Festa do Cinema Italiano volta a Niterói

Em 2022, o 8 ½ Festa do Cinema Italiano volta ao formato presencial, em uma edição que amplia mais uma vez seu circuito e traz a seleção dos melhores filmes italianos dos últimos anos, todos inéditos nas salas de cinema de 20 cidades do Brasil, entre 28 de julho e 10 de agosto.

Niterói recebe o Festa entre os dias 4 e 10 de agosto e exibe a programação completa no Cine Arte UFF.

Homenagem a Ennio Morricone

Como parte da programação contemporânea, que conta com pré-estreias exclusivas em território brasileiro, o festival este ano traz a exibição especial de “Ennio, o Maestro”, documentário que Giuseppe Tornatore (de “Cinema Paradiso” e “Mallena”) realizou sobre a vida e obra do grande maestro.

A programação da homenagem conta com a colaboração especial de Marco Morricone, filho de Ennio Morricone, que participa de debate com o público do Festa via online, em encontro cuja data será definida em breve.

Em “Ennio, o Maestro”, Tornatore, grande parceiro do maestro e compositor, reconta a história de Ennio desde a infância até a vida adulta, passando pelos anos de conservatório e, claro, por seus grandes filmes e prêmios, sem esquecer do Oscar: seis indicações e dois prêmios (Um honorário pela carreira em 2007 e outro pela trilha sonora de “Os Oito Odiados”, de Quentin Tarantino, em 2016). Mais que uma aula de cinema, é também uma aula de música, uma lição sobre a genialidade de Morricone, que criava para o cinema como quem desenhava a música em sua mente antes de escrevê-la ou gravá-la.

Assista ao trailer aqui:

“Papai pode ser considerado um compositor versátil, que em mais de meio século, escreveu tanto música “absoluta” (ou seja, concebida como um ato criativo livre e não condicionado) quanto música “aplicada” (ou seja, a serviço de outra arte: cinema, teatro, televisão)”, comenta Marco.

Um dos maiores nomes não só da música para o cinema, mas da música contemporânea, Ennio Morricone compôs mais de 500 trilhas sonoras para o cinema e TV. Ousado, sempre fugiu do convencional e sempre propôs partituras e músicas que não fossem óbvias. Como resultado, ajudou a criar obras-primas do cinema como “Três Homens em Conflito”, “A Missão”, “Era Uma Vez na América”, “Os Intocáveis”, “Cinema Paradiso”, “A Balada de Sacco e Vanzetti”, entre outros. 

Exibido no 78º Festival de Veneza, “Ennio, o Maestro” revela o compositor e maestro por meio de uma longa entrevista conduzida por Tornatore, além de depoimentos de realizadores e músicos, incluindo alguns muito conhecidos do grande público como Bernardo Bertolucci, Marco Bellocchio, Dario Argento, Quentin Tarantino, Wong Kar Wai (um dos produtores e distribuidor do filme), Bruce Springsteen, Joan Baez, Lina Wertmüller, John Williams e Hans Zimmer.

A esta longa lista de admiradores e colaboradores, juntam-se fragmentos da vida privada de Morricone, gravações dos espectáculos, excertos dos filmes e imagens inéditas dos arquivos pessoais. Embora seja impossível definir o grande gênio superlativo e revolucionário de Ennio Morricone em duas horas e meia, este belo tributo ao “Il Maestro” consegue revelar parte do mistério por trás de sua extraordinária criatividade.

Sempre de olho no que de melhor a produção italiana contemporânea tem produzido tanto no cinema clássico quanto no de vanguarda, o Festa do Cinema Italiano traz uma programação que une jovens talentos com veteranos, experimentações e filmes de linguagem clássica.

Na lista dos veteranos que estão também sempre inovando, Paolo Taviani chega com “Leonoira Adeus”, seu primeiro longa-metragem depois da morte de seu irmão e parceiro de toda a vida, Vittorio Taviani, para quem Paolo dedica o filme. Aos 91 anos, o diretor prova porque é um dos principais nomes da sétima arte mundial, vencedor do Urso de Berlim em 2012 por “Cesar Deve Morrer”, e, com Vittorio, realizador de clássicos como “Pai Patrão”(1977) e “A Noite de São Lourenço” (1982).

Exibido no Festival de Berlim 2022, “Leonora Adeus” tem uma narrativa nada convencional, o longa levou o prêmio de Melhor Filme segundo a Fipresci (Federação Internacional de Críticos de Cinema). O filme parte da história real do escritor Luigi Pirandello e cria uma fábula ousada, que traz cenas de clássicos do neorrealismo italiano mescladas com cenas filmadas por Taviani, que conta a história das cinzas do autor. Siciliano de Agrigento, Pirandello, que faleceu em 1936 e nunca quis um funeral pomposo. Ao contrário, deixou escrito que queria que suas cinzas fossem depositadas no pequeno vilarejo em que nasceu. Mas a transferência dos restos mortais é marcada por inúmeros acontecimentos surreais – alguns deles baseados nas próprias ficções do autor, como o conto “Leonora Adeus”, de 1910, e “Il Chiodo”(ou “O Prego”), escrito em 1936, pouco antes de sua morte.

Já “Il Buco” traz ao festival a vanguarda e a experimentação do cineasta Michelangelo Frammartino, que recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Veneza 2021. Diretor do também premiado “As Quatro Voltas” (2010), o cineasta milanês une o cinema de observação documental à fabulação para criar narrativas inovadoras, que mergulham fundo no cotidiano de seus personagens.

Em “Il Buco”, Frammartino literalmente mergulha na jornada realizada por um grupo de jovens espeleólogos que encontra pela primeira vez o fundo do Abismo do Bifurto, uma das cavernas mais profundas do mundo, 700 metros abaixo da Terra, na Calábria.

