Do milagre à superação

Camilla Galeano

Mostrar o seu talento dentro da quadra sempre foi algo assíduo na vida de André Lima, de 31 anos. O eterno camisa 10 no futsal de Niterói, coleciona gols, títulos e agora, o início de uma história na carreira como treinador.

Conhecido como Andrezinho, ele foi o herói na conquista do título do Canto do Rio, conhecido como Cantusca, pelo Campeonato de Futsal em 2017. Foram dois gols na última partida, além da artilharia no campeonato. Hoje, em um projeto autoral, ele treina o time adulto de futsal do Fonseca Atlético Clube.

André começou no esporte ainda criança, e mesmo enfrentando a perda do pai tão jovem, perseverou no sonho.

“O futsal sempre foi minha vida. Eu comecei bem cedo no Clube Fonseca e logo depois fui para o Tio Sam. Quando eu tinha quase 13 anos, perdi meu pai. E com isso as coisas sobre a minha vida ficaram para que eu decidisse. Minha mãe sempre me ajudou muito, mas meu irmão é seis anos mais novo e dependia mais dela na época. Então eu optei por seguir no futsal”, explica André.

O maior obstáculo da carreira dele veio duas semanas depois do título. O atleta, à época com 28 anos, sofreu um acidente de moto que o deixou impossibilitado de voltar a jogar. Mas para quem tem o esporte correndo nas veias, isso não o impediu de permanecer no clube. Como “scout”, aquele que dá assistência à comissão técnica das equipes de futsal, ele passou a ajudar na avaliação dos atletas.

Para homenagear o atleta, o Canto do Rio aposentou de vez a camisa 10 do futsal, e entregou a azul e branco ao artilheiro.

“Ela tem um significado muito grande. Acho que tanto ela quanto a medalha, e o clube em si. Terminamos o campeonato sendo campeões, ao lado dos amigos, em um clube que não ganhava um título há muitos anos, e um projeto que estava desacreditado por todo mundo. Só quem estava ali passando as dificuldades do dia a dia é que sabia onde podíamos chegar. Para o clube foi um troféu de campeão, o que foi uma felicidade enorme. Para mim, foi um troféu de artilheiro, o melhor jogador do campeonato. Agora eu estou aposentado como jogador, esse foi o último troféu. Então eu vou colocar na prateleira do meu quarto e vou olhar sempre para ele e ter boas recordações””, disse.

André carrega uma história curiosa gravada em sua pele. Tatuagem geralmente tem significados importantes para os donos. Mas para André, uma é mais do que especial.

“Eu tenho uma Nossa Senhora Aparecida, que agora é a mais bonita, a melhor. Posso dizer que salvou a minha perna nesse acidente. Não sou devoto, não sou aquele frequentador. Mas tenho a minha fé. Sempre tive.”

Coincidência ou fé, o ex-jogador diz que teve a proteção da santa no momento do acidente.

“Não sei nem a melhor palavra para expressar. Mas no acidente que eu tive, ela não foi ferida. Ralou a perna toda em volta da tatuagem. Meu pé tem uma cicatriz enorme próximo a ela. Eu fiquei 45 dias internado depois de ter operado a coluna, e tive alta no Dia de Nossa Senhora Aparecida, 12 de outubro. É uma coisa que marca, além do futebol. Aonde eu passo todo mundo pergunta e quer ver”, afirmou.

Sem deixar a peteca cair, ou melhor, sem perder a bola, Andrezinho deu a volta por cima e continuou colaborando com o futsal. Logo após toda a reviravolta em sua vida, devido ao acidente, o Clube Canto do Rio abriu as portas para que ele iniciasse a carreira de treinador com as crianças. Depois disso, acrescentou ao currículo uma empresa de intercâmbio esportivo onde trabalhava com adolescentes, o trabalho de treinador no time de futsal adulto dos jogos universitários da UFF e finalmente, um projeto para chamar de seu. André montou o time de futsal adulto no Fonseca Atlético Clube.

“Desde a época que eu fui campeão no Canto do Rio, em 2017, Niterói não teve mais nenhum time disputando o campeonato carioca de futsal adulto. Como eu sou nascido e criado no Clube Fonseca, achei que seria uma boa eu levar meu projeto para lá, porque foi o clube onde começou toda a minha trajetória quando eu tinha cinco anos de idade na escolinha”.

O clube abraçou a ideia. André conseguiu os patrocinadores e o projeto começou a sair do papel. “Tudo que eu consigo de patrocínio é voltado diretamente para o time. Nada é repassado ao clube. Porque eu represento a instituição, mas o projeto é meu. Já disputamos o primeiro Campeonato Carioca. Serviu para enxergarmos as falhas, acertar muitas coisas”, declarou.

Mas 2020 não foi um ano fácil. A pandemia chegou e as dificuldades começaram a surgir. Clube fechado, sem treino, campeonato adiado, perda de patrocínio, time todo adoecido com a Covid. Muitos obstáculos, mas que não foram suficientes para fazer André desistir.

“Foi muito difícil. Há muitos anos o Fonseca não tinha a categoria adulta.

Então muita gente se interessou, se ofereceu para ajudar. Quando veio a pandemia, nós perdemos muitos patrocínios porque parou tudo, a gente não podia mais treinar. O campeonato que já tinha tudo marcado, foi adiado.

Não podíamos usar a quadra para treinar porque Niterói ainda não tinha autorizado a reabertura dos clubes. Então a saída foi alugar uma quadra no São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. Graças aos dois patrocínios que permaneceram, a gente conseguiu fazer isso. Quando Fonseca foi autorizado a reabrir, voltamos a treinar lá por duas vezes na semana”.

O campeonato começou e mais dificuldades apareceram. O time iniciou a competição com o elenco reduzido.

“Alguns atletas desistiram dos treinos. E quando chegamos em um jogo decisivo, eu estava sem seis atletas, porque todos pegaram Covid-19. Perdemos o jogo e fomos desclassificados na primeira fase. Mas é um projeto iniciante e resolvemos tirar tudo isso como aprendizado e fortalecer para o próximo ano”, disse.

André segue com esperança pra 2021. “Estamos atrás de mais patrocinadores, mas o projeto segue firme e forte no próximo ano”.

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