Dia do Índio: Covid-19 muda celebração nas aldeias de Maricá

“Todo Dia Era Dia De Índio”. O trecho da música escrita por Jorge Ben Jor, que ficou eternizada pela voz de Baby Consuelo, mostra uma reflexão sobre a figura do índio e é um verdadeiro protesto contra as ações do ‘homem branco’ nas aldeias. Resistência, bravura e persistência. Essas são características dos índios que continuam a lutar para preservação da cultura indígena no município de Maricá. No Dia do Índio, comemorado nessa segunda-feira (19), as duas aldeias que a cidade abriga: Mata Verde Bonita (Tekoa Ka’Aguy Ovy Porã), em São José do Imbassaí, e Sítio do Céu (Pevaé Porã Tekoa Ará Hovy Py), em Itaipuaçu; tiveram suas celebrações mudadas por conta da Covid-19.

A cacique Jurema, de 39 anos, da Aldeia Mata Verde Bonita, explicou que a tradicional festa do dis 19 de abril deu lugar a uma celebração intimista e reservada apenas para os membros da aldeia. “Não vamos ter celebração aberta ao público. Hoje é nosso dia e seria um dia de apresentação, pintura especial, canto e a dança para a população se aproximar da nossa cultura. Estamos todos vacinados contra a Covid-19 mas não vamos nos arriscar”, garantiu.

O dia será de festa entre os 135 índios (divididos em 39 famílias). O almoço será especial com prato típico: tilápia assada na folha de bananeira com farofa de fubá. “Vamos fazer um canto especial para celebrar o nosso dia, a nossa cultura e nossos ancestrais. A noite também teremos uma fogueira com uma reza”, completou a cacique.

As duas aldeias estão fechadas para a visitação desde o início da pandemia do coronavírus. A Mata Verde Bonita (Tekoa Ka’Aguy Ovy Porã) foi formada em abril de 2013 quando chegaram à Maricá após desocuparem uma área na Praia de Camboinhas, na Região Oceânica de Niterói, na então aldeia Semente. O grupo chegou a visitar algumas áreas públicas em Maricá, como por exemplo, no Caxito, Bambuí e Ponta Negra. Segundo eles as áreas ‘não eram espiritualmente boas’ para a aldeia. Segundo a Prefeitura de Maricá foi escolhida uma região de 93 hectares, entre São José do Imbassaí e Itaipuaçu, e com uma estrutura rústica (feita com argila, bambu e palha) fizeram suas ocas, que também ganharam chuveiros com aquecimento de energia solar. Já a aldeia indígena Sítio do Céu (Pevaé Porã Tekoa Ará Hovy Py) fica na localidade de Morada das Águias, em Itaipuaçu.

O ecologista Sérgio Ricardo Verde Potiguara, representante do Conselho Estadual dos Direitos Indígenas (CEDIND-RJ), frisou a importância dessa data para todo o país. “Todo dia deveria ser o dia do índio que são os fundadores da nossa nação. Esse ano e no ano passado muitas atividades foram suspensas. Os índios enfrentam muitos problemas e temos muitos propósitos dentro do conselho, desde estimular a educação indígena que é prevista no Plano Nacional de Educação, até mesmo a delimitação dos seus espaços. O Brasil precisa descolonizar o pensamento. Ainda somos uma sociedade que ainda tem a mentalidade colonial europeia. As escolas só usam o dia de hoje [ontem] para valorizar o índio. Isso é preciso ser pensado todos os dias”, pontuou.

“O Dia do Índio é importante para preservar a manutenção da cultura indígena em nosso país. Maricá, por exemplo, é conhecida pelo cuidado com os índios da aldeia localizada em São José do Imbassaí, tanto que eles foram, prioritariamente, vacinados contra o Covid-19. Precisamos manter a cultura viva!”, frisou Aldair de Linda, presidente da Câmara de Vereadores de Maricá.

NITERÓI E OS ÍNDIOS
Antes da chegada dos portugueses em Niterói a cidade era habitada por quatro tribos tupinambá. O índio guerreiro Arariboia, da tribo Temiminó, fundou a cidade após derrotar os franceses. Segundo o portal Cultura Niterói a cidade é a única do Brasil fundada por um índio, o cacique temiminó Arariboia, que em tupi-guarani significa “Cobra da Tempestade”. Ele foi um personagem importante, tanto para a história de Niterói, quanto para a história do Rio de Janeiro e da colonização portuguesa no Brasil. Sua herança perpetuou na cidade, seja com sua famosa estátua de braços cruzados vigiando a Baía de Guanabara e protegendo o município, com seu busto na histórica Igreja de São Lourenço dos Índios.

DIA DO ÍNDIO
De acordo com o Portal Brasil Escola o dia 19 de abril remete ao dia em que delegados indígenas, representantes de várias etnias de países como o Chile e o México, reuniram-se, em 1940, no Primeiro Congresso Indigenista Interamericano. Essa reunião tinha o propósito de discutir várias pautas a respeito da situação dos povos indígenas após séculos de colonização e da construção dos Estados Nacionais nas Américas. O Congresso serviu como agenda programática para essas políticas públicas. Uma das decisões tomadas foi a escolha do dia em que ocorreu o congresso como o Dia do Índio. A partir do ano seguinte, vários países do continente americano passaram a incluir em seus calendários o 19 de abril como dia de homenagem aos povos nativos ou indígenas. No caso do Brasil, o Dia do Índio foi instituído via decreto-lei, em 1943, pelo então presidente Getúlio Vargas.

Raquel Morais

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