Expansão para lá de desordenada

Wellington Serrano

O avanço de construções dispersas e desordenadas, sem a mínima infraestrutura, virou alvo de um estudo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental, do governo do Estado, que fez um levantamento inédito e revela que, a cada ano, 32 quilômetros quadrados de terras verdes são incorporados à vida urbana da Região Metropolitana do Rio, que abrange 21 municípios. Proporcionalmente, Itaguaí lidera o ranking das cidades que mais cresceram nos últimos nove anos. O município praticamente dobrou sua mancha urbana (a expansão foi de 90%) entre 2007 e 2016. Atrás de Itaguaí, estão Cachoeira de Macacu (84,5%), Rio Bonito (71,5%), Itaboraí (63,7%) e Guapimirim (43,9%).

O diretor-executivo da Câmara Metropolitana e coordenador do estudo, o arquiteto e urbanista Vicente Loureiro, afirmou que a consolidação do Porto de Itaguaí, um dos maiores e mais modernos da América Latina, tem sido um fator determinante para o crescimento urbano da cidade, cujo acesso foi facilitado com a inauguração do Arco Metropolitano, em 2014.

“Sem dúvida, o porto é o grande transformador da realidade de Itaguaí. Ele atraiu empresas de logística, investimentos da Petrobras e atividades industriais que não existiam. Como consequência, a cidade passou a receber pessoas em busca de oportunidades. Por isso, Itaguaí cresceu tanto demograficamente quanto fisicamente. Em Cachoeira de Macacu e Rio Bonito houve muito mais a extensão da conurbação (unificação da malha urbana de duas ou mais cidades) através das rodovias BR-101 e RJ-116. São dois eixos que sofreram muitas transformações”, explicou.

Já a área urbana da cidade de Itaboraí cresceu 21%. Mas, em números absolutos, o município foi o que mais expandiu essa malha. Foram 36,91 quilômetros quadrados de áreas verdes urbanizadas em nove anos. Duque de Caxias (31,88 km²), Nova Iguaçu (22,04 km²) e Itaguaí (21,14 km²) vêm logo atrás no ranking.

Ex-prefeito de Itaboraí e atual presidente do Consórcio Intermunicipal de Desenvolvimento do Leste Fluminense (Conleste), Helil Cardozo (PMDB), disse que o resultado do estudo não é nenhuma surpresa para ele. “Quando fui prefeito já havia identificado essa expansão devido à construção do Comperj. Itaboraí foi a cidade que mais cresceu no Rio de Janeiro, mas que teve perda de receita, por isso é a que mais sofre”, lamentou Helil.

Pesquisadores e especialistas da Câmara Metropolitana têm se debruçado sobre os problemas da Região Metropolitana do Rio desde o ano passado, com o objetivo de traçar um Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano Integrado, financiado pelo Banco Mundial e executado por um consórcio formado pelas empresas Quanta Consultoria e Jaime Lerner Arquitetos Associados. O projeto chega agora na fase de proposições e, no segundo semestre, deve ser enviado à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para aprovação. Para Loureiro, conter a expansão dispersa e desordenada é o maior desafio dos municípios da região.

“Esse crescimento, que ocorre de modo precário na maioria das vezes, tira a eficácia de várias medidas que se venha a tomar. Se não dermos jeito nesse controle, não há plano de saneamento ou de mobilidade que dê certo”, destacou.

O poder público hoje não consegue acompanhar o ritmo de crescimento urbano das cidades, como prova um levantamento de ruas sem pavimentação. O resultado impressiona: 10.449,3 quilômetros de vias da Região Metropolitana não têm asfalto. Se esse total fosse colocado numa linha reta, seria como ir do Rio a Estocolmo, capital da Suécia. Já o investimento necessário para drenar e pavimentar tudo é de R$ 26 bilhões, de acordo com o estudo, que não contabilizou as ruas do Rio e de Niterói, porque as prefeituras das duas cidades já tinham esses dados.

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