Estudo da UFF: ‘Brasil pode chegar a 5 mil mortes diárias’

Um dia após o Brasil atingir pela primeira vez a marca de mais de três mil mortes por Covid-19 em 24 horas, um estudo divulgado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) aponta que, se nada for feito, o país pode bater a casa dos cinco mil óbitos diários em pouco tempo. Caso isso ocorra, ainda segundo o estudo, o país corre risco iminente de haver um colapso na saúde pública e privada.

Os dados são da pesquisa “Detecção precoce da sazonalidade e predição de segundas ondas na pandemia de Covid-19”, coordenada pelo professor Márcio Watanabe, do Departamento de Estatística da UFF, e divulgado na quarta-feira (24). O trabalho demonstrou a existência fatores determinantes na ocorrência de surtos do vírus a partir de dados da pandemia de mais de 50 países entre setembro de 2020 e março de 2021, que confirmaram evidências de que a sazonalidade afeta a transmissão da Covid-19.

Segundo Watanabe, até o mês de maio a pandemia deve se agravar no hemisfério sul, em particular no Brasil. O panorama deve ser o mesmo em países como a Índia e Bangladesh. No Brasil, se nada for feito, o pico de óbitos deve ocorrer até o início de maio e pode atingir um número de óbitos diários perto da casa dos 5 mil. “O valor real do pico dependerá da velocidade da vacinação nos próximos meses e das medidas de distanciamento adotadas”, alertou.

Para Watanabe, a única forma dessa previsão de aumento elevado no número de mortes no Brasil não se cumprir é acelerando o ritmo da vacinação em todo o país. “Indivíduos de 50 a 60 anos são responsáveis por uma expressiva parcela das internações e óbitos, mas não estão relacionados como grupo de risco no Plano Nacional de Imunização (PNI). Enquanto o país não vacinar esse grupo de pessoas, e também idosos e aqueles com comorbidades, ainda teremos um grande número de óbitos”, ressalta.

Ainda de acordo com o estudo, no hemisfério norte os casos devem formar um platô alto, com um número significativo de infectados, mas sem tendência de aumento como no sul. Contudo, não há possibilidade de relaxamento das medidas preventivas como as medidas de distanciamento mesmo nos países da Europa. “Uma consequência positiva será a realização das Olimpíadas no Japão, em julho, antes da chegada do outono do hemisfério norte, em setembro, período em que os países europeus e asiáticos, assim como os EUA, terão nova tendência generalizada de alta de casos, principalmente os que não tiverem avançado na vacinação”, enfatiza o estatístico.

Os dados mostram que as medidas de isolamento que estão sendo adotadas por muitas cidades e países pelo mundo são capazes de frear o aumento de casos, mas sua efetividade depende da taxa de adesão a elas, principalmente em relação a redução de aglomerações. Para o professor, “é essencial reduzir aglomerações como ônibus lotados, que têm sido ignorados pelo poder público ao longo da pandemia”.

O Coronavírus a partir de 2022

Ainda de acordo com o estudo desenvolvido por Márcio, a partir de 2022 a Covid-19 deve se comportar mais claramente e com um padrão sazonal similar ao da gripe e outras enfermidades respiratórias. Esse comportamento vai permitir identificar a sazonalidade da doença e “é fundamental para um correto planejamento das ações do poder público, que já poderia ter se antecipado ao aumento de hospitalizações e óbitos que têm ocorrido neste mês”.

Depois de passado o surto da pandemia, a população mundial passará a conviver com a Covid-19 da mesma forma que convive com outras doenças respiratórias, como a pneumonia. A doença será endêmica, ou seja, sempre haverá casos. Assim, um ponto fundamental para o futuro é a ciência encontrar algum tratamento que seja significativamente eficaz para pacientes hospitalizados com coronavírus.

Para o estatístico, “após a produção de diversas vacinas eficazes em tempo recorde, temos que depositar novamente nossas esperanças e apoiar o incrível trabalho de pesquisadores de universidades do Brasil e do mundo, que seguem trabalhando incansavelmente para mitigar cada vez mais os efeitos da maior pandemia da história”, finalizou.

Marcelo Almeida

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