Elza Soares: Força e resistência além da voz

Eram 15h45min de quinta-feira, dia 20 de janeiro de 2022. Seria a tarde de uma quinta-feira normal, mas foi exatamente a hora em que uma das maiores cantoras do país, e do mundo, fechou os olhos para sempre. Elza Gomes da Conceição, conhecida apenas como Elza Soares, morreu no Rio de Janeiro, aos 91 anos, de causas naturais. Coincidência, ou não, a passagem foi no mesmo dia que seu ex-marido, Mané Garrincha – um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos – também faleceu, em 20 de janeiro de 1983. Mas o legado de força, de resistência, de luta, enfrentamento jamais será esquecido. Elza usou o seu reconhecimento em todo mundo para tratar de assuntos considerados tabus, como o preconceito racial e virou ícone do empoderamento feminino.

Elza Soares nasceu em 23 de junho de 1930, filha de uma lavadeira e de um operário. Nasceu e foi criada na comunidade Água Santa, no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro. Foi obrigada a casar aos 12 anos, perdeu quatro filhos e ficou viúva. Carregou muita lata d’água na cabeça e começou a se destacar cantando osambalanço com “Se Acaso Você Chegasse” em 1959, quando se dedicou ao gênero nos anos 60. Nos 34 discos lançados ela se aproximou do samba, do jazz, da música eletrônica, do hip hop, do funk e muitos gêneros musicais.

Elza Soares e Mané Garrincha foram casados por anos

A partida de Elza foi serena. Parentes e amigos próximos da cantora falaram que ela acordou bem no dia 20, fez a fisioterapia e manteve a sua rotina diária. Mas ao longo da manhã começou a se sentir ofegante e chegou a falar, quando questionada, que achava que estava morrendo. Uma ambulância foi chamada pela família e 40 minutos depois a artista ‘fez sua passagem’.

Sobrinho neto de Elza Soares, o cantor Anderson Leonardo, conhecido como Anderson Molejo, falou com exclusividade para A TRIBUNA sobre as memórias da tia, irmã de sua avó. “Minha tia representou tudo para mim. A minha maior referência. Desde menino achava super diferente a performasse dela. Eu a imitava cantando e tentava fazer o timbre dela. Ela me dava muitos conselhos. Foi e é uma mulher maravilhosa e pioneira cantando samba em uma avenida de carnaval”, contou.

Foi na Acadêmicos do Cubango, em Niterói, que a lenda do samba puxou o samba enredo de 1979: “Afoxé”. A verde e branca lamentou a morte da artista com uma publicação nas redes sociis. “A voz inconfundível da deusa Elza Soares já esteve no nosso carro de som. Temos certeza que hoje descansou uma estrela de talento e personalidade ímpar. Queremos deixar aqui nossos sentimentos para todos os amigos e familiares da Elza Soares, e recordar essa brilhante interpretação de um dos mais famosos sambas da nossa escola. Descanse em paz, Elza”.

Elza Soares fez história na música nacional e internacional

MOVIMENTOS ENALTECEM ELZA SOARES

A coordenadora do projeto África em Nós, formado por jovens negros periféricos da cidade de São Gonçalo, Thayná Alves de 29 anos, salientou a importância de Elza para o enfrentamento do racismo como crime. “A mulher do fim do mundo cantou até o fim. A grandeza da história de Elza, que tem na sua trajetória as marcas do que é o racismo brasileiro, nunca poderá ser silenciada ou esquecida. Seu legado como uma das maiores vozes do Brasil, que gritou ao mundo que a carne negra é a mais barata do mercado, nos convoca a lutar bravamente por respeito, por um país menos desigual e com mais música e arte. Falar de Elza é falar sempre no presente, pois uma voz como a sua não se perde no tempo e nem na memória”, frisou.

O secretário de Direitos Humanos de Niterói, Raphael Costa, também mostrou a gratidão pela estrela do samba. “Uma gratidão que temos por ela. Foi uma mulher que na sua vida superou a fome, o racismo, a pobreza e as desigualdades sociais. Na sua trajetória encarnou as lutas do povo brasileiro. As suas obras artísticas mostram a resistência do povo brasileiro, as letras denunciam as lutas das mulheres, sua obra está ligada a diversificação do Brasil e permanece eterna como símbolo do empoderamento do povo e das mulheres”, frisou.

Elza Soares morreu no dia 20 de janeiro com 91 anos

A Subsecretária de Promoção de Igualdade Racial (Supir) de Niterói, Glória Anselmo, se emocionou ao falar da morte de Elza Soares. “Para mim ela é mais que um ícone. Uma mulher negra, de periferia, de luta e de muita garra. Superou todas as dificuldades para sair desse lugar de invisibilidade que vive a maioria das mulheres negras. Ela representa a condição de mulher lutadora, que venceu os preconceitos ainda na juventude. Rompeu os grilhões com um pai machista e um marido violento. Os 91 anos que viveu foi sempre lutando, ganhando espaço, conquistando vitórias e enfrentando o racismo e contribuindo para a emancipação das mulheres pobres desse país.  Virou uma estrelinha no céu”, salientou.

A especialista em direito antidiscriminatório e militante contra o racismo, Michelle Vargas, também frisou o empoderamento de Elza Soares. “Elza foi, é e sempre será a voz de todas as mulheres na busca de um mundo mais justo, sinônimo de representatividade, força e empoderamento que nos trouxe a certeza de que se calar não é mais uma opção! Ela nos deu voz e temos o dever de manter seu legado e sua memória viva em prol de uma sociedade melhor e para que tenhamos mais ‘Elzas’ espalhadas pelo mundo”, finalizou.

Raquel Morais

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