Exposição de Marc Ferrez exibe poemas visuais de Niterói

Está cansada (o), de saco cheio, tomada (o) de calor? Chute tudo, sequestre alguém e rume para a Gávea.

Lá reside um poderoso bálsamo, sem álcool ou sertralina, contra os males do enfado, da exasperação, da inveja, essa déspota desprezível que nos assombra 38 horas por dia, seca pimenteira, trapaceira, desleal, traiçoeira, covarde, desonesta, canalha, baranga.

O remédio, em maravilhosas doses cavalares, está no Instituto Moreira Salles que inaugurou a exposição “Marc Ferrez: Território e Imagem”. Esse cara, que cara, o Ferrez (1843-1923) foi o maior fotógrafo brasileiro do século 19, trabalhador compulsivo, um gigante, dono de uma obra que se equipara à dos grandes nomes da fotografia do mundo.

Em sua homenagem deveríamos erguer todas as honras, troféus, medalhas e milhares de pés de arruda, avenca, comigo-ninguém-pode, dinheiro-em-penca, espada-de-São-Jorge, guiné, erva pimenteira, manjericão.

Ele se enfronhou no Nordeste, Norte e Sudeste como fotógrafo oficial da Comissão Geológica do Império do Brasil (1875-1878), e as regiões Sul e Sudeste como fotógrafo das principais ferrovias em construção e modernização naquele momento.

Nascido e radicado no Rio de Janeiro, Ferrez documentou intensamente a capital do Império e seu entorno, onde está Niterói. Claro, a nossa deliciosa cidade foi clicada inúmeras vezes por ele e está na exposição.

Sem querer menosprezar, sem querer chutar o coqueiro de ninguém, hoje qualquer um pode posar de fotógrafo genial. É só pegar o celular, clicar qualquer coisa interessante…por exemplo, um ônibus caçando um pedestre na Barão do Amazonas, ou uma bicicleta sendo estraçalhada por um táxi (normal, nesses trópicos ciclozoneados), enfiar a foto no photoshop e cair de efeito. Sabe aquela fotaça do zagueiro encontrando o atacante no ar, com a bola espumando suor? Fácil. É só por a câmera em modo vídeo, gravar o movimento, congelar a imagem no momento (frame) exato e imprimir, devidamente maquiada pelo fotoshop. Qualquer Papai Noel faz. Acho o grande Sebastião Salgado, o nosso querido Mundo Cão, genial, mas exagera nos efeitos. Sim, as fotos ficam lindas, mas foto e outras iguarias da vida eu prefiro nuas.

Só que no tempo de Marc Ferrez o buraco era mais em cima, era pau, pedra. Era tudo chapa (nem filme existia) e se você nota uma bela nuance numa foto, quase um sublime degradê, uma fusão meio mágica, é tudo trabalho 100% dele. Sem efeito algum porque não havia.

Preservados por seu neto, o pesquisador Gilberto Ferrez, os negativos de vidro e as tiragens produzidas pelo próprio fotógrafo compõem a maior parte da Coleção Gilberto Ferrez, 15 mil imagens adquiridas pelo IMS em 1998.

Se você está com pressa, tem compromisso, hora marcada, relógio aflito, não vá. Ferrez tem que ser sorvido com muita calma e depois celebrado, quem sabe em um bar da região, ou no Jardim Botânico, Largo do Machado/Flamengo. Bem, eu sou fã do Lamas que, no caso, merece um Uber (ou 99) para que você levante as tulipas para o Brasil de Marc Ferrez, comemorando o fato de lá na casa do cacete do século 19 a nação ter sido tão bem cuidada.

A mostra, com mais de 300 itens do acervo do IMS (trabalho brilhante o desse instituto) e de outras instituições, incluindo fotografias e álbuns originais, negativos de vidro, estereoscopias, autocromos, câmeras e equipamentos fotográficos, documentos originais e correspondências e o papel da imagem fotográfica no processo de exploração do território nacional, em suas diversas regiões, e de sua construção e consolidação como ideia de nação, em especial durante o Segundo Império e início da República.

Se no Lamas der na sua telha e você embicar para o aeroporto, pegar um avião e sumir, pode ficar absolutamente tranquilo que ninguém irá reparar na presença da sua ausência.

Viva Marc Ferrez!

Feliz Natal para todos!

Email: luizantoniomello@protonmail.com

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