Empreendedorismo dos que já foram ambulantes

Wellington Serrano

Na busca de renda, ex-ambulantes investem em seu negócio e deixam de circular nas ruas. Nos trechos das ruas Professor Heitor Carrilho, Saldanha Marinho e José Figueiredo, em Niterói, por exemplo, eles estão sempre em seus pontos. Alguns contam como já foi duro o trabalho nos semáforos, mas agora em calçadas, viraram vendedores em trêileres e barracas de lanches, espaços esses em liberação pelo poder público.
Para se ter ideia, a Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) tem 804 ambulantes legalizados, entre diurnos, noturnos e de praias. “A Secretaria Municipal de Ordem Pública (Seop) busca ordenar os espaços públicos de forma sustentável para que a utilização do passeio não fique prejudicada pela atividade de comércio ambulante”.

A Secretaria disse também que, desde 2013, decidiu regularizar e definir os locais de atuação disponíveis para os comerciantes ambulantes. “Atualmente, os ambulantes adquirem licenças através de editais lançados pela Seop, que definem o padrão de barracas e a localização, além dos tipos de produtos que são permitidos a serem comercializados. Além do licenciamento, a Seop fiscaliza o termo das concessões e, frequentemente, adota medidas para facilitar e agilizar as ações fiscais”, disse a Seop.

Segundo o presidente da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), Luiz Vieira, existem vários pedidos de licença, mas a prefeitura não está concedendo porque não existem editais. “Quando abre edital é concedida a licença de acordo com a exigência. No entanto, no momento não consta nenhum, o último foi de alimentos para quem trabalhava à noite”, disse o presidente.

Na última semana, A TRIBUNA percorreu a área central de Niterói, compreendendo parte da Avenida Feliciano Sodré, no trecho do Porto de Niterói, e Heitor Carrilho, até a Avenida Marquês do Paraná, além da Rua Saldanha Marinho. Somados, foram identificados sete ex-ambulantes, somente aqueles que estão em barracas ou trêileres padronizados.

É o caso da ex-caixa de supermercados Norma Silva, de 55 anos. Ela disse que antes de comprar a sua nova barraca por R$ 2 mil, que fica em frente à garagem da Viação Rio Minho, sofria para fazer o ponto. “Há sete anos, todo dia saía de madrugada de Maria Paula trazendo utensílios domésticos, frutas, doces, bebidas, açaí e picolé para meu espaço, que agora conto com uma nova banca de lanches”, comemora ela.

Do outro lado da rua, na esquina com a Rua dos Grafites, como é conhecida a Rua José Figueiredo, o ex-porteiro Marcelo Felipe de Lima também luta pelo seu espaço. Ele disse que o próximo investimento no “Trayller dos Artistas” será a construção de um banheiro. “Estou aqui por necessidade, mas faço o que gosto”, disse ele, que nas sextas-feiras vira o cantor Marcelo Lima, com shows ao vivo para sua clientela no local.

PROPOSTA
Para tentar resolver a questão dos ambulantes que não conseguem licença, o presidente da CDL disse que luta para conseguir construções de mercados populares. “Espero isso, que inclusive foi compromisso público de campanha”, disse Vieira. Segundo ele, uma das propostas dos lojistas é a transformação do Prédio da Caixa, na Avenida Amaral Peixoto, em mercado popular vertical. “É só a prefeitura desapropriar até o quarto andar, quebrar as paredes e criar uma série de quiosques e acomodar melhor essas pessoas que, no fundo, são microempreendedores”, revelou o presidente da CDL.

Vieira disse que a proposta solucionaria o problema da desordem urbana. “É um prédio sem estrutura, que, após reformado pela prefeitura, ficaria sob gestão de uma associação. Os próprios desempregados vão gostar em ter um negócio no Centro da cidade. É assim que funciona em São Paulo, na famosa 25 de março. São vários mercados populares em prédios. Assim fica mais fácil organizar, capacitar os microempreendedores”.
Mesmo sem os alvarás, mas com os documentos cedidos pela prefeitura que comprovam a ocupação comercial nas ruas, as barracas vendem desde água de coco ao famoso X-Tudo.

Ex-ambulante no Rio de Janeiro e em Niterói, Marilza dos Santos de Jesus, de 41 anos, mais conhecida como Baiana, já passou um sufoco pelas ruas até conseguir a sua instabilidade num trêiler ao lado do Clube da Cedae, no Centro. Ela disse que os 10 anos no mesmo ponto já a credenciaram como referência no aracajé. “Meu último emprego foi nas ruas, como ambulante. Sei o que é. Agora prefiro a rotina árdua e pesada na cozinha servindo mesas ao sofrer embaixo de sol vendendo água”, disse Baiana.

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