Durma-se com um silêncio desses!

Quatro e 53 da madrugada. Acordo mansamente, sem sobressaltos, apesar do sonho forte, turbo, intercooler. Desde a adolescência os sonhos me norteiam e desnorteiam, como deve ter acontecido com Olavo Bilac em uma das maiores e mais belas bebedeiras da literatura brasileira; “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo/Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto/ Que, para ouvi-las, muita vez desperto/E abro as janelas, pálido de espanto…(…)

Se fosse nos anos 60 iam dizer que Bilac estava encharcado de LSD até as vísceras porque ouvir estrelas é atribuição de doidaralhaços. Aliás, um pequeno desvio. Olavo Bilac era assíduo frequentador do lendário Café Paris, bar que foi pista de pouso de poetas e intelectuais na década de 1910 até 1920, quando em 1942 as obras de construção da avenida Amaral Peixoto passaram por cima do estabelecimento. 

Entre os frequentadores do Café Paris estavam Nestor Tangerini, Lili Leitão, Renê de Descartes Medeiros, Luiz de Gonzaga, Altino Pires, Alcides Figueiredo, Raul Sá Pinto, Luciano Gualberto, Júlio Seabra, Isidro Nunes, Guilherme Cruz, Joaquim Peixoto, Eurípides Ribeiro e Luís de Sousa Dias.

Bilac não sonhou, se inspirou. Como também se inspira o presidente da Academia Brasileira de Letras, o grande niteroiense Marco Lucchesi, premiado poeta, escritor, romancista, ensaísta, tradutor e esperantista brasileiro, sétimo ocupante da cadeira número 15 (que foi de Bilac) da Academia. Ele tem um telescópio em sua casa em Itacoatiara onde observa e, quem sabe, também ouve estrelas.

De volta a insônia rodo pela casa, ligo a TV, olho, mas nada vejo. Pensamentos estratosféricos parecem o Sputinik em 1958. Vou até a janela e Icaraí parece Londres em blecaute durante a guerra. Escuridão total, só a luz vermelha de sinalização para aviões na ponta das antenas atesta a existência de vida no planeta.

Na pandemia Niterói parece Trajano de Moraes, mas sem as delícias do orvalho, som de grilos, uivos, sussurros, riachos e tudo mais que dizem que aquela deliciosa cidade tem. Ainda não conheço, só pelos altíssimos indicadores de qualidade de vida. Em Niterói, nem barulho de ar condicionado porque as pessoas, com razão, fogem da punhalada da conta de luz. Pensei em dar uma volta de bicicleta, mas o toque de recolher vai até as seis da manhã.

Nada contra a insônia, apenas uma certa impaciência, apesar da calma da madrugada, telefones mudos, celular calado, o famigerado whatsapp quieto. Tanto que já escrevi até aqui se interrupção.

Mas o fato das comunicações estarem a disposição de madrugada me trouxe esse vício, o tal do passarinho quando anda com morcego acaba dormindo de cabEça pra baixo. Posso dar um giro pela internet sem ser importunado, sapatear nos satélites, conversar com o Congo. De madrugada tenho a sensação de que posso fazer tudo porque tudo funciona.

Meu relógio biológico é oportunista e prático. Em geral durmo cedo sexta e sábado para, quem sabe, atravessar o dia seguinte na praia. E praia vou o ano inteiro porque concluí que não existem praias feias com chuva, com tempo nublado ou em plena tempestade. Correção: ia a praia o ano inteiro. Não tenho ido mais.

As praias são lindas de qualquer jeito. Em Itaipu, minha amásia e confidente, quando chove e o vento traz aquela bruma branca parece com a costa da Escócia, que conheço via cinema. Nos dias frios, de céu azul profundo, lembra a Cornualha, descrita por um de meus heróis, Pete Townshend, que tem uma mansão lá, uma dúzia de veleiros, hangar, cachorros.

Já sob tempestade lembra a capa de “Love Over Gold”, um dos grandes discos do Dire Straits. É por isso que tenho certeza de que Itaipu é a mais gostosa das filhas de Ryan.

Não sei se o fato de trabalhar 13 horas por dia interfere no meu relógio biológico. Há quem diga que isso é estresse. Só que eu nunca estou estressado, eu sou estressado. Anos atrás experimentei ficar sem fazer nada durante três meses. Larguei tudo. Em menos de 20 dias estava de volta ao jornal, de joelhos, pedindo perdão. Nunca me senti tão mal na vida. Dormia o dia inteiro, comia pouco, tinha sonhos melancólicos, que depressão! Isso sim é masoquismo.

No dia em que levantei para voltar ao jornal, fui fazer a barba e vi, no espelho, que estava com aquele semblante típico dos “à toas”. O suor cheira a naftalina, cobertor das Casas Pernambucanas, e no radinho toca “A Lua e eu”, de Cassiano; “quando olho no espelho/estou ficando velho e acabado…”.

É evidente que não pretendo fazer apologia do sono “flash”, da popular e temida insônia. Afinal, fora as criaturas da noite, todas as aves e mamíferos se recolhem no crepúsculo e se levantam na alvorada. Leio que os sapiens dormiam cedo e acordavam cedo. O que me assustou no texto foi a média de vida deles: 17 anos.

Essa lenda de relógio biológico só deve ser terrível para as pessoas que não gostam de dormir de dia ou sofrem amargamente com a solidão. Quem vira uma noite tem que se habituar com dois sons altamente melancólicos: 1) O primeiro ônibus; 2) Canto dos pardais e bentevis. Já quem convive mal com o dia e ama a noite é obrigado a engolir outros dois sons, também tristíssimos, de fim de tarde: 1) Canto de cigarra; 2) Sirene de obra informando que o acabou o expediente. É horrível

Mas pouca coisa foi pior do que uma noite em que acordei as 3 horas da madrugada numa pousada na serra da Bocaina, sem luz, sem livros (ler à luz de velas é terrível) e, ainda por cima, chovendo. Confesso que sofri. Sofri mais ainda com o barulho de um rio que me deixou alucinado, com uma estúpida vontade de desligá-lo. luizantoniomellomail@gmail.com

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