Estádio Caio Martins: dos dias de glória à deterioração

Vítor d’Avila

Um elefante branco em pleno bairro de Icaraí, na Zona Sul de Niterói. Esta é a atual situação do Complexo Esportivo Caio Martins, um dos principais aparelhos esportivos da cidade. Tendo vivido dias de glória em um passado não tão distante, o espaço convive com a precarização de sua estrutura, o que foi agravado pela pandemia do novo coronavírus.

A parte do estádio, sob concessão do Botafogo até 2023 (sem perspectiva para renovação), segue subutilizada, restrita a treinamentos no campo para as categorias de base do clube. O Canto do Rio Foot-Ball Club, único time de futebol profissional da cidade e que anunciou na última semana a volta às competições, ainda sonha em mandar jogos no espaço. Mas seus dirigentes sabem que a missão é difícil, diante da necessidade de readequações para que os alvarás necessários possam ser obtidos.

O que permanece intactas são as memórias daqueles que viveram os melhores momentos de suas carreiras no antigo Caio Martins, além da expectativa, de quem pratica outras modalidades esportivas, em ter o equipamento à disposição para treinamentos e formar novos atletas. A promessa de reformas, por parte da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj), responsável pelo local, existe, mas sem uma data estipulada.

Dias de glória

O auge do Caio Martins se confunde com o momento de maior sucesso do Botafogo na era pós-garrincha. Os títulos da Copa Conmebol em 1993 e do Campeonato Brasileiro de 1995 foram conquistados enquanto o clube mandava jogos no estádio niteroiense. Essa época também foi o ápice da carreira do goleiro Wagner, ídolo alvinegro que, após chegar ao time da estrela solitária, adotou Niterói como seu lar.

“Todo meu tempo de Botafogo foi no Caio Martins. Cheguei durante a Copa Conmebol, peguei as semis e a final, e fiquei até 2002. Eu morava em Bonsucesso e achava o translado distante, queria uma poossibilidade de vir para Niterói, e consegui morar praticamente ao lado do estádio. Agora não tenho pretensão de sair do Niterói”, recordou Wagner que, até hoje, mora na cidade, onde mantém um restaurante no Mercado São Pedro.

Perguntado sobre qual seu momento mais marcante no estádio, Wagner não tem dúvidas ao responder: foi sua estreia, em 1993, em jogo contra o Internacional, de Porto Alegre. O ex-goleiro conta que, na época, ele ainda estava sendo testado pela comissão técnica do clube para saber se iria assinar um vínculo definitivo.

“O melhor momento foi a minha estreia ali dentro. Nós vencemos a Conmebol, o Wilian Bacana era o titular e ele também jogava o Brasileiro. Depois da Conmebol, o Botafogo decidiu me testar e fiz meu primeiro jogo no Caio Martins contra o Inter e ganhamos por 1×0. Fiz mais três jogos para consolidar minha contratação em definitivo. Esse jogo eu não esqueço”, relembrou o ídolo botafoguense.

Era alvinnegra perto do fim

Após décadas sob administração do Botafogo, o contrato atual de concessão, que segundo a Suderj termina em janeiro de 2023, não será renovado. É o que garante o atual presidente do clube, Durcesio Mello. Segundo ele, tanto o Estado quanto o Botafogo não tem interesse em prorrogar o vínculo.

“Renovar não tem condições, o Estado não quer. Então vai vencer em 2023, se não me engano. Quando terminar, vamos devolver porque o Estado quer e pretendo ter o Centro de Treinamentos do clube pronto até lá”, enfatiza o presidente.

Ainda de acordo com Durcesio, apenas as categorias de base botafoguenses permanecem treinando no local, fazendo uso apenas do gramado. O presidente do clube confirma que as demais instalações estão precárias, mas admite ainda não saber se a manutenção é de obrigatoriedade da Suderj ou do Botafogo.

“A base está treinando lá. A gente não está usando as instalações, só o campo. Não estamos alojando ninguém e eu não estou por dento de nada relativo a pendências. Até vou verificar isso. A gente só está usando para treinar no campo, o resto está muito deteriorado. Os atletas comem em cozinha fora ´do estádio], em um lugar que a gente tem parceria”, explicou.

