Técnica de enfermagem suspeita de não aplicar vacina em idoso é indiciada

Vítor d’Avila

A técnica de enfermagem Rosemary Gomes Pita, suspeita de deixar de aplicar a dose da vacina contra a covid-19 em um idoso, no posto drive-thru do Gragoatá, em Niterói, foi demitida pela Prefeitura de Niterói. O desligamento ocorreu após ela ser indiciada, pela 76ª DP (Niterói), por crimes de peculato e infração de medida sanitária preventiva.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Niterói informou que a técnica de enfermagem foi desligada do quadro de funcionários do órgão. A SMS também disse que está à disposição para prestar todos os esclarecimentos e informações que a Polícia Civil solicitar sobre o caso.

“Assim que tomou conhecimento do fato, a SMS identificou a técnica de enfermagem, que foi imediatamente afastada de suas funções. O caso foi denunciado ao Conselho Regional de Enfermagem. A Secretaria reforçou a orientação dos protocolos de aplicação da vacina com os funcionários e supervisores dos pontos de vacinação. A família do idoso foi imediatamente contactada e acolhida. Uma visita foi agendada para o mesmo dia, quando o médico e a enfermeira responsável realizaram a aplicação da vacina na casa do idoso”, diz o comunicado da Prefeitura.

O Município também afirmou que todos os profissionais que participam da ação de imunização no drive thru na UFF e nas seis policlínicas da cidade passam por um treinamento e supervisão constantemente, onde são dadas informações técnicas quanto à vacina e sua aplicação.

Já o Conselho Regional de Enfermagem (Coren-RJ), informou que a profissional terá sua conduta analisada no âmbito do Coren-RJ, com base na lei do exercício profissional e do Código de Ética da Enfermagem, para averiguar se houve ocorrência de negligência, imperícia ou imprudência, e irregular conduta ética. A técnica de enfermagem será convocada, juntamente com a sua coordenação (a enfermeira responsável técnica), a serem ouvidas pela Comissão de Ética do Coren-RJ. O conselho ressalta que à profissional é assegurado o sigilo do processo e seu direito de ampla defesa e do contraditório. A penalidade pode variar de suspensão à cassação do registro profissional.

Indiciamento

Na quarta-feira (17), a distrital ouviu pessoas envolvidas pelo caso, entre eles Rosemary e a coordenadora que trabalhou com ela na Fundação Municipal de Saúde. A delegacia concluiu que não havia motivos para que ela deixasse de pressionar o êmbolo da seringa para que o imunizante fosse aplicado.

“Fortes indícios levam a crer que ela deixou de aplicar a vacina no idoso de forma dolosa com a intenção de usá-la em outra situação. A gente está investigando um caso isolado de uma vacina que foi supostamente desviada. Essa vacina a não teria nenhuma validade, pois como seria armazenada? Se ela tinha intenção de repassar de forma comercial, ainda iria cometer o crime de estelionato porque a vacina perderia a eficácia”, explicou o delegado Luiz Henrique Marques Pereira, titular da 76ª DP.

Em seu depoimento, a profissional não teria conseguido precisar as razões que a levaram a não aplicar a dose. Já os coordenadores dela afirmam que não existe razão técnica plausível para que o fato tenha acontecido. Para o delegado, os fatos não deixam dúvidas de que a não aplicação foi intencional. Ele não descarta que outras doses tenham sido desviadas.

“Pode sim [ter desviado outras doses]. Não tem como excluir isso, é possível sim. Ela ficou dois dias no posto, o que diminui o risco. Ela não conseguiu explicar porque não apertou o êmbolo, que é algo básico. Uma pessoa no juízo normal aplica uma vacina a primeira ação é apertar o embolo. Questionada sobre isso, pelo condutor [do carro, no vídeo], ela responde de forma irônica. Ou seja, ela estava bem tranquila, porque brincou com o idoso e questionada se aplicou a vacina corretamente responde de forma irônica. Estava consciente do que estava fazendo”, pontuou o delegado.

Ainda de acordo com Marques Pereira, o depoimento da coordenadora também foi fundamental para a conclusão rápida da investigação. De acordo com ela, a dose da vacina que deixou de ser aplicada não foi encontrada, o que confirma a suspeita de desvio. “O depoimento da coordenadora de vacinação afirma que a dose não foi encontrada. Ela desapareceu, o que aumenta mais ainda a suspeita. Se não foi aplicado de forma culposa onde esta a vacina?”, questionou o delegado.

O crime de peculato prevê pena de até 12 anos de prisão. Na quarta-feira, ao deixar a delegacia após cerca de 2 horas de depoimento, Rosemary aparentava nervosismo e preferiu não conversar com a imprensa. Ela compareceu sozinha, sem a presença de um advogado. Segundo fontes ligadas à investigação, a técnica de enfermagem trabalha há dez anos nesta função.

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