel) chegou na hora errada”, relatou.

Maria Luiza, avó do adolescente, disse ter ouvido o momento dos tiros. “Todo dia quando eu levantava, a primeira coisa que eu olhava era o quarto dele. Fui trabalhar e voltei quase 11h. Fui almoçar e ouvi um tiro. Senti um aperto no meu peito”, afirmou.

Histórico do caso – Na tarde de terça-feira (5), militares do 12° BPM disseram que estavam em patrulhamento pela Rua Euclides da Cunha, quando teriam sido confrontados por criminosos. Houve troca de tiros, que terminou com as mortes de Gabriel e Jeferson. A Polícia Militar alega que apreendeu uma pistola, granada e drogas com a dupla. Familiares e amigos negam a versão, e afirmam que os dois não tinham envolvimento com o tráfico.

Moradores da Comunidade Santo Cristo em Niterói, fizeram uma manifestação no início da noite de quarta-feira (6). Cerca de 50 pessoas fecharam a pista, sentido São Gonçalo, na Alameda São Boa Ventura para protestar contra a morte de Gabriel e Jeferson. Eles acusam policiais militares de terem executado os jovens. Amigos que estavam no protesto contestaram a versão da polícia de que as vítimas faziam parte do tráfico de drogas e informaram que os baleados não tinham envolvimento com o crime organizado.

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