Família clama por justiça um ano após pedreiro morrer em ação da PM

Vítor d’Avila

Uma data que era para ser de comemoração, se tornou marco de dor eterna para uma família gonçalense. No dia 24 de janeiro de 2020, quando completava 61 anos, o pedreiro Jorge José Elias de Laia morreu baleado no bairro Almerinda, onde morava. Um ano depois, sua filha, Eliane Pereira de Laia, de 34 anos, cobra respostas para o crime e acusa a Polícia Militar.

Na manhã de segunda-feira (25), a filha esteve na sede da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Maricá (DHNSG), responsável pelas investigações. Ela estava acompanhada de Rodrigo Mondego, que é procurador da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro (OAB-RJ).

“Nosso objetivo de vir aqui é pedir justiça pela memória dele, que ele deixou para a gente. Meu pai não era bandido, era trabalhador. Meu pai praticamente criou eu e meus irmãos sozinho. Quando minha mãe faleceu a gente era muito novo. A gente quer provar que ele era inocente”, disse Eliane.

Na época do crime, a PM afirmou que agentes do 7º BPM (São Gonçalo) realizavam uma ação contra o tráfico de drogas na região e que Jorge teria trocado tiros com os militares. Entretanto, a família rechaça veementemente essa versão. A vítima teria retornado à sua casa, após iniciar as comemorações do aniversário na casa de um filho, para tomar um banho e se arrumar para dar sequência aos festejos, na casa de outro filho.

“Ele foi ligar a bomba e quando estava subindo a polícia chegou atirando, atirou nele e ele caiu lá e lá ficou. Aí falaram que ele estava com radinho, caderno, arma, mas a gente sabe que não estava. Fomos para o Hospital Alberto Torres, no Colubandê, porque os policiais não deixaram a gente socorrer”, prosseguiu a filha.

Eliane ainda relata que houve negligência no socorro, por parte dos PMs, que levaram Jorge José à unidade estadual de saúde. “Teve sim [demora no socorro]. Foi por volta de 17h30 [que Jorge foi baleado] e eu cheguei no hospital quase 19h, praticamente junto com ele. Demorou quase uma hora para socorrerem ele”, revelou.

Jorge teria feito 62 anos no último domingo (24). Após um ano de sua morte, a família ainda cobra uma definição e punição aos responsáveis. O caso foi inicialmente registrado, como auto de resistência, pela 75ª DP (Rio do Ouro). Entretanto, foi encaminhado à DHNSG, que segue apurando as circunstâncias. “A gente foi na 75ª, prestamos depoimento e mais nada. Até agora não tivemos resposta de nada”, concluiu.

A família de Jorge procurou assistência da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ. O procurador, Rodrigo Mondego, reiterou a inocência da vítima e ressaltou que elementos do laudo cadavérico rechaçam a possibilidade de que ele tenha confrontado por policiais.

“Até agora nada foi esclarecido. O caso saiu da 75ª DP porque o delegado viu que tinha indícios de que não era auto de resistência. Infelizmente, por causa da pandemia, tudo demorou. Ele trabalhou até os 61 anos sem nunca ter tido passagem pela polícia. O que a gente teve do laudo cadavérico é que, provavelmente, ele tomou o tiro agachado e de costas, o que tira a ideia de que ele estava atacando a polícia”, explicou o procurador.

Por meio de nota, a Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Polícia Militar informou que a Corregedoria Geral da Corporação acompanha o caso, e que foi instaurado um Registro Policial Militar na Delegacia de Polícia Judiciária Militar. Dois policiais militares envolvidos na ocorrência seguem realizando trabalhos internos. A Polícia Civil também foi procurada mas, até o momento da publicação, não havia respondido.

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