Estudo com plasma dos cavalos contra a Covid-19 avança

Em entrevista exclusiva para A TRIBUNA, a vice-presidente do Instituto Vital Brazil (IVB), Karina Belfort de Almeida, fala sobre os ajustes para os testes do soro anticovid-19 em humanos através do plasma dos cavalos.


No início do mês foi divulgado que o Instituto Vital Brazil estava realizando os últimos ajustes de protocolos para o início do ensaio pré-clínico do novo soro equino contra a Covid-19. Como está essa questão?

A pesquisa do soro anticovid-19 do Instituto Vital Brazil está na fase pré-clínica, ainda não entramos na fase de testes em humanos, pois estamos trocando informações técnicas com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A etapa atual é de delineamento dos protocolos para início da fase clínica da pesquisa, ou seja, quando é testada em humanos. Estamos em processo de respostas aos questionamentos da Anvisa sobre diluição do soro e dosagem, além de outras questões pontuais. Essa troca de informações é normal e fundamental no processo de produção de medicamentos desse tipo.

O IVB está cadastrando voluntários?

Muitas pessoas nos perguntam se podem ser voluntárias para testar o medicamento, mas isso não será necessário. Não foi feita uma listagem prévia de pessoas, visto que o soro, diferente da vacina, é um medicamento e deve ser usado e testado em pacientes que estejam com a doença no momento do estudo. Fizemos a parceria com o Instituto D’Or para a realização de testes em humanos. Assim que liberado pela Anvisa, o soro anticovid-19 será testado em 41 pacientes doentes, elencados pelo Instituto, que estejam hospitalizados com sintomas de leves para moderados, com quadro de piora.

Como foi participar desse projeto pioneiro com o plasma dos cavalos?

É muito gratificante fazer parte de uma instituição que tem seu trabalho voltado para a defesa da saúde, da ciência e da vida, alicerces que sempre foram importantes e estão em grande destaque nesse momento tão complicado para o mundo. Para o início da pesquisa, foram utilizados dez cavalos. Os animais começaram a ser inoculados em maio de 2020. Para a inoculação, foi usada a chamada proteína S que fica na espícula do vírus (produzida na Coppe/UFRJ), que foi injetada por baixo da pele dos animais, sem que eles sofressem nenhum dano. Durante seis semanas, inoculamos esse antígeno nos animais e fomos observando se haveria sintomas ou reações durante todo o período. Depois de sete semanas, o estudo revelou que os plasmas de quatro dos cinco animais apresentaram de 20 a 100 vezes mais anticorpos neutralizantes contra o novo vírus do que o plasma de pessoas que tiveram a doença, chamado de “plasma de convalescente”.

Após a testagem em humanos, quais os próximos passos?

Estamos em fase pré-clínica. Nosso soro anticovid-19 já passou por testes in vitro, ou seja, em laboratório, que comprovaram que o medicamento bloqueou a ação do vírus. Quando houver a liberação da Anvisa, entraremos na fase clínica (fases 1 e 2 da pesquisa). Ao chegar nessa etapa, o estudo em humanos terá como estratégia avaliar a eficácia e a segurança do tratamento, considerando tempo de internação, reações adversas, curva de redução de infecção pelo vírus, número de pacientes que necessitarão de entubação, índice de mortalidade e outros aspectos.

 
Paralelo a isso o IVB continuou com outros projetos?


Sim, temos outros projetos que são bastante importantes. O Instituto é uma empresa de ciência e tecnologia do Governo do Estado do Rio de Janeiro e nosso intuito é viabilizar melhorias na saúde, nosso trabalho visa esse objetivo. Por exemplo, além do soro anticovid-19, em 2020, a instituição recebeu seis lhamas que farão parte do desenvolvimento de uma nova linha de estudo a partir do plasma desses animais, com o objetivo de replicar anticorpos em laboratório, algo que já vem sendo estudado em diversos países. Realizamos, ainda, uma pesquisa voltada para o processo de destoxificação total ou parcial de venenos de animais peçonhentos por alta pressão hidrostática para uso na produção de soros hiperimunes. Existem outros projetos em andamento, inclusive relacionados à Covid-19, mas como alguns estão em etapa de sigilo, ainda não podemos falar a respeito.
 
Como estudiosa, qual mensagem a senhora dá para a população em relação à Covid-19?

Sabemos como é difícil mudar completamente a vida por causa de uma doença tão grave. Nesse momento, é a assertividade da ciência e a consciência da responsabilidade, do papel de cada um, que vai fazer diferença para a mudança dessa situação. Portanto, é importante seguir todas as recomendações com as quais já estamos acostumados: higiene das mãos, uso correto de máscaras, distanciamento social, fazer uso das vacinas disponíveis e deixar que a ciência cumpra seu papel para o fim dessa pandemia.

Raquel Morais

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