Famílias são retiradas do “Prédio da Caixa”

Tristeza. Desespero. Angústia. Incerteza. Essas foram algumas das sensações sentidas pelos moradores do Edifício Amaral Peixoto, no Centro de Niterói, conhecido como “Prédio da Caixa”. A ação de despejo, determinada pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), movimentou a Avenida Ernani do Amaral Peixoto durante toda sexta-feira. Duas faixas de rolamento ficaram interditadas para a ação, que contou com 50 policiais militares, 50 guardas municipais, 40 civis e dezenas de funcionários da Prefeitura de Niterói. Ao todo 1.050 pessoas foram atingidas com o despejo que foi marcado por gritos, pedidos de socorro, súplicas e até uma tentativa de suicídio em forma de protesto.

O forte aparato de segurança que foi montado garantiu a ordem da desocupação, mas ao longo do dia muitas discussões entre representantes públicos e os moradores também marcaram a ação. Um morador afirmou ter sido agredido dentro do edifício enquanto pegava seus pertences. Ele disse que desde as primeiras horas da manhã os policiais estavam o tratando mal e no corredor de um dos andares ele foi enforcado. Uma antiga moradora, que teve o nome preservado, jogou querosene no próprio corpo e quase conseguiu acender o isqueiro. Ela foi impedida por um guarda municipal que conseguiu segurar suas mãos.

Foram registrados mais de dez atendimentos médicos, em sua maioria por aumento de pressão arterial. Vários moradores foram levados para um centro de acolhimento da prefeitura. Pouco antes das 11 horas o Corpo de Bombeiros teve que agir rápido para debelar um princípio de incêndio em dois dos apartamentos do edifício, no terraço e no terceiro andar. Antes de deixar um dos imóveis, um casal de idosos teria ateado fogo nas cortinas, dando início a um princípio de incêndio, que foi contido.

Em meio à remoção, muitos dramas familiares, já que vários moradores que se recusaram a seguir para um abrigo disponibilizado pela prefeitura, preferiram ficar sentados pelas calçadas próximas ao prédio. Foi o caso da dona de casa Mismara Souza, de 39 anos, que morava com cinco filhos no prédio desde 2010. “Eu não tenho para onde ir com meus filhos e meu neto. Eu vou invadir alguma casa para morar. Como vou ficar na rua? Faço tratamento de hemodiálise, sou hipertensa e vou dormir na rua? Quem está olhando por nós?”, indagou.

Wilson Oliveira Flores, de 73, zelador do prédio, viúvo e pai de um casal de filhos, dez netos e dois bisnetos, não sabe para onde ir. “Moro aqui há 35 anos. Já fui porteiro também. Não temos parentes aqui e não sabemos para onde ir. Deveremos ficar na rua”, contou, desolado. Ele acrescentou que foi cadastrado na prefeitura para receber o aluguel social, mas ainda não recebeu o benefício. A cozinheira Maria de Fátima da Conceição, de 60 anos, proprietária e moradora de um apartamento no local há 20, criticou a atuação da Justiça no caso. “Eu já tirei as minhas coisas do imóvel há duas semanas. A Justiça está toda errada. Muita gente não tem para onde ir”, reclamou. Manoel Francisco Pinto dos Santos, morador há cinco anos do prédio, decidiu que vai dormir com a mulher e a filha na rua, em colchonetes. “Eu me cadastrei, mas não recebi até agora o aluguel social”, lamentou.

Outros moradores decidiram seguir para casa de parentes, como a aposentada Maria de Lurdes Lima, de 84 anos, que vai morar de favor com a sobrinha. Ela é proprietária de um apartamento no 11º andar e estava inconsolável com a situação. “Eu não trabalhei minha vida toda para viver isso. Eu comprei meu apartamento há 40 anos pensando em ter uma velhice saudável e confortável. Onde vou colocar minhas coisas? Meus móveis? Nem saúde eu tenho para subir essas escadas e acompanhar a retirada dos meus pertences. Espero que eu possa pelo menos voltar para meu imóvel, que eu tenho escritura, quando essa confusão toda terminar”, indagou.

