Gladiadoras driblam o machismo e as dificuldades para jogar futebol em Niterói

A prática do futebol feminino é cercada de desafios. Os principais são o machismo e a falta de estrutura. Na comunidade do Cantagalo, Região de Pendotiba, em Niterói, o projeto Gladiadoras luta todos os dias para superar esses obstáculos. A iniciativa é tema da reportagem desta edição da série de A TRIBUNA sobre projetos que apoiam crianças e jovens.

Foi de um levante contra o preconceito por gênero que surgiu o Gladiadoras. A fundadora do projeto, Soraya Souza, de 27 anos, explica que gostava de jogar futebol, mas teve que parar devido a uma lesão. Ao lado da casa de sua mãe, fica o campo do Cantagalo e ela resolveu apoiar as meninas que queriam jogar lá, mas eram impedidas pelos homens.

“Começou com uma brincadeira. Me machuquei e parei de jogar. Ao lado da casa da minha mãe tem o campo e umas meninas começaram a jogar. Mas tiveram muita dificuldade para conseguir um horário, os meninos não deixavam elas jogarem. Comprei a briga delas. Não podia jogar, mas achava injusto elas chegarem primeiro e não poderem jogar”, contou.

A partir daí, o grupo das Gladiadoras foi tomando forma. Soraya assumiu a coordenação e organizou o projeto para que se tornasse uma verdadeira escolinha, voltada para as meninas. Segundo a fundadora, as participantes possuem de nove a 46 anos de idade. Há aproximadamente um ano, as categorias de base começaram receber maior atenção.

“Cobrei uma taxa simbólica de R$ 2, para comprar material. Foi assim que começou. Hoje estamos com quatro anos, temos horários durante o dia e à noite e a galera respeita a gente aqui. A gente tem meninas a partir dos nove anos. As de base começaram há um ano. A mais velha tem 46. A gente treina de terça a quinta e, às 15h, damos uma hora de treino para as mais novas”, continuou.

Graças à iniciativa liderada por Soraya, o sonho de garotas que querem ser jogadoras de futebol fica perto de se tornar realidade. Ela revela que, no começo da próxima semana, duas de suas alunas irão iniciar uma semana de testes no Fluminense Football Club, em Xerém.

“Agora a gente está com uma ajuda para levar duas meninas ao Fluminense, na segunda, para fazer uma semana de testes. A gente está fazendo um trabalho muito importante com a base, para que elas tenham oportunidades em clubes grandes, quem sabe no futuro”, orgulhou-se.

Uma das dificuldades enfrentadas nesses quatro anos foi o isolamento social, causado pela pandemia de Covid-19. Assim como a maioria das pessoas, as Gladiadoras seguiram na ativa, mas por meio da internet. “Começamos a fazer muitas brincadeiras pela internet, treinos para elas fazerem em casa, fiz ‘lives’ com elas, para que se sentissem importantes. Foi essa a forma que encontramos para não perder o contato com elas”, afirmou Soraya.

Conforme os equipamentos necessários para as aulas foram sendo adquiridos, a taxa simbólica de R$ 2 deixou de ser cobrada. Mas isto não significa que a situação financeira seja das melhores. A fundadora conta que, para participar de competições, é necessário fazer “vaquinhas” entre as participantes. Além disso, há uma ajuda muito especial. A mãe de Soraya vende salgadinhos para ajudar a financiar a iniciativa, numa espécie de “mãetrocínio”.

“Agora a gente não cobra mais essa taxa, porque já temos algumas bolas e os cones. Mas, para participar de competições, sai do nosso bolso mesmo. Dividimos entre a gente e jogamos. Tenho também uma ajuda da minha mãe, que vende salgadinhos e pede para a gente divulgar os salgadinhos dela que ela apoia a gente”, completou. Quem quiser conhecer, participar ou ajudar o projeto, basta buscar pelas Gladiadoras no Instagram, pelo @gladiadorasff.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dois × um =