Guerra do tráfico: falta Poder Público, sobra violência

Augusto Aguiar –

Nas últimas semanas, a violenta disputa pelo controle do tráfico levou ao desespero a população e cruzou os limites de vários bairros de São Gonçalo, levando os moradores a indagar se ainda há esperança de solução, pelo menos a médio prazo, para um problema tão grave que manteve de refém o cidadão dentro de sua própria casa. Quem reside nos bairros que compõem o Complexo do Salgueiro (Salgueiro, Itaoca, Fazenda dos Mineiros, Luiz Caçador, Morro do Céu, Palmeiras, Conjunto da Marinha, Bairro 13, entre outros) e no Jardim Catarina sentiram mais uma vez os efeitos da ausência do Poder Público.

Há alguns anos, um trabalho de investigação da Polícia Civil já havia detectado que, para desarticular o tráfico do Complexo do Salgueiro, o desafio seria bem mais difícil e amplo, passando por ações sociais. Por conta do domínio estabelecido pelos bandidos na região, a localidade havia se tornado uma espécie de entreposto da venda de entorpecentes, arrastando consigo várias outras modalidades de crime, a exemplo do que acontecia há alguns anos no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Na localidade, segundo a polícia, grande quantidade de drogas seria embalada e depois distribuída e vendida em outras comunidades, dentro e fora do município, como se de lá o crime se irradiasse para várias regiões do Estado, como interior, Baixada Fluminense e Região dos Lagos.

Esse trabalho de levantamento teria deduzido que o Complexo do Salgueiro havia se tornado o principal território dominado pelo crime fora do município do Rio, e um dos principais braços da facção Comando Vermelho (CV) no Estado. A prática do tráfico deu origem à incidência de outros delitos: assassinatos, roubos de cargas, de veículos, a pedestres e de residências, para citar alguns. A forte ligação do tráfico do Complexo do Salgueiro com o crime até fora das fronteiras do país foi constatada durante o trabalho de investigação e monitoramento de fornecedores de armas e entorpecentes, entre eles o narcotraficante Marcelo Pinheiro Veiga, o Marcelo Piloto, que foi preso no Paraguai e depois deportado para o Brasil. Ele foi preso numa operação conjunta de policiais brasileiros no distrito de Encarnación, com o apoio da Senad (Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai) e da DEA (Drug Enforcement Administration), organização americana de combate às drogas. Foi apurado que Marcelo Piloto era um dos principais fornecedores de armas e drogas para o Comando Vermelho.

Com a atividade do tráfico cada vez mais enraizada, as autoridades passaram a buscar ações amplas visando desarticular em São Gonçalo as principais lideranças. Policiais civis, militares, federais e as Forças Armadas se alternaram nessa batalha. No fim do ano passado, a Polícia Civil, com apoio do Comando Conjunto e das Forças Armadas, deflagrou uma megaoperação com objetivo de prender mais de 70 acusados de integrarem o tráfico em São Gonçalo. No final, 31 suspeitos foram presos, de acordo com a polícia. Entre os alvos estava Thomas Jhayson Vieira Gomes, conhecido como 2N ou Neném, então líder do tráfico no Complexo do Salgueiro e dos mais procurados do estado, que mais uma vez não foi capturado. Há alguns dias ele esteve mais uma vez no centro das páginas policiais ao ser apontado como responsável por um racha interno na facção Comando Vermelho e executor do ex-comparsa e chefe do tráfico no bairro vizinho do Jardim Catarina. Procurado pela polícia e caçado pelos ex-aliados, 2N escapou da comunidade, se aliando à facção rival TCP.

No meio dessa mudança, que resultou em outras mortes, quem ficou acuado foram os moradores, submetidos ao toque de recolher, interrupção de serviço de linhas de ônibus, comércios e escolas fechadas, além de muito medo. A mudança na hierarquia do tráfico, que começou no Complexo Salgueiro, se espalhou também para outras comunidades, com o risco de confrontos aumentando em localidades como o Complexo da Alma, Vila Candoza, Boaçu, Mutuapira, Jóquey, Jardim Bom Retiro, Jardim Miriambi, Rio do Ouro, entre várias outras de São Gonçalo. Fontes policiais adiantaram que o risco de confrontos é ainda maior na medida em que aliados de facções, vindos de cidades vizinhas, como Rio, Niterói e Itaboraí, estão sendo chamados para reforçarem o já numeroso contingente de bandidos fortemente armados na região.

