Força na peruca: uma dose de autoestima para quem faz quimioterapia

Segundo os médicos, trabalhar a autoestima do paciente pode refletir no resultado do tratamento

As perucas devolvem a auto estima da mulher e ajudam positivamente no resultado do tratamento

Receber um diagnóstico de câncer não é fácil para ninguém. Entre tantas dúvidas que surgem durante o tratamento, a queda de cabelo, durante a quimioterapia é algo que mexe muito com a autoestima feminina. Apesar de que, com o passar dos anos, o fortalecimento do empoderamento feminino mostrou para as mulheres que cada uma tem a sua beleza, exatamente do jeitinho que elas são. Ainda assim, muitas se sentem ainda mais fragilizadas com a queda dos fios durante o tratamento. Nesse momento, os lenços, chapéus e perucas entram em cena. Esse último item pode ser um importante passo para o resgate da autoestima e, consequentemente, da força para lutar contra a doença.
A cabeleireira niteroiense, Luzinete Guimarães, de 44 anos, mudou seu foco na profissão ao perceber que mutas mulheres precisavam de ajuda com a autoestima. Foi então que resolveu se especializar na profissão e começou a confeccionar perucas.
“Eu trabalho como cabeleireira desde os meus 21 anos. Peguei amor pela profissão, até que abri um salão para mim no Centro de Niterói, onde fiquei até os 38 anos. Quando a minha irmã foi diagnosticada com câncer de mama, o cabelo era uma preocupação para ela, que sempre foi muito vaidosa. Ela trabalhava no salão comigo e estava sempre escovando o cabelo, e retocando as luzes. Então eu vi como ela sofreu quando começou a perder os fios. Parece fútil, mas era um sofrimento real para ela, além da doença” – relata.
Quando a irmã de Luzinete faleceu, ela jurou que não ia deixar outras mulheres passarem por aquilo. “Juntei dinheiro e fui para São Paulo fazer um curso de confecção de perucas, me especializei em tudo que podia na área. Montei uma equipe e abri um salão em São Paulo com intuito de ajudar essas mulheres em tratamento. Quem corta o cabelo aqui e deseja doar, a minha equipe confecciona as perucas e doamos para quem está fazendo quimioterapia. E quem não mora em São Paulo, eu envio a peruca. Já enviei mais de 100 para salões de Niterói que me pediram doação”, conta Luzinete.
No período da pandemia, quando o salão ficou fechado, Luzinete diz que ainda conseguiu doar cerca de 30 perucas dos clientes que ela atendia em domicílio.
“O salão não podia abrir, mas as minhas clientes mais antigas eu atendia em casa. Então, o cabelo que eu cortava, minha equipe seguia incansavelmente confeccionando as perucas. Eu tenho oito pessoas incríveis trabalhando comigo e conseguimos doar 30 perucas. Foi um número muito inferior do que a gente está acostumado, mas o importante é ajudar essas mulheres na busca pela recuperação da autoestima para que elas tenham força para seguir no tratamento”, explica.
As perucas são acessórios caros. De acordo com Luzinete, uma peruca feita de cabelo humano 100% natural varia entre R$ 3,4 mil e R$ 6,5 mil. “As perucas que faço podem ser colocadas e tiradas na hora que a pessoa quiser. Não existe nenhum mistério e não machuca. Por dentro, as perucas têm uma tela elástica e uma faixa de tecido especial que dão segurança e conforto à pessoa, além de não prejudicar o seu couro cabeludo”, explica Luzinete.
Por serem muito caras, nem todo mundo tem condições de comprar. É o caso da terapeuta Patrícia Meirelles, de 39 anos. Ela está em tratamento há dois meses contra um câncer do colo do útero e precisou raspar a cabeça quando iniciou a quimioterapia. Mas pelo valor, a compra de uma peruca ficou inviável.
“A peruca é muito cara. Eu não tinha essa noção até começar a pesquisar. E eu e meu marido estávamos gastando muito com medicamentos, transporte e alimentação, para realizar a ‘quimio’. E saía com o lenço, mas é muito ruim sentir que todo mundo está te olhando porque sabem que você está careca. Foi quando uma amiga me apresentou uma ONG que fazia doações de peruca. Conversei com eles, me inscrevi detalhando como eu queria a peruca, o tipo de cabelo. Na época eles estavam fazendo uma fila de espera já que muitas pessoas tinham interesse. Menos de um mês depois eles me ligaram para eu ir experimentar. Eu achei ela, a minha cara e me apaixonei. Aí, eles falaram ‘é sua, pode levar’. Nossa! Eu chorei muito aquele dia”, conta Patrícia.

Patrícia recuperou as forças para seguir lutando contra a doença, depois que recebeu a peruca da ONG

A psicóloga Fabíula Mezza, de 32 anos, é casada com um médico oncologista e explica que a autoestima e a preocupação com a estética, durante o tratamento de qualquer doença, principalmente no caso do câncer, são apontadas pelos especialistas como uma necessidade a ser trabalhada.
“Com medidas relativamente simples, muitos dos efeitos colaterais da quimioterapia podem ser amenizados, reforçando a autoestima e trazendo claros benefícios ao tratamento. A primeira paciente com câncer que eu atendi, ela virou outra pessoa depois que conseguiu a peruca. Ela até voltou a se maquiar”, conta.
Fabíula faz alguns atendimentos semanais no Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio de Janeiro, e atende a maioria dos pacientes do seu marido. Segundo ela, os oncologistas notam nitidamente uma melhora no tratamento dos pacientes que conseguem, de alguma forma, recuperar a autoestima.
“Hoje em dia estão sendo estudadas alternativas na tentativa de impedir ou amenizar a queda capilar causada pela quimioterapia. Como eu atendo muitos pacientes em tratamento, estou sempre estudando tudo na área. Já existe um estudo em uma Universidade na Califórnia sobre os efeitos de uma touca que resfria o couro cabeludo e, assim, impediria a queda de cabelo. Esse resfriamento diminui a circulação de sangue no couro cabeludo e, consequentemente, a concentração de quimioterápicos na região. Seria excelente. 2021 já. Está na hora de avançarmos nessa área”.

A psicóloga Patrícia Mezza diz que a autoestima pode ser uma aliada ao tratamento contra o câncer

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