Dor e muita emoção no enterro de jogador morto na Grota

Wellington Serrano –

Mais de mil pessoas acompanharam na tarde de ontem o enterro no Cemitério São Francisco Xavier, em Charitas, do corpo do jovem Dyogo Xavier Coutinho, de 16 anos. Ele foi morto na última segunda-feira pós suposto confronto entre policiais e criminosos na comunidade Grota, em São Francisco, Zona Sul de Niterói. Ele tinha acabado de deixar sua casa e estava a caminho de um treino de futebol, quando foi baleado, no fim da manhã.

Aos gritos de “justiça, justiça” a ocasião foi marcada pelos sentimentos de indignação e justiça por parte dos familiares e amigos que conviviam diariamente com o adolescente. Vários amigos e vizinhos estiveram reunidos no enterro com camisas brancas com uma tintura vermelha, representando o sangue do rapaz.

O avô do jogador, Cristovão Brito, lamentou que pegou o neto ao nascer e estava com ele no momento de sua morte. “Quero saber sobre a mochila que estava nas costas dele? Até agora não apareceram nem as chuteiras e a camisa de treino e muito menos os R$ 85 que ele levava”, disse o avô.

A avó de Dyogo, Márcia Regina, de 58 anos, contou que soube de testemunhas que o neto chegou a dizer ao policial que era jogador de futebol e que estava indo para o clube, no município de Mesquita, na Baixada Fluminense. Segundo ela, mesmo assim o agente de segurança teria mandado o jovem se virar.

A vizinha Maria de Fátima Lemos, de 58 anos, perguntou até quando situações como essa serão rotina nas comunidades. “Mais um para as estatísticas, né?”, indagou. Mesma opinião de um amigo que chorava copiosamente: “Ele não merecia isso. Era um rapaz muito esforçado e respeitador. Queremos justiça e ninguém faz nada. Que país é esse que a gente vive?”, lamentou Jonatan da Silva Ferreira.

Incontáveis foram os vídeos e fotos compartilhadas por pessoas que estavam tanto no enterro quanto na passeata. Todas as publicações chamavam carinhosamente o jogador pelo apelido de “Dondom”, que foi dado pelo avô.

Grito de gerra no caixão

O grito de guerra “1,2,3, oh, oh, oh Meca”, do time do América, que sempre é ecoado pelos jogadores momentos antes das partidas, desta vez foi ao lado do caixão do companheiro de equipe. Uma situação que nunca foi imaginada pelo capitão Pethrus de Sá Ferreira, que é lateral direito. “Dyogo era um jogador de bom coração. Não conheço uma pessoa que não gostava dele, vai fazer falta em campo”, lamentou Pethrus ao afirmar que na próxima partida irá jogar com a camisa número 5, em homenagem ao amigo.

O América, clube onde Dyogo treinava, emitiu nota oficial lamentando a morte do jogador: “O America Football Club recebeu no fim da tarde desta segunda-feira, com imensa tristeza e perplexidade, a notícia da morte de Dyogo Xavier Coutinho, de 16 anos, que treinava no plantel de atletas da categoria sub-17 de nosso clube. Dyogo ainda não era atleta federado, mas integrava um grupo específico de atletas mais jovens da referida categoria que disputava torneios não oficiais”.

Volante estava sendo sondado pelo Fluminense
Segundo o supervisor da equipe sub-17, Antônio Carlos Villa Flor Brito, Dyogo estava sendo monitorado dia a dia por olheiros do Fluminense. “É, isso é verdade! Inclusive nós jogaríamos nesta quinta-feira (amanhã) contra eles e seria uma partida divisor de águar na carreira do Dyogo”, lamentou, emocionado.

Ele disse que costumava dar carona ao Dyogo. “Como é que vou falar agora de sonho com o resto da equipe?. [Dyego] Estava a 80% de ser um jogador profissional. Era um garoto diferenciado, amoroso, educado e carinhoso, que demonstrava a todos a personalidade que tinha”, destacou.

Passeata
A passeata, que começou no fim do enterro do jogador Dyogo Xavier, não teve confusão na Zona Sul de Niterói, em São Francisco. A Polícia Militar acompanhou todo o trajeto, que passou pela Avenida Ruy Barbosa até a Rua Oto Bastos, na entrada da Grota. Segundo informações, o comércio estava fechado no local por ordem do tráfico.

Dez pessoas responderão por crime de dano
Sobre os protestos ocorridos na tarde de segunda-feira, que deixaram um ônibus incendiado, uma pessoa baleada e vários detidos no bairro de São Francisco, na Zona Sul de Niterói, o comando do 12º BPM (Niterói) explicou que policiais, ao passarem em frente à garagem de ônibus da Viação Miramar, na Avenida Rui Barbosa, se depararam com uma manifestação na qual, segundo os policiais, os moradores arremessavam vários objetos na rua, visando obstruir as vias.

A PM informou ainda que havia cerca de 50 pessoas no ato, “jogando lixo, e com pedaços de madeiras golpeavam lixeiras, ateando fogo nos objetos”. A guarnição agiu e conseguiu dispersar o grupo, e dominou vários envolvidos, conduzindo os mesmos para central de flagrantes, segundo o 12º BPM, enquadrados no art. 262 do Código Penal, por expor a perigo outro meio de transporte público, impedir-lhe ou dificultar-lhe o funcionamento. A pena pode ser de detenção de um a dois anos. Entre dez apontados (cinco homens e cinco mulheres), enumerados pela PM, um possuía anotações criminais anteriores (quatro vezes por crime de tráfico). Segundo a Polícia, todos foram “autuados e liberados”, após serem conduzidos para a delegacia.

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