Entrevista: Rodrigo Oliveira, Secretário de Saúde de Niterói

No momento em que a sociedade mais precisa de respostas, diante da persistência da pandemia do novo coronavírus, A Tribuna entrevistou, com exclusividade, o Secretário Municipal de Saúde de Niterói, Rodrigo Oliveira. Muito embora a pandemia seja o maior desafio de todos nós, a saúde pública é muito mais ampla.

Na entrevista, Rodrigo Oliveira fez questão de enaltecer o trabalho dos servidores da saúde de Niterói, agradecendo, ainda, a cooperação da população de Niterói. Comentou sobre as recentes manifestações ocorridas na cidade. E também teceu críticas ao governo federal.

1 – A TRIBUNA: Como está sendo ser secretário de saúde em um ano de pandemia? Conciliar as funções de secretário de saúde para com a população auxiliando nos atendimentos básicos e fora isso, dar suporte para o atendimento da Covid-19.

RODRIGO OLIVEIRA: A função de secretário de saúde é cuidar da saúde de um determinado município porque ele é a autoridade sanitária. Nesse sentido, eu entendo que ser secretário de saúde geral e ser secretário da Covid são funções com interseção grande. Porque, cuidar da saúde, é fazer as ações necessárias para dar conta do que, hoje, é o maior problema de saúde do mundo. Por outro lado, é fundamental que a gente consiga garantir que essa resposta à Covid não inviabilize os demais cuidados necessários para a saúde do nosso povo.

Nesse sentido eu tenho contado muito com a qualidade dos servidores da secretaria de saúde e da Fundação Municipal de Saúde de Niterói e também nos organizamos e nos esforçamos para garantir, paralelo às ações de combate à Covid, que são prioridades na agenda de trabalho, construir um conjunto de processos que garantam as outras necessidades em relação a saúde. Um exemplo: paralelo a todos os atendimentos da Covid, seguimos nas urgências e emergências atendendo a pacientes não Covid.

Nossa atenção básica, embora tenha papel central no rastreamento da Covid, também garante atendimento a gestante com pré-natal e pacientes crônicos. Mais que isso, como estamos no primeiro ano de governo, temos como obrigação legal, organizar o que chamamos de Plano Municipal de Saúde, que é quadrienal. Graças à qualidade da nossa equipe e também ao Conselho Municipal de Saúde organizamos um processo de construção participativa. Até o final de abril, apresentaremos ao Conselho Municipal de Saúde esse documento que aborda a complexidade do tema da saúde na cidade. E organiza um cenário de futuro. Mais de 5 mil pessoas participaram do processo. Tivemos mais de 2.300 propostas de ações para o Plano, realizamos tudo respeitando os protocolos, então foi tudo online. Mas o recado, em geral, é esse, a gente tem conseguido manter as respostas para enfrentamento da Covid junto com a obrigação geral da autoridade sanitária.

2 – A TRIBUNA: O senhor fala sobre o Plano Municipal de Saúde, que está sendo elaborado visando os quatro anos de governo. Estariam contempladas, dentro desse plano, questões como a ampliação da rede, a ampliação do “Médico de Família” para comunidades que ainda não são atendidas, ampliação do corpo clínico (médicos, técnicos, enfermeiros…), levando em consideração essa demanda altíssima que estamos tendo na saúde e que vamos ter em relação às sequelas que a Covid pode deixar?

RO: Esse Plano está em processo de construção. Pegamos o conjunto de propostas, identificamos a necessidade de trabalhar alguns temas importantes como a modernização e qualificação da rede hospitalar, a questão de doenças mais comuns como o infarto, câncer e AVC. Outra coisa que precisa da nossa atenção é a qualificação do programa “Médico de “Família”, pois agora tem aparecido bastante a questão do pós Covid com sequelas. Então precisamos organizar na rede de saúde de Niterói, dispositivos que sejam capazes de atender essas demandas.

Hoje, nesse processo, de participação, eu não consigo precisar qual vai ser o plano, porque ele ainda está sendo construído. Apareceram essas agendas citadas, e uma necessidade de um processo de organização. Niterói é um município com maior percentual de pessoas acima de 60 anos e isso demanda a necessidade de qualificar uma rede que garanta o processo de envelhecimento saudável para essas pessoas.