Um sonho distante

Enquanto o Botafogo quer sair, o Canto do Rio ainda sonha em mandar seus jogos no Caio Martins. Na última semana, o clube anunciou novo retorno ao futebol profissional e irá jogar a Série C do Campeonato Carioca. Entretanto, o time irá mandar seus jogos no Estádio Municipal Alziro de Almeida, em Itaboraí, distante 36km da sede do clube, no Centro de Niterói, enquanto o complexo niteroiense fica a apenas 2km.

“Hoje o estádio que a gente escolheu para mandar os jogos é o Alzirão, em Itaboraí. A Prefeitura de lá foi muito cordial, sendo solidária com o que passamos aqui e nos abriu as portas lá. A cidade de Itaboraí abraçou o Canto do Rio, mas nosso sonho sempre foi o Caio Martins”, explicou Raphael Soriano, diretor executivo de futebol do Canto do Rio.

Segundo Soriano, o projeto Caio Martins será posto em prática somente após a recuperação do espaço de treinamentos do “Cantusca”, no Clube Mauá, em São Gonçalo, que ficou deteriorado após receber o hospital de campanha para tratamento da Covid-19. O diretor acredita em uma parceria com a Prefeitura de Niterói para que o time volte a jogar no estádio futuramente.

“Já que o Canto do Rio é o único time de Niterói, talvez a gente consiga viabilizar isso. Houve uma conversa, antes da eleição, com o hoje prefeito Axel Grael e o atual secretário [Luiz Carlos] Gallo. O que acontece hoje é que o Botafogo ainda tem o contrato vigente, então a gente não pode atropelar e temos que respeitar esses prazos”, ponderou.

Soriano conclui afirmando não acreditar que o time mande jogos lá ainda em 2021. Um dos dificultadores é a falta de alvarás, expedidos pelo Corpo de Bombeiros, diante da precariedade do complexo.

“O grande problema hoje de mandar os jogos lá são as certidões e liberações que a federação exige. O Caio Martins, para ter mando de campo hoje, precisa cumprir várias exigências e não teria tempo hábil para 2021. Mas é um grande sonho nosso”, completou.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, “o Complexo Esportivo Caio Martins não posui Certificado de Aprovação expedido pelo Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ). A edificação possui um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em andamento. Eventos de reunião de público no local não estão autorizados pela corporação por descumprimento do TAC. O responsável legal já foi notificado”.

Muito além do futebol

O Caio Martins também se notabilizou por ser um espaço para atletas de diferentes modalidades. De acordo com o professor de polo aquático Diogo Cairo, a piscina do complexo é a única na cidade adequada para a prática. No local, ele esteve à frente de um projeto social de aulas gratuitas, que atualmente está paralisado.

“Era um projeto com sua estrutura funcional voluntária e gratuito para os alunos, que eram de muitas comunidades do entorno do Caio Martins. Todas as pessoas que davam aulas eram atletas, que tiveram algum histórico em times de alto rendimento. Era a única piscina que comportava a modalidade, então ou é lá ou não é em lugar nenhum, porque tem a profundidade e dimensões específicas. Era muito importante sua manutenção”, explicou.

A Suderj afirma que o espaço está seguindo o decreto do Governo do Estado de manter as restrições devido à pandemia da Covid-19 e que o Parque Aquático continua recebendo manutenção ativa e preventiva e, mesmo com as atividades suspensas, as instalações estão sendo mantidas em perfeitas condições de utilização. Diogo contesta essa versão, afirmando que a manutenção insuficiente do local era problema corriqueiro.

“Diversas vezes a gente teve problema, interrupções no projeto por problemas da [falta de] manutenção na piscina, estrutura, troca de administração. A gente teve um problema de continuidade. Antes da pandemia já tínhamos dado uma parada porque teve um problema com a piscina e, logo depois, veio a pandemia e, de lá para cá, o projeto parou completamente. Nossa expectativa é que, assim que melhorar, a gente possa retomar as atividades, conversando com o administrador”, complementou o professor.

O Estado conclui seu posicionamento afirmando que, “em relação ao Ginásio Caio Martins, a Suderj, junto ao Governo do Estado e a Secretaria Especial do Esporte, órgão do Governo Federal, vem estabelecendo parceria para que seja feita uma reforma e adequação, para possibilitar a realização de grandes eventos esportivos”. No entanto, não foi estabelecido prazo para que isso aconteça.

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