Em paralelo, o cineasta nos transporta para a década de 1960, quando o edifício mais alto da Europa estava sendo construído no próspero norte da Itália. Os contrastes entre estes dois mundos criam novas sensações, dão tridimensionalidade à tela, deixando que a própria natureza e a humanidade se revelem de acordo com os seus ritmos, e que sejam os seus sons e não os diálogos que falam. Mais uma vez, Frammartino nos conduz por uma maravilhosa meditação sobre a curiosidade fundamental de compreender as profundezas incognoscíveis do mundo natural.

Experimentação, ousadia, vanguarda e também um clássico. Tudo isso se aplica a “Mamma Roma”, o genial longa do mestre Pier Paolo Pasolini, que ganha homenagem em memória de seus 100 anos, completados em 5 de março último.

Interpretada magistralmente por Anna Magnani, Mamma Roma é uma prostituta de meia-idade que sonha em mudar de classe social para poder voltar a viver com seu filho adolescente, Ettore. Ela faz de tudo para dar uma vida melhor a ele, mas o jovem não quer saber de estudar ou trabalhar e vive na rua com os amigos arruaceiros. Quando o passado de Mamma volta a atormentá-la, ela vai perceber que o recomeço é incerto e, talvez, inalcançável.

Segundo longa de Pasolini e uma de suas primeiras obras a retratar os excluídos da sociedade italiana, “Mamma Roma” é um retrato neorrealista, duro, mas também repleto de poesia sobre o martírio desta mãe contemporânea, que marca uma transição na filmografia inicial do subversivo cineasta.

Ousadia e vanguarda também marcam o moderno “Freaks outs”, de Gabriele Mainetti. Diretor de “Meu Nome é Jeeg Robot”, que já em 2015 explorava o universo dos super heróis nada convencionais ao trazer o ator Claudio Santamaria no papel de um desajustado romano que descobre que tem poderes especiais, o jovem Mainetti desta vez volta a trabalhar com  Santamaria, mas traz também um time de peso formado por Pietro Castellitto, Giancarlo Martini e Giorgio Tirabassi.

Desta vez, a história se passa na Roma na Segunda Guerra Mundial, mais precisamente 1943, quando Matilde, Cencio, Fulvio e Mario vivem como irmãos no circo dirigido por Israel. Os heróis desta vez descobrem o valor de seus poderes quando Israel desaparece misteriosamente, talvez em fuga ou talvez capturado pelos nazistas. Eles, então, são deixados sozinhos na cidade ocupada, mas os seus poderes sobrenaturais vão despertar a atenção de alguém, com um plano que poderá mudar o curso da História.

Inovador ao explorar o universo dos filmes de heróis fora do território de Hollywood, Mainetti prova que este multiverso é muito mais diverso e cheio de possibilidades do que o que imaginamos.

Para quem ama o cinema autoral, com um pé na dramédia, “Guia romântico para lugares perdidos” de Giorgia Farina, surpreende. A começar pelo elenco, que une o ator britânico Clive Owen à atriz e diretora italiana Jasmine Trinca e a participação mais que especial da francesa Irène Jacob.

Na trama, Trinca vive Allegra, uma blogueira / influencer de viagens agorafóbica, que nunca põe o pé para fora de casa. Ela é uma fraude como exploradora, inventa os textos que publica, sofre de ataques de pânico e tem todas as fobias do mundo. Já Benno (Clive) é um bem sucedido jornalista, que faz especiais sobre o estilo de vida italiano para a TV inglesa, mas sofre de alcoolismo e bebe até esquecer de si mesmo.

Eles são vizinhos desconhecidos que não se conhecem, mas por um acaso do ótimo roteiro, que foge do óbvio e dos clichês das comédias românticas, acabam tendo de embarcar juntos em uma viagem improvável. Exibido no 77º Festival de Cinema de Veneza, o terceiro longa-metragem de Giorgia Farina é mais que um guia romântico. O longa é uma jornada de autodescoberta entre lugares perdidos e esquecidos não só da geografia da Itália, França e Inglaterra, mas das próprias emoções e traumas de cada um.

Para quem ama Toni Servillo (de “A Grande Beleza”), “O REI do Riso”, de Mario Martone, traz o ator em grande performance na pele do lendário Eduardo Scarpetta, mestre da comédia italiana.

Na Nápoles da Belle Époque do início do século 20, um ator criou a personagem burlesca de Felice Sciosciammocca, e as salas lotavam para ver suas apresentações. Rei do riso e rei das bilheteiras, Eduardo Scarpetta (1853-1925), interpretado de forma brilhante pelo grande ator Toni Servillo, encenava uma paródia de “La figlia di Iorio”, tragédia escrita pelo maior poeta italiano da época, Gabriele D’Annunzio, e fazia muito sucesso.

Mas um dia apresentação é interrompida por vaias e assobios e Scarpetta acaba sendo processado por plágio por D’Annunzio, marcando a primeira ação judicial sobre direitos autorais na Itália. Inspirado em acontecimentos reais, o filme tem produção esmerada de Mario Martone, encenador e cineasta que assina alguns dos grandes títulos do cinema italiano das últimas décadas. Em “O REI DO RISO”, o cineasta, sempre apaixonado pela cultura napolitana, revisita as tradições do teatro napolitano e recria o que ele próprio chama “o romance imaginário de Eduardo Scarpetta e da sua tribo”.

Uma “tribo” familiar e teatral, onde se juntavam a mulher e as amantes, os filhos legítimos e os ilegítimos, entre eles o famoso dramaturgo italiano Eduardo De Filippo, que nasceu da relação de Scarpetta com a sobrinha de sua mulher.

A programação completa está neste link: https://br.festadocinemaitaliano.com/