3 – A TRIBUNA: Nesse momento de pandemia, muitos pacientes crônicos, como diabéticos, pacientes renais, cardiopatas, e precisam de um acompanhamento médico constante. Muitos acabaram ficando em casa, com medo da contaminação. Como está sendo conciliar o atendimento dessas pessoas, com o atendimento das pessoas que buscam a rede para tratamento da Covid-19?

RO: Nós acompanhamos essa situação. Todas as questões relacionadas aos hospitais privados, inclusive o abastecimento de insumos e sua capacidade de atendimento em relação a Covid. Sobre o atendimento dos pacientes crônicos, Niterói tem uma vantagem, que é um sistema de saúde histórico: o programa “Médico de Família” possibilita, pela sua constância e pela relação que ele tem com o território, um acompanhamento das pessoas mais vulneráveis. A gente percebeu, por exemplo, que, as questões que envolvem o transtorno mental, tiveram um aumento, assim como o consumo de bebidas alcoólicas. Porque as pessoas ficaram mais em casa, e o “Médico de Família” tem ajudado nisso, em contato telefônico ou visita domiciliar.

4- A TRIBUNA: Sobre o atendimento a gestante, em paralelo a Covid, ele funciona de forma normal…

RO: Dentro dos protocolos para garantir segurança à gestante. Elas têm consulta e exames pre natal garantidos, têm também assistência ao parto e ao puerpério.

5- A TRIBUNA: Se houvesse uma política pública única de enfrentamento a Covid, baseada na ciência, o reflexo nos municípios seria diferente?

RO: Eu acredito que não é atoa que o Brasil seja responsável, diariamente, por 1/3 das mortes que acontecem no mundo. Isso não é um fenômeno natural. Isso foi produzido por uma incapacidade de coordenação federal. Sejam os sinais errados que o presidente dá, seja a dificuldade do Ministério da Saúde de coordenar processo de ampliação de leitos, gerir informação, coordenar e garantir as medidas restritivas necessárias…porque é isso. Niterói não é uma ilha. O impacto seria muito menor se tivéssemos um processo coordenado.

No caso do Brasil, é mais dramático o caso, tendo em vista a complexidade e o tamanho do território e o conjunto de desigualdades que existem. Saúde é uma responsabilidade compartilhada, onde cada ente federativo tem uma responsabilidade específica, e a responsabilidade de coordenação nacional das ações é do ministério da saúde e eles tem apresentado dificuldades para assumir esse papel. Posso dar como exemplo o atraso das vacinas, os kits de intubação, que estão faltando. Posso citar também as medidas de restrição. Posso falar dos protocolos clínicos, posso falar principalmente da difusão de questões não vinculadas a ciência de medicamentos que já foi provado que não são eficazes. Os fatos são fartos para afirmamos, com tranquilidade, que se tivesse coordenação federal, o Brasil teria resultado melhor.

6 -A TRIBUNA: As opiniões manifestadas pelo presidente da república, tem influenciado o comportamento das pessoas em relação a não seguir os protocolos?

RO: Eu acho que o Brasil enfrentou uma dificuldade desde o início que é uma descoordenação das autoridades em geral sobre o que deveria ser feito para o combate a Covid.

A população de Niterói tem ajudado a prefeitura no enfrentamento da doença. É claro que estamos em uma democracia e não há pensamento único em relação a isso. Sobre os manifestantes, eu acho que há pessoas que, de fato, estão muito preocupadas com seu emprego, sua renda, mas que não são  negacionistas. Tem gente que tenta politizar isso para produzir um processo, na minha avaliação, de apoio ao presidente da república, ou de oposição ao município. Mas é um diálogo intenso que estamos tendo com os setores para explicar as razões e tentar organizar um processo. Niterói é uma das poucas cidades do Brasil que tem uma carteira importante de programas de apoio as empresas, segurança alimentar do povo, financiamento a essas empresas, e manutenção desses empregos. O que precisa ficar claro, é que respeitamos todo tipo de manifestação. Mas a prefeitura de Niterói vai continuar seguindo a ciência e tomando as medidas necessárias para salvar vidas.

