Disparada dos preços de combustíveis atinge quem depende de aplicativos

Desequilíbrio entre oferta e demanda por viagens cria dificuldade para usuários das plataformas

Fenômeno que se repete em todo país, alta no preço da gasolina e aumento da demanda de passageiros se tornou um desafio para motoristas de aplicativos que trabalham em Niterói e região. Profissionais do setor reclamam que taxas de repasses praticadas por empresas não conseguem acompanhar os sucessivos reajustes no preço dos combustíveis.

A alta da gasolina, que chega a R$ 7 em alguns postos de Niterói, afetou diretamente a rotina de motoristas que circulam por aplicativo. Passageiros de empresas como Uber e 99 relatam dificuldades para conseguir corridas, assim como as empresas confirmam que menos carros de apps estão ruas. As reclamações mais frequentes envolvem o tempo de espera e a quantidade de cancelamentos, por parte dos consumidores, e baixo valor dos repasses, por parte dos motoristas de aplicativo. Segundo informações divulgadas em estudos recentes, esses dois tipos de problemas aumentaram bastante ao longo deste ano.

Nas ruas da cidade, usuários relatam já terem se deparado com dificuldades para conseguir viagens através dos aplicativos. Moradora do Fonseca, a empreendedora Rita Loureiro, afirma que vem encontrando dificuldade para conseguir motoristas disponíveis para no trecho entre sua residência e algumas regiões importantes da cidade, como Icaraí e Ingá, por exemplo.

“Observei que, a partir de agosto, minhas solicitações de viagens no aplicativo Uber começaram a demorar cada vez mais para serem atendidas. Nem moro numa região tão difícil assim e muitas vezes me desloco até a Alameda [São Boaventura] para pedir um Uber, no entanto, em diversas ocasiões, a corrida foi cancelada pelo motorista. Em algumas ocasiões a demora foi tanta que precisei recorrer ao táxi para não perder meu compromisso”, destaca a empreendedora.

Os motoristas de aplicativo confirmam que estão precisando ser cada vez mais seletivos com a escolha das viagens, como uma estratégia para redução dos altos custos. Segundo os profissionais, sem reajuste no valor das taxas de repasses, está cada vez mais difícil se manter na profissão, como explica o motorista de aplicativo, Carlos Bueno, que presta serviço para dois aplicativos.

“Preciso adotar estratégias e ser muito seletivo com as viagens que aceito para conseguir valer a pena me manter no serviço. Geralmente escolho um local de alta demanda por viagens, de modo que consiga ‘deixar’ um cliente e, logo em seguida e ainda na mesma região, consiga outro, sem precisar ‘rodar’ muito. Também não compensa aceitar uma corrida de valor muito reduzido que irá me ‘prender’ muito tempo no trânsito. Somente com estratégias como essa consigo pagar os custos com combustível e manutenção do veículo e ainda faturar alguma coisa”, explica o motorista.

Uma prática comum entre quem entra nesse mercado é a de alugar carros para trabalhar. Presidente da Associação Brasileira de Locação de Automóveis (Abla), Paulo Miguel Júnior destaca que, de junho a setembro, houve devolução de 30 mil veículos locados para trabalhadores do setor de transporte por aplicativo no país. “O custo do aluguel somado a essa alta absurda do preço dos combustíveis prejudicou o ganho diário desses motoristas, o que fez com que muitos desistissem da profissão”, observa.

A alta do preço dos combustíveis foi um dos fatores de maior impacto para a vida de quem depende de um carro para trabalhar. Estima-se que uma em cada quatro pessoas que aluga um automóvel para esse fim abandonou a atividade no Brasil. Atualmente, há 170 mil veículos locados para essa categoria, mas o potencial, segundo a Abla, seria de 250 mil, caso o preço do litro ficasse em torno de R$ 4 ou R$ 5.

Paulo César Silva, 55 anos, morador de São Gonçalo, atua como motorista de aplicativo há quase 1 ano. Ele conta que, no início, as taxas e os repasses da empresa para os condutores compensavam as corridas. Agora, com altas constantes da gasolina e sem reajuste das taxas por viagem, Paulo afirma ter limitado as atividades. “Está muito difícil continuar trabalhando desse jeito. A cada semana, você vai abastecer e encontra um preço diferente. Praticamente nós estamos apenas ‘trocando dinheiro’. Nós ganhamos por km e muitas vezes vamos até muito longe para buscar um passageiro e sua viagem acaba rendendo apenas alguns centavos. Então, muitas vezes nem compensa, mas precisamos trabalhar”, argumenta.

O motorista diz que evita negar corridas, mas reconhece que a conduta tem aumentado entre os trabalhadores das plataformas de transporte. “Eu não cancelo muito, mas vejo passageiros reclamarem que está difícil conseguir as viagens. Isso acontece porque algumas são para muito perto, e não compensa o gasto da gasolina com o valor a ser recebido. Ou o motorista cancela porque é longe e vai gastar muito combustível”, esclarece Paulo.

Esclarecimentos

A Uber informa que a demanda por motoristas cresceu nos últimos meses e, por isso, os usuários têm esperado mais tempo por uma viagem. Com essa instabilidade temporária no setor, podem ocorrer cancelamentos com mais frequência ou recusa de viagens pelos condutores. “A empresa tem implementado iniciativas adicionais que buscam promover o reequilíbrio do mercado no curto e no longo prazo. Nos momentos de desequilíbrio localizado, o mecanismo de preço dinâmico entra em vigor automaticamente. Com o aumento dos combustíveis, a Uber tem intensificado esforços para ajudar motoristas a reduzir gastos, com parcerias que oferecem descontos”, informou a plataforma.

Em nota, a 99 comunicou que não observa redução no número de motoristas, mas aumento da demanda de passageiros. A empresa não registrou altos índices de cancelamentos porque permite que motoristas e passageiros rejeitem viagens antes de serem confirmadas. “Recentemente, como forma de manter o equilíbrio da plataforma diante dos constantes reajustes dos combustíveis, que impactam negativamente o transporte por aplicativo, a 99 reajustou os ganhos dos motoristas parceiros entre 10% e 25%”, justifica a empresa.

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