Farmacêutica de Niterói teve papel fundamental na aprovação de vacinas

Vítor d’Avila

Uma farmacêutica moradora de Icaraí e com passagem pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, teve papel fundamental na análise das vacinas de Oxford/Astrazeneca e Butantan/CoronaVac pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Alessandra Bastos Soares esteve à frente da Diretoria de Medicamentos, Produtos Biológicos e Alimentos da agência. Ela ocupou o posto entre 19 de dezembro de 2017 e 19 de dezembro de 2020, portanto, deixando o cargo pouco menos de um mês antes da liberação do uso emergencial dos imunizantes contra a Covid-19. Todavia, isto não diminui a importância de sua participação no procedimento de avaliação dos medicamentos.

Em dezembro de 2017, Alessandra foi escolhida, no governo de Michel Temer, para ocupar a diretoria da Anvisa e foi sabatinada no Senado Federal. Alessandra ocupou a vaga que, até então, era de José Carlos Magalhães da Silva Moutinho, que encerrava seu mandato de três anos. Em 2020, ela foi substituída pelo tenente-coronel Jorge Luiz Kormann.

“Foi até uma surpresa porque historicamente é um cargo político, eu nunca fui envolvida com nenhum partido. O que se sabe é que minha indicação à época foi feita pelo (ex-deputado) Paulo Maluf e eu não tenho qualquer ligação com ele e ele nunca me pediu nada, e fui sabatinada no Senado. Todo mundo estava muito curioso, ninguém sabia quem eu era porque realmente não tenho uma história política. Eram 15 senadores, 13 votaram a favor e dois contra”, relembrou.

Alessandra contou que o primeiro ponto ao qual se dedicou quando chegou à Anvisa foi a dinâmica do relacionamento dos diretores com os servidores. Ela também relatou dificuldades de aceitação por parte de alguns servidores por ser alguém vinda do setor produtivo e não ter conexões políticas e partidárias, no primeiro contato com a nova função.

“Relacionamento da alta gestão com os servidores. Isso de um tempo para cá foi uma marca que eu deixei. Eu ia na baia do servidor e isso não era uma marca da agência, historicamente falando. E eu acho isso um erro grave. Quando eu cheguei lá era uma diretoria colegiada e eu era a única mulher, segunda a assumir uma diretoria. Acho que era muito equivocada a forma de relacionar a direção da casa com os servidores”, recordou.

Desde o início da pandemia da Covid-19, a farmacêutica esteve na linha de frente dos trabalhos de análise de pesquisas relacionados a eventuais medicamentos que pudessem prevenir ou combater o novo coronavírus. Além da aprovação das vacinas, houve diversos outros eventos, como a certificação de boas práticas dos laboratórios Butantan/Sinovac e Oxford/Astrazeneca.

“Em dezembro de 2019, a Covid-19 não estava aqui ainda, mas já começamos a fazer um movimento porque alguma coisa, que a gente não fazia ideia, ia chegar. A gente começou a ajustar, organizei ao máximo minha agente e imediatamente formamos um comitê. Eu respeito quando um médico diz para mim que prescreve hidroxicloroquina, mas com o dado que tenho não posso colocar numa bula que ele serve para Covid-19. O uso emergencial das vacinas é específico para grupos, outra coisa que precisa ficar muito clara é que ele pode ser suspenso a qualquer momento pela Anvisa, porque é assim no mundo todo, a partir do momento que existir qualquer sinalização de risco. Está concedida uma autorização emergencial, experimental, se der algo errado, suspende. O que falta para que a sociedade tenha acesso, como um todo, é o registro das vacinas, que será solicitado pelo laboratório”, explicou.

Agora, após deixar a agência, Alessandra ainda estuda as atividades e projetos aos quais irá se dedicar.

“O que eu posso fazer? Eu adoro trabalhar. Se eu não trabalhar direito, depois da Anvisa, porque esse depois chega, eu não vou conseguir trabalho, e eu preciso trabalhar. Tenho muito orgulho do que fiz lá. Tudo que consegui foi porque tive uma equipe excepcional e fiz tudo com muito carinho, empenho, dedicação e paixão. A Anvisa é feita de pessoas, que têm pai, mãe, filho, casamento”, concluiu.

Alessandra é farmacêutica, formada pela Universidade Metodista de Piracicaba. Membro da Sociedade Brasileira de Coaching com certificação em Personal & Professional Coaching e Leader as Coach. Além disso, ela tem 19 anos de atuação como responsável técnica em empresas do setor farmacêutico.

“A Farmácia está na história da minha família. Estudei na UFF em 1993. Então vim morar em Niterói, conheci meu marido, que fazia mestrado na UFF e fui para Piracicaba acompanhando ele. Sou carioca, nasci em Padre Miguel, mas quando vim para Niterói estudar me encantei. Acho que Niterói é o melhor lugar do mundo. Quando retornei de Piracicaba, já com filhos, em 2002, me instalei aqui. Fui me apaixonando, trabalhei em alguns lugares aqui em Niterói”, contou Alessandra, em entrevista ao jornal A TRIBUNA.

Entre suas idas e vindas à cidade, Alessandra, antes de assumir um dos cargos de maior importância da Anvisa, trabalhou no setor produtivo de Niterói e no Rio de Janeiro. A farmacêutica faz questão de recordar, com muito carinho, do período em que fez parte dos quadros de empresas instaladas em Niterói. Desde seu retorno, ela nunca mais deixou a c idade, ainda que tenha passado os últimos anos na “ponte aérea” Rio-Brasília.

“Quando voltei, trabalhei numa farmácia de manipulação que ainda existe. A sede ficava em São Gonçalo e trabalhei lá um período. Passei um tempo trabalhando no Rio e quando comecei a trabalhar com certificação e licenciamento de empresas, comecei a conviver com a Vigilância Sanitária de Niterói. Já em 2011 eu voltei a trabalhar em Niterói em uma empresa daqui, pela qual tenho muito carinho. Eu cuidava de toda a parte de licenciamento, assuntos regulatórios e logística”, prosseguiu.

“Em Icaraí é assim. Você desce, conhece as pessoas, os vizinhos, o dono do mercado, da padaria, você tem conta no mercado. Como minha vida era muito corrida, eu viajava para treinar, fazer algum curso, eu apenas ligava e tudo era fácil em Niterói. Eu conheço vários lugares no mundo, mas Niterói é de uma beleza incrível. A nossa natureza é sensacional. Vou caminhando do MAC a Jurujuba”, orgulha-se.

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