Direto de Paquetá, Ricky Goodwin homenageia nossa crônica em a Tribuna

Semana passada publiquei aqui em A Tribuna a crônica “A Égua de Paquetá” e para a minha explosiva surpresa li no Facebook um post do gigantesco Ricky Goodwin.

Ricky é um cara do cacete que conheci nos anos 1970 no semanário O Pasquim, onde trabalhei. Ele salvou a memória do jornal porque gravava e editava todas as maravilhosas entrevistas do corajoso semanário (https://tinyurl.com/y2b89utv ) .

Jornalista, desenhista, diretor de cinema, Ricky mudou para Paquetá há muitos anos, por isso respondeu a crônica. Leia:

Pois é…. acabaram as charretes…. sumiram os cavalos…. onde andará então Josélia??

Perambulo por Paquetá procurando.

Pode estar em alguma praia, por trás de um flamboyant,

com suas coxas de romã, em alguma casa velha – Josélia!

Vou na cocheira abandonada, sob um teto sem telha.

Me dá na telha, achar Josélia ali, mas nada vi.

Não há mais éguas ali, estou a léguas daquele tempo

em que a misteriosa mocinha emocionou o jovem rebento.

E me arrebento, me arrebato, perseguindo esse fato:

Como será a Josélia, como estará

Bem casada, com filhos, netos, ou vivendo ao deus-dará?

Como uma deusa do sexo, dadivosa, tão gostosa,

Atrás de uma cerca, em carinhos selvagens

Ou disse adeus ao sexo, em caminhos sem miragens?

Nessas noites de lua cheia, quando caminho ao luar,

ouço no vento que chega por sobre as ondas do mar

um trotar intermitente e voz quente a sussurrar

– Você quer?

Mas não é uma mulher.

E agora o meu querer

De voltar aos verões vividos como antes

Quando senti por gloriosos instantes

O desejo me lambendo de tesão insinuante

Eu no pelo da cavala

Ela, nua em pelo,

Eu a chamá-la

Josélia!

Gosto de groselha

O sexo a galopar em Paquetá

Debaixo da sombra daquela amendoeira

E os beijos que me ardem por uma vida inteira

Para Luiz Antonio Mello

Paquetá, pandemia de 2020.

Estou procurando uma outra crônica que envolve Paquetá, que tornou-se uma ilha emblema para mim, libidinosa, poética, linda. Depois da pandemia e do verão, em abril, irei aí tomar um café contigo, Ricky.

A outra crônica foi escrita no dia em que Josélia me deu um pé no rabo porque eu não queria casar. Disse que o problema não era casar, mas não explicava direito. Eu achava que casando Josélia deixaria de ser a Josélia, a cavala mais ordinária que o destino me brindou naqueles tempos porque íamos cair no esquema de família, almoços de domingo e tal.

Objetiva como sempre, a mulher que escolhia a dedo (literalmente) com quem deitava nas relvas paquetenses, chegou na estação da barca e determinou: “pegue a barca e não volte nunca mais. Virou de costas e saiu”. Foi horrível. Apaixonado, vendo Josélia com aquele lorto rebolando dentro do vestidinho de chita amarelo clarinho, sem calcinha, quase me fez casar.

Fui salvo pela cornofobia. Quando a barca chegou fui para aquela varanda no andar de cima, lá atrás, na popa, onde tremulava uma bandeira do Brasil e chorei como um jegue na chuva. Pela lógica tosca da cornofobia o pé na bunda é o AI-5 de uma mulher, a bola sete, a última cesta, último recurso. Josélia começou a falar de casamento naquele domingo e naquele domingo mesmo me ejetou, ou seja, não me amava. Ela amava as minhas perversões, vastas emoções e pensamentos imperfeitos (como escreveu o mestre Rubem Fonseca), enfim, Josélia era mulher de verdade porque fora o gip gip nheco nheco (essa é do Pasquim) o resto é perfumaria, meu chapa. Freud tem razão.

Escrevi a outra crônica na barca de volta, que poderia se chamar “Titanic 2”. A viagem Paquetá-Rio demorava duas horas e varada. Comecei escrevendo que “Azul Calcinha estava na garupa da Yamaha 350 RD do irmão dela que me emprestou mediante uns trocados. A RD 350 ficou conhecida como “assassina” porque matava todo mundo. Muito potente, motor de dois tempos, tinha um funcionamento irregular, empinava e derrubava. Para piorar, os freios eram péssimos. Tanto que a Yamaha foi obrigada a parar de fabricar.

Eu descia a Noronha Torrezão com uma dessas, verde musgo, quando Azul Calcinha, excitada com a velocidade, com o pou! pou! pou! e a fumaça azul do motor dois tempos, os gritos de “vai, maluco!” do povo, com os seios durinhos roçando em minhas costas não resistiu e crau!, me patolou.”

Assim começava a crônica. Eu era editor de um semanário em Niterói e escrevia uma coluna chamada Sexus – Plexus – Nexus, homenagem à trilogia devassa de Henry Miller, os livros sagrados do onanismo mundial. Eu assinava como Jefferson Camarão porque Niterói sempre foi a capital do recato e não era de bom tom botar a cara na reta.

Não sei como (até sei, eu acho) o jornal foi parar nas mãos de Josélia que reconheceu as minhas mal traçadas linhas. Ela reagiu ao ler a saga de Azul Calcinha e passou a me procurar. Inicialmente cobrando, me chamando de canalha, dizendo que na semana seguinte ao fim de nosso romance eu já estava na esbórnia andando de moto com mulheres de calcinha azul na garupa. Josélia começou a se exceder, ligava a noite meio bêbada “como demorei a perceber que você é o homem da minha vida…” e ameaçou ficar chata. Ou seria uma manobra inconsciente da cornofobia? Não sei.

Joguei a pá de cal 20 dias depois em Sexus – Plexus – Nexus. Lá embaixo, última linha, um P.S. – J. não é Calcinha Azul, é Azul Calcinha.

(Caro leitor, acabou o espaço, continua qualquer dia desses).

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