Entrevista: Axel Grael detalha projeto para despoluição da Lagoa de Piratininga

Marcelo Macedo Soares –

Quando se ouve o nome Grael, as primeiras palavras que nos vem à mente são mar e medalhas. Irmão dos medalhistas olímpicos Torben e Lars, e tio da também campeã Martine, Axel Grael decidiu navegar nas raias da gestão pública. Engenheiro ambiental e militante do meio-ambiente, já foi presidente da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema) e propôs a criação do Instituto Estadual do Ambiente (Inea). Desde 2013 faz parte da gestão do prefeito Rodrigo Neves e atualmente é secretário municipal de Planejamento, Modernização da Gestão e Controle. Em visita à redação de A TRIBUNA, Axel falou detalhadamente sobre a recuperação da Lagoa de Piratininga, que faz parte do programa Região Oceânica Sustentável – idealizado por ele – e que tem a criação do Parque Orla de Piratininga (POP) como principal iniciativa, que será apresentado no próximo dia 21, dentro das comemorações do aniversário da cidade. Outro presente para a população, que também teve a participação direta de Axel, é o Parque Esportivo do Caramujo, que será entregue ainda este mês.

O projeto Parque Orla Piratininga (POP) será apresentado pelo prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, no próximo dia 21. Serão cerca de 10 quilômetros de sistema cicloviário ao longo de toda a orla da Lagoa, quatro píeres de contemplação e seis píeres de pesca, três mirantes e 17 áreas de lazer, sendo três delas com quadra de esporte, além de brinquedos e academia de ginástica. A iniciativa contempla, ainda, a recomposição vegetal da orla da Lagoa, abrangendo uma área de mais de 150 mil metros quadrados.

Um dos grandes diferenciais do POP será a implantação de um sistema de gestão de águas pluviais composto por bacias de sedimentação, jardins filtrantes, jardins de chuva e biovaletas para a captação e tratamento das águas provenientes dos rios e da rede de drenagem das principais bacias contribuintes à Lagoa de Piratininga, contribuindo diretamente para sua despoluição. Para isso, Axel explica que estão sendo sendo implementadas soluções baseadas na natureza. Além disso, a conscientização da população também é fundamental.

“Um dos grandes problemas da Lagoa é a quantidade de nutrientes e sedimentos que chegam nela. Além disso, a falta de saneamento durante décadas também contribuiu para o problema. Num processo natural, esse material foi decantando no fundo da lagoa. O primeiro passo já foi dado, que é o Programa Ligado na Rede, onde estamos indo de lote em lote notificando os proprietários dos imóveis a fazer a conexão da casa ou da loja na rede de esgoto, pois muita gente acaba ligando na rede de águas pluviais. Isso vai evitar a chegada de muito esgoto na Lagoa. Mas mesmo que você consiga que todo mundo se conecte, você ainda continua tendo muitos poluentes que vai para a Lagoa. Esses equipamentos do POP reproduzem o ambiente natural como se eles fossem um brejo na beira da lagoa. A água dos rios e da drenagem das ruas, antes de chegar na Lagoa, passam por esta vegetação, que tem uma capacidade grande de retenção de sedimentos, e a água vai sendo filtrada e chega na lagoa bem mais limpa. Você estanca o processo de eutrofização (excesso de matéria orgânica), que causa todo o desequilíbrio que temos lá”, explicou.

Para a limpeza do fundo da Lagoa de Piratininga, Axel diz que a Prefeitura está estudando soluções experimentais, baseadas no próprio ecossistema, para que se tenha o resultado esperado.

“A solução tradicional seria a dragagem, mas se isso for feito, onde será colocado esse material? A dragagem é altamente impactante, mesmo que você use as técnicas mais modernas, ela acaba revirando todo o fundo, e o lodo que está no fundo acaba indo para o espelho d´água. O lodo é matéria orgânica, que é alimento para as bactérias. As bactérias consomem muito oxigênio, e a medida em que você disponibiliza muitos nutrientes, elas se reproduzem mais rapidamente, consomem o oxigênio da água, que acaba faltando para os peixes. Então precisamos buscar uma solução que não crie essa reviravolta no fundo. Vamos usar técnica de micro-oxigenação, que vai aos poucos jogando oxigênio no fundo, criando ambiente para as próprias bactérias comerem esse lodo. É um processo lento, mas efetivo. Todas as soluções que estamos buscando são baseadas na Natureza. Estamos criando meios de fazer uma gestão mais eficiente no sistema lagunar da Região Oceânica. Acredito que entre cinco e seis anos com certeza já vamos começar a perceber uma reação do ecossistema”, afirma Axel.

A sede do parque será no Iate Clube Piratininga, terá um centro de visitantes, restaurante, espaços para realização de atividades relacionadas à Lagoa. O projeto conta com 10 quilômetros de ciclovia, jardins filtrantes, píeres de contemplação e pesca, mirantes, áreas de lazer e esporte. O acesso ao Parque será favorecido para pedestres e ciclistas, prevendo baixo fluxo de carros. Cerca de cinco minutos de caminhada vão separar os pontos da TransOceânica às principais entradas do POP. A cada, no máximo, 15 minutos de caminhada, os visitantes encontrarão pontos de informações, lazer e contemplação.

“A criação do Parque vai possibilitar restabelecer novo equilíbrio ecológico no entorno da Lagoa, manter e fomentar a atividade pesqueira na região, a abertura de espaços multifuncionais com equipamentos de lazer para a população; áreas de contemplação e de aproximação da população com a Lagoa de Piratininga, sua fauna e flora; além de intensificarmos questões voltadas para a educação ambiental, ecoturismo e gestão de resíduos sólidos”, reforça Grael.

Caramujo

Ainda em comemoração ao aniversário da cidade, os moradores do Caramujo, na Zona Norte, terão muito o que comemorar. O Parque Esportivo será entregue nos próximos dias, e vaio contar com um campo de futebol com dimensões oficiais (o primeiro público da cidade), ginásio poliesportivo, pista de atletismo, pista de salto triplo e a distância, trilhas e uma pista de downhill para praticantes de moutain bike. A bem sucedida experiência social do Projeto Grael, por onde já passaram mais de 18 mil jovens ao longo de 21 anos, mostra que o novo complexo vai muito além do esporte.

“Esse lugar era um lugar com presença grande da criminalidade no local, para fazer a obra não foi fácil. Este projeto faz parte de uma iniciativa de transformação desta região, que já foi uma das áreas que mais preocupou na cidade em termos de violência. O município investiu muito naquele local. Além disso a região passa por processo de drenagem, reflorestamento, urbanização, contenção de encostas. Um trabalho bastante completo. O esporte motiva, o esporte integra, faz com que estes jovens se socializem mais. Temos a experiência disso ao longo dos 21 anos do Projeto Grael, por onde já passaram 18 mil jovens. A gente vê o quanto isso transforma a vida dessa garotada”, comemora.

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