7 – A TRIBUNA: Hoje a preocupação nacional é a falta dos medicamentos do chamado “kit intubação”, que são os insumos necessários para a realização do processo de intubação. E também há falta de oxigênio, que passou a ser mais usado em razão da ocupação desses leitos de UTI. Como está essa situação em Niterói? Existe a capacidade de atendimento a população?

RO: No estado do Rio de Janeiro, no momento, não temos relato ainda da falta de oxigênio. Em Niterói a gente monitora isso cotidianamente e estamos acompanhando um cenário de segurança em relação a esse abastecimento.

Sobre os insumos para intubação, como sedativos, neurobloqueadores, relaxantes musculares… nós temos uma crise generalizada. Mas não dá pra falar que é uma surpresa. Desde julho do ano passado, esse setor já dava sinais de que teria problemas. Tinha tempo suficiente para se preparar. Existem meios de acelerar o processo de importação, para que essa situação fosse resolvida ou minimizada. Niterói está em situação melhor que os demais, pois se planejou  para isso. Porém, é um recurso que está escasso e a gente acompanha o seu abastecimento e o estoque desses medicamentos diariamente. Até agora, ao contrário do que foi relatado em outras cidades, Niterói não teve crise a ponto de paciente acordar. Mas é um cenário de escassez real, tanto no hospital público quanto no privado, já que os fornecedores são os mesmos.

8 – A TRIBUNA: A redução dos casos, que está permitindo a flexibilização das atividades econômicas, já é um indicador que esse período mais tenso, que vamos passar nos próximos dias, dependendo da chegada desses insumos, pode haver um controle. Mas, voltando a ter algum agravamento dos índices, com a reabertura das atividades econômicas, há algum risco para o município de que esses insumos faltem aqui?

RO: Niterói está completando três semanas de importantes restrições antes desse período. A gente já começou um processo de comunicação com a população de reduzir a circulação das pessoas nas ruas porque a gente já identificava a variante P1 presente no aumento expressivo dos casos na cidade, mas principalmente, identificamos um aumento expressivo no número de casos que demandam internação. Na última semana, depois dessa tendência de aumento, identificamos que, o número de pessoas que precisa de internação em UTI, diminuiu de forma expressiva. É isso que, hoje, permite a redução do indicador síntese, e é também o que permite o processo de flexibilização. 

Na segunda-feira (19) voltamos para o indicador Laranja. Esse equilíbrio ainda é tenso, porque o país ainda está em situação muito difícil com 25 dos 27 estados brasileiros, em situação de colapso. É uma situação de escassez nacional de um insumo estratégico para garantir a vida. Niterói iniciou um processo de diminuição na taxa de internados na rede pública e privada, porque fizemos o dever de casa. Em todos os momentos necessários, Niterói agiu e contou com a população para que o processo necessário fosse realizado.

9 – O senhor fala que nós vivemos um momento em que o equilíbrio é tenso por conta dessa falta de insumos. Ao mesmo tempo que isso ocorre, há uma recomendação do MP para que Niterói destine leitos de UTI para a regulação pelo estado. Qual avaliação o senhor faz disso?

R: Eu tenho tido a oportunidade de conversar com o MP e com as promotoras que cuidam da área da saúde aqui na região e queria elogiar o trabalho delas. O diálogo e o apoio tem sido bom de ambas as partes. Niterói disponibilizou quase 30 leitos regulados pela secretaria de estado. Estamos na região metropolitana e, especificamente, Niterói, tem um fluxo de pessoas muito grande, e agente já atende um conjunto de pessoas de outros municípios. Segundo o Sindhileste. 30% das internações na rede particular, são pessoas de outros municípios. No público, são mais de 20%.

Na nossa avaliação não há necessidade de colocar todos os leitos, porque já temos cumprido o nosso papel.

10 – A TRIBUNA: Como o calendário de vacinação precisou ser interrompido, hoje no retorno, os idosos se aglomeraram em uma enorme fila no Clube Central, em Icaraí, com medo da vacina acabar e o calendário ser suspenso novamente. Não seria o caso de haver separação dos locais da vacinação para idosos e profissionais da saúde?

