Eterno ‘Seu Peru’, Orlando Drummond morre aos 101 anos

Scooby-Doo, Alf, Popeye, Gato Guerreiro e Seu Peru eram conhecidos por serem a mesma pessoa, o ator e dublador Orlando Drummond. E nesta terça-feira, 27 de julho de 2021, o Brasil perde a inconfundível voz do artista morador de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio, nascido em 18 de outubro de 1919. Ele morreu em casa vítima de falência múltipla dos órgãos.

Drummond iniciou a carreira na Rádio Tupi no dia 13 de agosto de 1942, em uma sexta-feira. Ele fazia piada com isso, dizendo que no caso dele a sexta-feira 13 “trouxe sorte”. E em entrevista a um programa do apresentador José Mojica Marins, o Zé do Caixão (também falecido), o dublador contou que sua entrada ao rádio se deu por acaso.

“Foi muito engraçado. Eu não tinha nada a ver com rádio. Começou com uma briga na Lapa, fui tomar partido de um amigo, Frederico, que era da polícia especial. Estávamos sentados, de repente veio um camarada todo esfarrapado, rasgado, e disse, ‘Fred, estão massacrando o Camarão na Taberna da Glória!’. Tirei o meu casaco e fui atrás para defender o Camarão. Não sabia quem era, mas era amigo de um amigo! Quando cheguei lá, uma balbúrdia, cadeira para lá, para cá e só tinha homens de dois metros. Eu era remador, malandro velho, tinha boa compostura física. Vou entrar nessa briga. Mas o tamanho dos homens me assustou. A gente tem que respeitar.”

Na sequência, a briga terminou, mas Drummond continuou a confusão. E acabou sendo preso. Mas, curiosamente, foi justamente o autor da prisão que foi o responsável pela entrada dele no rádio. O ator explicou como isso ocorreu.

“De repente acabou a briga de todos lá no bar, porque a polícia chegou. E eu continuei brigando com o cara. A polícia nos separou. ‘Prenda esse safado, esse moleque!’ Sabe quem era o cara que mandou me prender? O Camarão, que eu não conhecia. Nos tornamos amigos e ele me apresentou a um cidadão que era o cantor revelação de 1941, Moraes Neto. Daí, [o Camarão] me levou para a Rádio Tupi um dia. Fiz um teste como contrarregra, para fazer ruídos, passos, bater na porta, e tudo mais… Eu tinha muito talento para aquilo, modéstia a parte, e fui logo aprovado pelo Olavo de Barros, que era uma estrela, diretor de rádio teatro”, explicou na ocasião

O responsável por dar os primeiros papéis como protagonista em radionovelas foi Paulo Gracindo.

Participação na TV Tupi ao lado de Isaac Bardavid

Um dos primeiros trabalhos de Drummond na televisão foi Rua do Ri Ri Ri, na TV Tupi, em 1960. O programa era uma comédia que tinha o roteirista Max Nunes (falecido em 2014) como um dos autores. Quem trabalhava ao lado do ator foi Isaac Bardavid, outra lenda da dublagem. Em conversa com A Tribuna, ele lamentou a morte do colega.

“Minha amizade com o Orlando Drummond vinha desde 1960, quando fizemos Rua do Ri Ri Ri, de autoria do Max Nunes, um gênio para escrever o humor. De lá para cá nós ombreamos na dublagem, seja eu ou ele atuando na direção de dublagem. Foram 62 anos de amizade. Nós estávamos sempre juntos, ombro a ombro. É mais um dos pioneiros que se vai. Era muito meu amigo. Dizer mais o quê?”, afirmou Bardavid claramente bem emocionado.

Tema de biografia em 2020

Foto: Reprodução/Facebook

Para celebrar a chegada aos 100 anos, ele foi tema de uma biografia, o livro Orlando Drummond Versão Brasileira. De autoria do jornalista Vítor Gagliardo, a obra foi lançada em fevereiro do ano passado, no Shopping Boulevard, localizado em Vila Isabel, terra do ator. O escritor afirmou como a morte do artista afeta a dublagem nacional.