Por conta das outras modalidades de crimes, que são praticadas por traficantes com objetivo de reforçar as finanças da venda de drogas, transitar por rodovias estaduais e federais em meio a esse quadro de incerteza passou a ser um ato de coragem. Além da guerra entre traficantes, os assaltos também são constantes na BR-101 e Rodovia Amaral Peixoto (RJ-104), que cortam São Gonçalo. As ocorrências de roubos de carga, de veículos, de ônibus e de transeuntes passaram a ser rotineiras, mesmo com policiamento intensificado das polícias Rodoviária Federal (PRF) e Militar.

Guerra reflete em ações na Baixada

Na manhã da última sexta-feira, a Delegacia de Repressão aos Roubos e Furtos de Automóveis (DRFA) deflagrou uma operação, na Baixada Fluminense, que tem ligação direta com a guerra de facções em São Gonçalo. A ação teve por objetivo combater e capturar ladrões de veículos que atuavam na cidade, mas com a intensificação da disputa de facções migraram do Complexo do Salgueiro para a Baixada. Na operação foi preso Wesley Fernandes do Nascimento, conhecido como Piraquê, que integra o bando de Thomaz Jheyson (agora 3N). Wesley não ofereceu resistência e, segundo investigações, estava escondido desde a guerra interna do tráfico em São Gonçalo. Foram presos também na mesma ação, Cleber Fernandes Limão, Michel da Costa Câmara e Rubens Dias do Amaral, o Cavanhaque.

Rabicó volta aos noticiários
Após algum tempo sem ser mencionado no noticiário policial, a violenta disputa interna no Comando Vermelho que atua no Complexo do Salgueiro trouxe à tona o nome de Antônio Hilário Ferreira, o Rabicó, apontado pela polícia como chefão da venda de drogas na região. Preso desde 2008 e atualmente na Penitenciária de Mossoró, no Rio Grande do Norte, ele ainda comandaria os rumos da facção de dentro da prisão e ainda teria ordenado a execução de 2N por ex-aliados.

Em outubro de 2014, agentes da Polícia Federal apreenderam o que foi apelidado de “tesouro de Rabicó”, somando R$ 6 milhões em drogas, armas, dinheiro e até barras de ouro. Na ocasião, a PF informou que Rabicó também era apontado como um dos mais antigos líderes do tráfico no Morro da Mangueira, no Rio. A Polícia apreendeu material ilícito do crime até fora do Estado. Na cidade de Muriaé, em Minas Gerais, os agentes encontraram sob o assoalho de uma residência, mais de 20 quilos em barras de ouro, avaliadas em cerca de R$ 2 milhões. O ouro seria, de acordo com a PF, resultado da conversão do dinheiro do faturamento dos pontos de venda de drogas administrado pelo crime, mesmo de dentro da cadeia.
Um mês antes, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) já havia interceptado na Ponte Rio-Niterói uma remessa de quatro fuzis avaliados em cerca de R$ 80 mil no mercado negro. As armas seguiriam para o Complexo do Salgueiro.

Rabicó foi preso em março de 2008 numa mansão na beira da praia, na cidade de Mamanguape, a cerca de 50 km de João Pessoa, na Paraíba. Mesmo na ocasião, estimava-se que ele controlaria o tráfico no Complexo do Salgueiro há pelo menos duas décadas. Agentes revelaram que Rabicó havia permanecido pelo menos oito meses na Paraíba se passando por um empresário ligado ao ramo de reciclagem e dono de uma oficina mecânica. Na época, a polícia acusou Rabicó de ter ordenado vários ataques a ônibus, que foram incendiados na área da 72ª DP (Mutuá).

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