RO: O problema central da vacina é a falta dela. E esse problema tem nome, sobrenome e responsável. Sobre o processo de vacinação, Niterói tem uma larga experiência e a população adere bem ao processo. Em breve, vamos ampliar os postos. Sobre a separação, não acho que seja o caso. A ampliação é uma melhor solução. Lembrando que vamos iniciar também a vacinação de influenza, e eu vou precisar colocar outros postos. Porque não vamos misturar as vacinas nos mesmos postos, para evitar erros e desinformação.

11 – A TRIBUNA: Há uma série de boatos circulando na internet questionando a qualidade dos respiradores adquiridos pela prefeitura de Niterói recentemente. São os mesmos modelos adquiridos ano passado para o Hospital Oceânico? Eles são adequados para o uso em UTI? Qual o grau de eficiência deles?


RO: Todos os respiradores atendem às necessidades emergenciais de terapia ventilatória mecânica invasiva e não invasiva, no enfrentamento de pacientes críticos, considerando o momento emergencial por conta da pandemia, a baixa disponibilidade desses produtos no mercado e também considerando as recomendações de abordagem da Covid-19 da Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib).
Os respiradores estão sendo utilizados nas urgências e hospitais municipais e têm contribuído para salvar milhares de vidas.

12 – A TRIBUNA: Quando o secretário acredita que haverá redução dos índices da Covid-19 em razão da imunização e a previsão do cenário para os próximos meses?
RO: A redução nos índices de Covid-19 está diretamente ligada à vacinação em massa da população. Apenas quando tivermos um amplo programa de imunização será possível superar a pandemia. Por isso, a Prefeitura de Niterói assinou, em dezembro, um memorando para a compra, com recursos próprios, de 1,1 milhão de doses da vacina CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan. O Ministério da Saúde, no entanto, adquiriu todas as doses produzidas pelo Butantan, que estão sendo distribuídas para todos os estados brasileiros. No mês passado, demos início ao processo para a importar 800 mil doses da vacina russa Sputnik V e imunizar nossa população.

Desde o início da pandemia, Niterói atuou com base na ciência e nas melhores experiências internacionais nessa batalha pela vida contra o coronavírus. Colocamos em prática um programa integrado de ações sanitárias, retaguarda hospitalar, apoio com renda básica às famílias mais pobres e crédito e apoio direto às pequenas empresas. Nós não estamos medindo esforços para vencer essa guerra contra a Covid-19. Temos tomado todas as providências de prevenção e combate à pandemia, mas a nossa maior arma é mesmo a vacina.

13 – A TRIBUNA: Qual a média da faixa etária internada hoje por Covid-19?

RO: No início da pandemia, a maior parte dos casos se concentrava em pessoas acima de 60 anos e a maior parte dos óbitos em idosos acima dos 80 anos.
Mais recentemente, tivemos um aumento importante dos casos na faixa etária de 30 a 39 anos. Também cresceu o registro de casos de pessoas entre 20 e 29 anos e entre 40 e 49 anos. Esses casos são um forte indício da circulação da variante P.1 – que foi primeiramente identificada no Estado do Amazonas – em Niterói. Estudos mostram que a variante P.1 é mais transmissível e pode estar associada ao aumento dos casos em pessoas com mais de 20 anos.

14 – A TRIBUNA: Quantas pessoas já foram salvas em Niterói?
RO: Com certeza, milhares de vidas. Apenas no Hospital Municipal Oceânico que completou, no último sábado (10), um ano de funcionamento, foram registradas mais de 1.350 altas. O Oceânico foi o primeiro hospital dedicado exclusivamente para o combate à Covid-19 do Estado e possui leitos com respiradores e toda estrutura para o atendimento de pacientes graves. Também temos atendimento intensivo no Hospital Municipal Carlos Tortelly, que possui leitos exclusivos para pacientes com Covid-19. As policlínicas do Largo da Batalha e da Engenhoca e a Unidade de Urgência Mário Monteiro, em Piratininga, também são referência no tratamento da Covid-19 e atenderam milhares de pacientes.
Niterói também conta com as Policlínicas, Unidades Básicas de Saúde e os módulos do Programa Médico de Família, onde os pacientes podem ser testados para Covid-19, acompanhado pela equipe médica e encaminhado para as unidades de referência em casos graves.

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