“O Brasil perdeu um grande ator. Drummond era um apaixonado pela vida, pela família e pela arte. Sua obra está eternizada na figura do Seu Peru, da Escolinha do Professor Raimundo, e em todos os seus personagens na dublagem, em especial do Scooby e do Popeye. Foram gerações que cresceram acompanhando sua arte. Enfim, uma notícia muito triste”, comentou Gagliardo.

Ele conta como conheceu Drummond e de que forma surgiu a ideia de biografia

“Eu conheci o Felipe, um dos netos do Orlando, que é amigo de infância da minha esposa. Ele me apresentou ao avô. Eu já era um fã do trabalho do Orlando. Cresci assistindo Seu Peru, Scooby, Popeye e Alf. Daí surgiu a ideia do livro”, explica Gagliardo, que acrescenta que a admiração ao ator só aumentou com a conclusão do livro.

“Minha admiração por ele só aumentou desde então. Fui recebido com muito carinho por toda a família. Jamais vou esquecer quando entreguei o exemplar do livro ao Orlando. Era um olhar de felicidade”, recorda emocionado.

Eternizado como Seu Peru

Impossível falar da carreira do ator sem citar o sucesso que ele fez como Seu Peru, na Escolinha do Professor Raimundo, levado ao ar pela TV Globo entre 1990 e 1995. Em entrevista ao Estado de São Paulo no ano passado, próximo do lançamento da biografia, ele explicou que soube que iria interpretar o personagem por acaso, quando soube que o ator escalado faltou no dia da gravação.

“Ele não foi feito para mim, mas para um aluno da Cininha [de Paula], sobrinha do Chico Anysio. Na hora da gravação, ele não apareceu, porque [o personagem] era um ‘bicha’, os amigos dele devem ter dito: ‘pô, tu vai fazer isso na televisão?. Quando o garoto não apareceu, o Chico Anysio deu a ordem: ‘chama o Drummond!’. Eu tava indo embora. Pô, como é que eu vou fazer o negócio aí? ‘Não, é uma coisinha à toa só, uma apresentação, depois você vai fazer uma coisa melhor. Me ajeitei e fiz o Seu Peru”, contou na ocasião.

O sucesso do personagem foi tanto que ele escapou de um assalto ao ser reconhecido pelos bandidos. Ao sair de uma gravação feita em Curicica, na Zona Oeste, ele passou pela estrada Gragaú-Jacarepaguá. Na descida da Serra, em Lins de Vasconcelos, ele foi abordado por homens armados. Ao sair do carro com as mãos para o alto, foi imediatamente reconhecido e liberado na hora com todos os pertences.

“Um garoto no meio deles: ‘Esse aí é o Seu Peru, da televisão! Ele que faz o Scooby-Doo’. Me devolveram tudo. Fiz as vozes todas e consegui passar naquele ‘teste’. Me levaram para uma portinha que tinha ali, tomamos umas cervejinhas. Eu paguei!”, recordou.

Em virtude de um acidente doméstico ocorrido em 2015, ele estava afastado dos trabalhos. Os trabalhos mais recentes dele foram em um comercial para uma marca de carros, onde interpretava a voz do Mestre dos Magos, personagem do desenho “A Caverna do Dragão” e, por último, uma participação especial, feita em 2019, interpretando o Seu Peru na nova versão da Escolinha. Em janeiro, ele recebeu as duas doses da vacina contra a Covid.

Em abril, ele precisou ser hospitalizado no Quinta D’Or, em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio, por causa de uma infecção urinária. Dois meses depois, em junho, ele recebeu alta da unidade.

Orlando Drummond deixa a esposa com quem era casado há 70 anos, Glória, dois filhos, cinco netos e três bisnetos.

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