Estudo da UFF alerta para o crescimento acelerado dos mangues na Lagoa de Itaipu

De acordo com o portal do Instituto Estadual do Ambiente (INEA-RJ), o complexo lagunar de Itaipu, que compreende as duas lagoas costeiras que se conectam pelo canal de Camboatá, localizadas na região das praias oceânicas de Piratininga e Itaipu, em Niterói, na costa leste da Baía de Guanabara, vem sofrendo um crescente processo de alteração de suas características biológicas. A área composta pelas lagoas tem uma extensão de 2,87 quilômetros quadrados, profundidade média de sessenta centímetros, atingindo em alguns trechos um metro e meio.

Atento a essa inquietante realidade ambiental, o professor do Departamento de Biologia Marinha da UFF Abílio Soares idealizou a pesquisa “The colonization of a coastal lagoon by a mangrove ecosystem: Benefit or threat to the lagoon?” (A colonização de uma lagoa costeira por um ecossistema de mangue: benefício ou ameaça para a lagoa?), publicada recentemente na revista científica Aquatic Botany.

O estudo também conta com a participação de outros quatro pesquisadores da universidade: Gabriel Nuto Nóbrega, do Departamento de Geoquímica; Luiz Roberto Zamith Coelho Leal, do Departamento Geral de Biologia; Mara Cíntia Kiefer, do Departamento de Biologia Marinha; além do pós-graduando do Programa de Pós-Graduação em Biologia Marinha e Ambientes Costeiros (PBMAC – UFF), Robson Acha Leite.

Dados do Inea apontam que, nos ecossistemas das lagoas de Piratininga e Itaipu, as macroalgas são os principais produtores primários – organismos que realizam a sua nutrição através da fotossíntese, transformando energia solar em energia química -, e sua existência se explica pela pequena profundidade e disponibilidade de luz na coluna de água. Por serem lagos rasos, a influência do sedimento é determinante em prover nutrientes e em deixar a água mais turva.

Com a construção do canal do Tibau, a lagoa de Piratininga passou a enfrentar uma intensa drenagem de suas águas. O processo de degradação foi acelerado nos anos setenta, quando um projeto de loteamento promoveu total alteração no local. A região marginal sofreu com aterros e construções, perdendo a cobertura original de restinga. Por fim, essas alterações possibilitaram o aparecimento de manguezais, um ecossistema que não é originalmente típico desse complexo lagunar.

Segundo Abílio Soares, os manguezais são considerados berçários naturais que proveem alimento, reprodução e abrigo para as fases juvenis de diversas espécies de pescado. “A pesquisa observou o povoamento natural e as florestas de mangue plantadas que iniciaram a colonização do complexo lagunar de Itaipu. O plantio foi feito, mas nunca havia sido avaliado. Pensando nisso, verificamos o papel dessas florestas emergentes e as mudanças ecológicas nos ecossistemas de suporte”, destaca.

No estudo, foram analisados dois bosques de manguezais, um natural e um plantado, que começaram a se desenvolver nas lagoas na década de 1970, após a abertura do canal de Itaipu. “Em quinze anos, a área do bosque natural aumentou doze vezes. Já a área plantada cresceu noventa e cinco vezes em seis anos. Ambas cobrem atualmente 25 e 1,9 hectares, respectivamente. Apesar das idades bem distintas, a riqueza e abundância das espécies vegetais dos bosques são similares, mesmo que suas árvores apresentem diferenças de tamanho”, esclarece o professor.

Abílio explica que a colonização da laguna pelos manguezais resultou em mudanças ecossistêmicas locais que ainda não eram muito bem conhecidas. O trabalho mostrou um crescimento bastante acelerado da área ocupada pelo manguezal nos últimos anos. “Por um lado, o manguezal permitiu o aparecimento de espécies que antes não habitavam a lagoa, como o caranguejo-uçá. Entretanto, o monitoramento da expansão dessa vegetação se faz necessário, pois seu avanço descontrolado pode diminuir o espelho d’água e causar o desaparecimento da lagoa se não for contido”, ressalta.

De acordo com o professor Gabriel Nuto, responsável pela quantificação de carbono nas árvores de mangue, esse crescimento tem contribuído significativamente para o sequestro de carbono da atmosfera. “A partir desse processo de remoção de gás carbônico, que se incorpora na biomassa vegetal, é que as lagoas passam a desenvolver seus serviços, como por exemplo, servir de base para teias tróficas – que são redes interligadas de cadeias alimentares”.

“O sequestro de carbono ameniza as emissões atmosféricas causadas pelo homem; entretanto, tal crescimento precisa ser monitorado e, caso necessário, medidas de contenção devem ser adotadas. Com a abertura do Canal de Itaipu, houve uma mudança de estado do ecossistema lagunar, que antes era dominado por plantas aquáticas diferentes dos manguezais”, acrescenta Abílio.

Quanto aos impactos socioambientais, a pesquisa observou a colonização de manguezais no complexo lagunar de Itaipu como modelo de estudo para discutir eventuais mudanças ecológicas na região que podem afetar atividades como a pesca. “O surgimento de caranguejos comerciais habitando a lagoa, por exemplo, está diretamente relacionado ao crescimento do manguezal. Catadores de caranguejos são encontrados com mais frequência pela fiscalização na região, que tem muitas restrições de circulação por ser uma zona da Reserva da Tiririca. Essas discussões sociais e ecológicas vêm sendo levantadas após a inserção desse ecossistema no complexo lagunar”.

De acordo com Abílio Soares, pela primeira vez um estudo demonstra com dados a possibilidade de o plantio de mangues poder ser utilizado em projetos de recuperação de áreas degradadas. “Portanto, compreender as novas funções e dinâmicas impostas pelo estabelecimento desses manguezais é fundamental não apenas para a prevenção, mas para orientar práticas de manejo. Esperamos que, com a divulgação do trabalho nas mídias, a Secretaria de Meio Ambiente de Niterói desenvolva um projeto de monitoramento, a fim de manter o equilíbrio entre a presença do mangue e a ecologia das lagoas”, finaliza o docente da UFF.

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