Estaleiro onde dique afundou é conhecido pelas más condições de trabalho há anos

Denúncias contra a empresa Renave vão desde a falta de manutenção nos equipamentos até a assédio moral

Péssimas condições de trabalho, insalubridade, falta de manutenção, assédio moral e dinheiro como “cala a boca”. Essas são algumas das denúncias a respeito do trabalho realizado no estaleiro Renave, localizado no Barreto, na Zona Norte de Niterói. A morte de dois funcionários após o afundamento de um dique já era encarada como algo previsto para acontecer.

A reportagem conversou com exclusividade com um ex-funcionário que pediu para não ter o nome publicado. Ele realizou serviços para o Renave por oito meses, saindo no início de julho deste ano pelo fato do contrato intermitente de trabalho ter sido encerrado. Segundo o profissional, o estaleiro é “o pior lugar para se trabalhar do Rio de Janeiro”.

Citando uma série de acidentes, ele explica que a fatalidade era, literalmente, tragédia anunciada.

“As condições de trabalho no Renave eram as piores. Toda hora tinha um problema, andaime solto, trabalho sobreposto, tinha que fazer solda e cortar maçarico ao mesmo tempo, e uma série de outros problemas. A construção do dique era às escuras, literalmente. Não tinha nenhuma iluminação para quem trabalhava nessa obra. Tínhamos que ficar pegando as peças para a montagem e toda hora acontecia algo, como gente se trombando, batendo a cabeça em algum ferro, pegando o equipamento errado e fazendo a montagem tendo que adivinhar o encaixe”, denunciou o ex-funcionário, salientando que todos esses problemas vinham acontecendo em sequência.

Em uma página no Facebook, outros relatos afirmam que o estaleiro sempre teve problemas com relação à segurança dos trabalhadores.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Niterói e Itaboraí, Edson Rocha afirmou que já existiam diversas denúncias contra o Estaleiro Renave, e salientou que outras empresas do ramo foram denunciadas por más condições de trabalho. Ele explicou quais serão as medidas tomadas pela entidade para investigar o acidente fatal.

“Já estamos em contato com a empresa para saber tudo o que aconteceu, além de já estarmos conversando com os familiares das vítimas. Colocamos todo o sindicato à disposição deles para ajudar em tudo o que for possível. Além disso, esperamos que o estaleiro colabore conosco sendo transparente, atendendo nossas reinvindicações na investigação dessa tragédia”, explicou Rocha.

O presidente do sindicato também explicou que a investigação não visa apenas saber em que condições aconteceu o acidente, mas quais são as atuais condiões de trabalho, como se encontra a manutenção dos equipamentos e saber se os equipamentos de proteção individual (EPIs) são usados e se encontram nas condições adequadas de acordo com as normais de segurança do trabalho do setor naval.

Problemas já eram antigos

Um outro item que ele denuncia é sobre uma situação onde um outro empregado sofreu um acidente durante o trabalho. De acordo com a denúncia, o acidentado ficou “de molho” em casa por 15 dias. Mas como também estava no mesmo regime de contrato intermitente, recebeu um valor como “cala a boca” para não denunciar a situação ao sindicato da categoria. Além disso, segundo a denúncia, a empresa cometia assédio moral com o intuito de impedir qualquer ação que poderia ser vista pelo estaleiro como prejudicial aos responsáveis.

Em 2010, uma situação mais grave aconteceu. Em 3 de agosto, um navio com a bandeira das Bahamas “Auk Arrow” estava passando por consertos quando uma explosão aconteceu na embarcação. O acidente matou três operários e feriu outros cinco.

Mas o episódio não foi o primeiro do tipo a acontecer. Nos anos 90, uma explosão matou o funcionário Sebastião Carlos da Silva. O jornal A Tribuna conversou com a filha do operário, Valéria Lopes. Ela recorda que a situação deixou a vida dela um “caos”.

“Lembro que quando estava chegando em casa um vizinho me deu a notícia. O rosto do meu pai saiu até no Jornal Nacional. O que soubemos foi que teve uma explosão no navio em que ele trabalhava. Pelo que soube, meu pai se apavorou junto com outros e, ao invés de subir, acabou descendo pela embarcação. Alguns amigos de trabalho disseram que os pulmões dele explodiram por causa da fumaça estar muito forte. Minha vida virou um caos e até hoje, me faz muita falta”, desabafa Valéria, que acrescenta que a mãe até hoje não gosta de falar sobre a tragédia.

A reportagem entrou em contato com o estaleiro Renave para saber quais foram as causas do acidente e um posicionamento em relação às denúncias, mas a empresa não respondeu aos questionamentos.

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