Família de funcionário da Cedae assassinado acusam Bombeiros de omissão

Augusto Aguiar –

Nem bem as circunstâncias do assassinato do policial militar Samuel Ribeiro, morto na madrugada de segunda-feira, foram esclarecidas, com indícios e acusações de negligência, mais uma vez um fato semelhante ocorreu, dessa vez no bairro de em Maria Paula, na divisa entre São Gonçalo e Niterói. De acordo com testemunhas, a suposta lentidão no trabalho de socorro a um funcionário terceirizado da Cedae, identificado como o bombeiro hidráulico Rômulo Farias Silva, baleado, pode ter custado a vida da vítima.

Na tarde de quarta-feira, Rômulo e um companheiro de trabalho se deslocaram até a Rua dos Eucaliptos, em Maria Paula, a serviço da Cedae, quando foram atacados a tiros por traficantes. Segundo informações, a dupla realizaria um serviço de corte de fornecimento quando foram atacados. A dupla estava numa motocicleta. Ainda segundo relatos, Rômulo e o companheiro de trabalho ainda tentaram manobrar para escapar, mas o primeiro foi atingido por dois tiros e caiu ferido. Moradores do Morro do Eucalipto acionaram a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros, sendo que estes enviaram uma equipe de socorro do quartel de Charitas.

Moradores disseram que, mesmo com vítima caída e necessitando de urgência no socorro, militares das duas corporações argumentaram que não seria seguro realizar o socorro do funcionário. Sem que as guarnições ajudassem a vítima, que estava dentro da comunidade, teve início uma discussão entre um morador (um dos solicitantes do socorro) e um militar do Corpo de Bombeiros, gerando impasse pelo atendimento. Uma testemunha ainda denunciou que chegou a receber voz de prisão enquanto insistia pelo atendimento, inclusive se oferecia para levar a equipe até o local onde Rômulo estava caído e baleado.

“Quando eu pedi uma maca para tirar o garoto da comunidade para onde eu e o bombeiro estávamos, ele me deu voz de prisão. Foi quando eu saquei o telefone e comecei a filmar”, afirmou o morador, seguindo-se a seguinte discussão: (Militar do Corpo de Bombeiros para os PMs) – “Por favor, o cidadão aqui está nos ameaçando”. (Morador) – “Eu tô ameaçando quem? Eu pedi a maca para resgatar o cara. O cara está negando socorro pro amigo”. (PM) – “Não estou negando socorro, não. A gente não tem condição”. (Bombeiro) – “Já está vindo a ambulância”. (Morador) – “Eu trago o cara para cá. Vocês não precisam entrar, não”.

Fato é que, segundo os moradores, cerca de 40 minutos depois do início do impasse, a vítima foi socorrida – o Corpo de Bombeiros disse que atendeu e os moradores negam – e lavada para o Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), no Colubandê, onde veio a falecer.

“Foi muita negligência, um abuso de autoridade, uma omissão de socorro por militares que não deveriam nem usar a farda”, desabafou o morador, acrescentando: “Nessas horas que a gente vê que não está nem um pouco amparado pela polícia, nem pelo bombeiro, nem por nenhuma outra autoridade”.

Ao tomar conhecimento do fato, a mãe da vítima sofreu uma crise nervosa. A ocorrência causou muita revolta e lembrou o recente caso do PM Samuel, que havia sido levado por traficantes e possivelmente poderia ser salvo, caso o plantão do 7º BPM enviasse policiais para resgatá-lo. O carro da vítima foi encontrado incendiado com um corpo carbonizado em seu interior, provavelmente de Samuel.

Na manhã de ontem, a assessoria de comunicação do Corpo de Bombeiros explicou que a corporação classifica as áreas de risco como áreas de conflitos previsíveis (aquelas que sabemos que o conflito está acontecendo) e áreas de conflitos imprevisíveis (aquelas em há probabilidade de ocorrer um conflito). Trata-se de uma análise subjetiva, que leva em conta o dia, o local e a hora da ocorrência. Em caso de ocorrências registradas nessas áreas, o objetivo da corporação é garantir que o atendimento seja prestado, sem descuidar do zelo pela integridade física dos militares. Assim, um protocolo interno é seguido. A equipe de socorro da corporação que não se sentir segura em ingressar em determinada área, para qualquer tipo de atendimento, pode acionar apoio policial.

Segundo a Cedae, Rômulo era funcionário do consórcio Módulo, contratado pela empresa e acrescentou que todo suporte possível estava sendo prestado à família. Ele era solteiro e estudava Direito na Universidade Salgado de Oliveira. Também, com base em informações, Rômulo estaria trabalhando na empresa terceirizada há apenas três dias. Seu primeiro dia efetivo de serviço teria ocorrido na quarta-feira, dia do crime. Amigos acrescentaram que ele foi submetido a treinamento na segunda e na terça-feiras. O rapaz que o acompanhava no momento do fato era um funcionário mais experiente e orientava Rômulo. O sepultamento está previsto para a tarde de hoje, no Cemitério do Maruí, no Barreto.

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