 

O Oficial de Justiça Luís Alberto, da central de mandado civil criminal, explicou que pela ação os moradores poderão voltar para seus imóveis após as reformas e liberação através de laudo. “Houve uma ordem de desocupação do imóvel e foi mobilizada a Prefeitura e vários órgãos. Entendemos o drama dos moradores e os apartamentos estão sendo esvaziados, com prerrogativa para os moradores destinarem seus pertences para os locais que eles querem”, explicou.

Os moradores que não tiverem onde deixar seus móveis e pertences poderão alocá-los na sede do 12º Batalhão da Polícia Militar de Niterói, no Centro. “Toda a cidade foi envolvida nessa causa. Tudo que entrar no batalhão será devidamente catalogado e protocolado”, sintetizou o tenente coronel Sylvio Guerra, comandante do 12º BPM. A prefeitura disponibilizou caminhões para transportar os pertences e mobília de moradores além de funcionários que ajudaram no carregamento desses móveis e utensílios.

A síndica Lorena Gaia, de 28 anos, aguarda concessão de uma liminar pelo Tribunal de Justiça para reverter o despejo dos moradores. “Entramos durante a madrugada, no Plantão Judiciário, com um agravo pedindo a suspensão da decisão. Fui eleita no dia 27 de maio, após muitos administradores corruptos, negligentes e até acusados de extorsão. O perfil dos moradores é muito complexo. Tem gente que mora em ocupação aqui há 30 anos. Não dá para expulsar e deixar na rua. Penso em fazer um condomínio misto, com moradores e ocupantes, numa espécie de habitação social. Tento parceria do poder público para isso. O prédio não tem um problema estrutural. Somente elétrico e hidráulico. Dá para fazer obra com os moradores dentro”, contou Lorena, que estuda Geografia na UFF.

De acordo com Lorena, ontem seria feita uma vistoria no prédio por um engenheiro do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio (Crea-RJ), mas este foi impedido de entrar no prédio.

A ex-síndica, Carina da Silva Mansur, que foi afastada do cargo por um conselho de moradores, alegou que é a verdadeira síndica e revelou ter sido a autora do pedido de interdição do prédio junto ao Ministério Público Estadual em 25 de março passado. “Lorena foi eleita por pessoas invasoras e não os proprietários. Eu pedi a interdição, pois o edifício está inabitável. Estamos negociando a dívida com a concessionária Enel. Espero o MP liberar o prédio para a obra. Vamos bancar com o dinheiro dos condôminos e até quem deve se ofereceu para pagar em serviços. A maioria já se retirou e está recebendo o aluguel social. Só restaram 19 famílias proprietárias e 20 invasoras. A Lorena permitiu que pessoas de fora invadissem apartamentos que eram de outras pessoas. Tinha até criminosos. Soube que estava havendo furtos”, relatou Carina, que vai lutar na Justiça para anular a eleição e reaver o cargo. Segundo ela, só 52 moradores pagavam o condomínio, no valor de R$ 240. Ela mora em Icaraí e tem dois imóveis, sendo uma loja, no prédio.

PREFEITURA DE NITERÓI
A prefeitura informou que uma unidade do Centro de Referência Social de Assistência Social (Cras) na Rua Coronel Gomes Machado, no Centro, foi disponibilizado para abrigar os moradores que não tiverem para onde ir. Sobre aqueles que, embora cadastrados, não estão recebendo aluguel social, é devido a problemas de documentação deles.

A desocupação terminou por volta das 13h. Em seguida, funcionários da prefeitura colocaram blocos de cimento nas entradas do prédio para impedir invasões durante o período de interdição. A entrada principal foi cercada por guardas municipais e policiais militares.

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